Anquiloglossia e ganho de peso infantil: um estudo de métodos mistos

Fonte: American Academy of Pediatrics

Anquiloglossia e ganho de peso infantil: um estudo de métodos mistos Sobre o Artigo  A anquiloglossia (língua presa) é frequentemente apontada como causa de dificuldades na amamentação, incluindo pega inadequada, dor mamilar, alimentação prolongada e desmame precoce. Apesar do aumento expressivo das frenotomias em diversos países, não houve aumento proporcional das taxas de aleitamento materno exclusivo (AME), gerando dúvidas sobre a real contribuição da anquiloglossia para o sucesso da amamentação. O objetivo deste estudo foi avaliar se a anquiloglossia não tratada está associada à interrupção precoce do AME aos 6 meses e ao comprometimento do ganho ponderal infantil. Também buscou identificar, por meio de entrevistas qualitativas, os fatores maternos, familiares e assistenciais relacionados ao desmame precoce. Métodos Utilizados Estudo sequencial explicativo de métodos mistos realizado em hospital terciário materno-infantil de Hyderabad, Índia. População 476 díades mãe-bebê recrutadas nas primeiras 48 horas após o nascimento. 366 recém-nascidos sem anquiloglossia. 110 recém-nascidos com anquiloglossia. Avaliação da Anquiloglossia Utilização do Bristol Tongue Assessment Tool (BTAT). Escore <8 foi considerado diagnóstico de anquiloglossia. Seguimento Contatos telefônicos realizados em: 2–4 semanas; 3 meses; 6 meses. Desfechos Primários Aleitamento materno exclusivo aos 6 meses. Velocidade de ganho de peso infantil. Componente Qualitativo 36 mães participaram de entrevistas semiestruturadas. Investigação de fatores associados ao sucesso ou interrupção precoce do aleitamento materno. Resultados Características da Coorte Prevalência de anquiloglossia: 23,1%. Apenas 2 lactentes apresentavam restrição grave da mobilidade lingual. A maioria apresentava anquiloglossia leve a moderada. Aleitamento Materno Exclusivo Não houve diferença significativa entre os grupos: Tempo de avaliação Sem anquiloglossia Com anquiloglossia p 2–4 semanas 88,5% 92,6% 0,39 3 meses 84,6% 77,7% 0,18 6 meses 81,4% 78,6% 0,60 A gravidade da anquiloglossia também não influenciou as taxas de AME aos 6 meses. Ganho de Peso Não foram observadas diferenças significativas na velocidade de ganho ponderal: Período Sem anquiloglossia Com anquiloglossia 0–3 meses 26,3 g/dia 26,0 g/dia 3–6 meses 19,3 g/dia 20,4 g/dia Fatores Associados ao Desmame Precoce A única variável significativamente associada à menor chance de AME aos 6 meses foi: Preocupação materna com produção insuficiente de leite nas primeiras semanas pós-parto OR: 0,22 p = 0,003 A presença de anquiloglossia não foi fator preditor independente de interrupção do aleitamento. Achados Qualitativos Os principais fatores relatados pelas mães que interromperam precocemente o AME foram: Percepção de leite insuficiente. Sensação de fome persistente do bebê. Recomendações precoces de fórmula infantil. Falta de aconselhamento especializado em amamentação. Influência de familiares. Dor mamilar e dificuldades de pega foram relatadas por poucas mães em ambos os grupos. Discussão Os resultados sugerem que a anquiloglossia isoladamente não é o principal determinante do sucesso ou fracasso da amamentação. Embora a frenotomia possa beneficiar casos sintomáticos, muitos lactentes com anquiloglossia leve ou moderada conseguem manter aleitamento exclusivo sem intervenção cirúrgica. O estudo reforça que o manejo da amamentação deve envolver avaliação multidisciplinar da díade mãe-bebê, considerando: Produção láctea materna; Autoeficácia para amamentar; Apoio familiar; Aconselhamento especializado; Condições maternas e infantis concomitantes. Os autores destacam que o foco excessivo na anquiloglossia pode levar à negligência de outros fatores mais relevantes para o desmame precoce. Conclusão A anquiloglossia não tratada, especialmente nos casos leves e moderados, não esteve associada à redução das taxas de aleitamento materno exclusivo aos 6 meses nem ao pior ganho ponderal infantil. A principal barreira identificada para manutenção da amamentação foi a preocupação materna com produção insuficiente de leite. Estratégias para melhorar os desfechos de aleitamento devem priorizar educação, aconselhamento especializado e suporte multidisciplinar, em vez de focar exclusivamente na presença de anquiloglossia. Insights Clínicos  A anquiloglossia reduz as taxas de aleitamento materno exclusivo aos 6 meses? Não. As taxas de AME foram semelhantes entre lactentes com e sem anquiloglossia (78,6% vs 81,4%). A anquiloglossia prejudica o ganho de peso do lactente? Não. Não houve diferença significativa na velocidade de ganho ponderal entre os grupos. A gravidade da anquiloglossia influenciou o sucesso da amamentação? Não. O escore BTAT não diferiu entre lactentes que mantiveram ou não AME aos 6 meses. Qual foi o principal fator associado ao desmame precoce? A preocupação materna com baixa produção de leite nas primeiras semanas após o parto. A dor mamilar foi um fator importante para interrupção da amamentação? Não. A frequência de dor mamilar foi baixa e semelhante entre os grupos. O que este estudo sugere para a prática clínica? Antes de indicar frenotomia, deve-se realizar avaliação multidisciplinar da díade mãe-bebê e abordar fatores como técnica de amamentação, produção láctea, apoio familiar e educação em aleitamento materno. Para ver mais conteúdos como este, acesse: NeoPed Hub

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