Febre na Doença Falciforme: Pensando Além da Bacteremia

Fonte: American Academy of Pediatrics

Febre na Doença Falciforme: Pensando Além da Bacteremia  Sobre o Artigo  A febre representa uma das principais causas de atendimento de emergência em crianças e adolescentes com doença falciforme (DF). Embora a bacteremia seja relativamente incomum na era atual, ela permanece uma importante causa de mortalidade. Entretanto, diversas causas não infecciosas também podem explicar quadros febris nesses pacientes e devem ser consideradas quando não há resposta adequada ao tratamento antimicrobiano. O artigo apresenta o caso de uma adolescente de 15 anos com beta-talassemia falciforme que desenvolveu febre persistente durante internação por crise vaso-oclusiva e síndrome torácica aguda, cuja investigação revelou embolia pulmonar e febre medicamentosa induzida por ceftarolina. Métodos Utilizados Trata-se de um relato de caso clínico com abordagem multidisciplinar envolvendo pediatria hospitalar, hematologia, pneumologia e infectologia pediátricas. Foram utilizados: Avaliação clínica seriada. Monitorização laboratorial com hemograma, proteína C reativa (PCR), hemoglobina e frações de hemoglobina. Radiografias seriadas de tórax. Tomografia computadorizada de tórax com contraste. Ecocardiograma e eletrocardiograma. Investigação extensa para causas infecciosas e não infecciosas de febre. Avaliação de trombofilias hereditárias e adquiridas. Seguimento da resposta terapêutica após anticoagulação e suspensão do antibiótico suspeito. Resultados A paciente inicialmente apresentou síndrome torácica aguda com necessidade crescente de suporte respiratório, sendo tratada com ceftriaxona, posteriormente substituída por ceftarolina. Apesar da melhora parcial respiratória, manteve febre persistente e elevação de marcadores inflamatórios. No 11º dia de internação desenvolveu piora respiratória aguda associada a dor torácica pleurítica e elevação importante do D-dímero. A angiotomografia pulmonar confirmou múltiplos êmbolos pulmonares. Foi iniciada anticoagulação com enoxaparina, com melhora clínica progressiva. Entretanto, a febre de alto grau persistiu apesar da melhora respiratória e da ausência de evidências infecciosas em extensa investigação laboratorial e de imagem. A hipótese de febre medicamentosa secundária à ceftarolina foi levantada. Após a suspensão do antibiótico, houve resolução significativa da febre em menos de 72 horas, corroborando o diagnóstico clínico. A paciente recebeu alta após 72 horas afebril, em uso de rivaroxabana por três meses. Discussão Pacientes com doença falciforme apresentam imunocomprometimento relacionado ao hiposplenismo funcional e alterações imunológicas, justificando a investigação agressiva de infecções diante da febre. Contudo, causas não infecciosas devem ser consideradas quando não há foco identificado ou quando a febre persiste apesar do tratamento adequado. A embolia pulmonar representa uma complicação relevante da doença falciforme devido ao estado pró-trombótico crônico. A febre ocorre em aproximadamente 57% dos casos de embolia pulmonar e pode ser acompanhada por leucocitose e elevação de marcadores inflamatórios, simulando infecção. A febre medicamentosa é um diagnóstico de exclusão, frequentemente subdiagnosticado. Costuma surgir entre 7 e 10 dias após o início do medicamento, geralmente apresenta febre moderada a alta e desaparece em até 72 horas após a suspensão da droga. Os antibióticos beta-lactâmicos estão entre os agentes mais frequentemente envolvidos. Neste caso, tanto a embolia pulmonar quanto a febre medicamentosa contribuíram para a persistência do quadro febril, ilustrando a complexidade diagnóstica dos pacientes com doença falciforme hospitalizados. Conclusão Em pacientes com doença falciforme, a febre não deve ser atribuída exclusivamente à bacteremia ou a outras infecções. A persistência da febre apesar da antibioticoterapia adequada exige investigação ampliada para causas não infecciosas, especialmente embolia pulmonar e febre medicamentosa. O reconhecimento precoce dessas condições pode reduzir morbidade, exames desnecessários e prolongamento da internação. Insights Clínicos Quais causas não infecciosas de febre devem ser lembradas em pacientes com doença falciforme? Além da infecção, devem ser consideradas embolia pulmonar, tromboembolismo venoso, febre medicamentosa, reações transfusionais e outras complicações inflamatórias relacionadas à doença falciforme. Quando suspeitar de embolia pulmonar em um paciente com doença falciforme? Na presença de dispneia súbita, dor torácica pleurítica, hipoxemia, taquipneia, aumento da necessidade de oxigênio e elevação do D-dímero, mesmo durante tratamento para síndrome torácica aguda. A febre pode ser causada pela própria embolia pulmonar? Sim. A febre ocorre em aproximadamente 57% dos casos de embolia pulmonar e pode ser acompanhada por leucocitose e PCR elevada, simulando um quadro infeccioso. Quando deve ser considerada febre medicamentosa? Quando a febre persiste sem foco infeccioso definido, especialmente após 7 a 10 dias do início de um medicamento potencialmente implicado, com melhora rápida após sua suspensão. Qual foi o principal indício de febre medicamentosa neste caso? Persistência de febre alta apesar da melhora clínica e respiratória, extensa investigação negativa para infecção e resolução da febre em até 72 horas após a suspensão da ceftarolina. Qual anticoagulante foi utilizado inicialmente para a embolia pulmonar? Enoxaparina (heparina de baixo peso molecular), com ajuste baseado nos níveis de anti-Xa. Qual foi a estratégia de anticoagulação na alta? Transição para rivaroxabana oral, com manutenção planejada por três meses. Para ver mais conteúdos como este, acesse: NeoPed Hub

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