Negligência da escuta (“Listening Neglect”) e percepção de pacientes e familiares de não serem ouvidos durante a hospitalização pediátrica.

Fonte: American Academy of Pediatrics

Negligência da escuta (“Listening Neglect”) e percepção de pacientes e familiares de não serem ouvidos durante a hospitalização pediátrica. Sobre o artigo  A comunicação inadequada permanece como uma das principais causas de erros médicos e eventos adversos em hospitais. Ouvir efetivamente pacientes e familiares envolve atenção, empatia, respeito e valorização das preocupações apresentadas. Apesar da importância da comunicação para a segurança do paciente, existem poucos estudos avaliando como crianças hospitalizadas e seus familiares vivenciam a sensação de não serem ouvidos. O presente estudo buscou compreender em profundidade essas experiências e identificar comportamentos e processos institucionais passíveis de intervenção, propondo o conceito de “Listening Neglect” (Negligência da Escuta) para descrever esse fenômeno. Métodos utilizados Estudo multicêntrico de métodos mistos com desenho convergente paralelo. Realizado entre março e agosto de 2024. Participação de 8 hospitais pediátricos dos Estados Unidos. Inclusão de pacientes hospitalizados e seus familiares durante internações pediátricas. Foram realizadas entrevistas estruturadas de segurança familiar antes da alta e semanalmente durante internações prolongadas. As entrevistas investigavam erros, atrasos assistenciais, experiências negativas e a percepção de que preocupações não haviam sido ouvidas pela equipe. As respostas qualitativas foram analisadas por meio de análise temática indutiva com dupla codificação independente e consenso entre revisores. Foram realizadas análises estatísticas comparando características dos participantes que relataram sentir-se não ouvidos com aqueles que não apresentaram essa percepção. Resultados Foram entrevistados 1.375 pacientes e familiares, sendo identificados 115 relatos de sensação de não serem ouvidos, correspondendo a aproximadamente 7% da amostra. Seis subtemas principais compuseram o fenômeno da negligência da escuta: Comportamentos desrespeitosos da equipe Comentários rudes. Impaciência. Linguagem corporal inadequada. Interrupções e conversas sobrepondo-se às falas das famílias. Posturas desconsiderando preferências, sintomas e preocupações Minimização de sintomas. Desvalorização de preocupações clínicas. Falta de oportunidade para esclarecimento de dúvidas. Falha no uso de serviços de interpretação e tradução Não utilização de intérpretes mesmo após solicitação explícita. Barreiras importantes para famílias que falavam outros idiomas ou utilizavam língua de sinais. Descumprimento de promessas feitas pela equipe Atualizações prometidas que nunca ocorreram. Consultas especializadas não realizadas. Informações clínicas prometidas e não fornecidas. Rigidez excessiva na aplicação de protocolos institucionais Aplicação inflexível de normas hospitalares sem considerar contextos familiares específicos. Necessidade de repetição ou escalonamento das preocupações Famílias precisando insistir, repetir pedidos ou recorrer a profissionais hierarquicamente superiores para serem ouvidas. Os pacientes adolescentes e jovens e familiares com maior escolaridade apresentaram maior probabilidade de relatar a experiência de não serem ouvidos. Discussão O estudo demonstra que a sensação de não ser ouvido representa um fenômeno multifatorial e sistêmico, não restrito a uma única categoria profissional. Os autores sugerem que fatores como: sobrecarga assistencial, burnout profissional, falhas institucionais, racismo estrutural, vieses implícitos, treinamento insuficiente em comunicação, podem contribuir para a negligência da escuta. A falta de utilização de intérpretes merece destaque especial, uma vez que constitui não apenas falha assistencial, mas também potencial violação de direitos civis e de princípios fundamentais do cuidado centrado na família. O estudo reforça ainda que famílias de grupos vulneráveis podem ter menor probabilidade de expressar preocupações, ampliando desigualdades em saúde quando a escuta ativa não é estimulada pela equipe assistencial. Conclusão A negligência da escuta é uma experiência frequente e clinicamente relevante na hospitalização pediátrica. Os principais elementos associados ao fenômeno incluem: atitudes desrespeitosas; minimização de sintomas e preocupações; falhas na comunicação intercultural; promessas não cumpridas; inflexibilidade institucional; necessidade de escalonamento para obtenção de respostas. Os autores defendem intervenções tanto individuais quanto institucionais voltadas para: treinamento em comunicação; escuta ativa; empatia; cuidado centrado no paciente e na família; redução do burnout; ampliação do acesso a serviços de interpretação. Melhorar a escuta pode aumentar a segurança do paciente, reduzir eventos adversos e promover maior equidade no cuidado pediátrico hospitalar. Insights clínicos  O que é “Listening Neglect”? É a experiência de pacientes e familiares sentirem que suas preocupações, sintomas ou preferências não foram efetivamente ouvidos ou valorizados pela equipe hospitalar. Qual foi a manifestação mais frequente da negligência da escuta? Atitudes desconsiderando sintomas, dúvidas e preocupações dos pacientes e familiares. O não uso de intérpretes impacta a segurança do paciente? Sim. A ausência de interpretação adequada aumenta o risco de erros de comunicação, eventos adversos e decisões clínicas inadequadas. Crianças e adolescentes também relatam sentir-se não ouvidos? Sim. Os próprios pacientes pediátricos apresentaram frequência proporcionalmente maior de relatos de negligência da escuta do que seus responsáveis. Como os hospitais podem reduzir esse problema? Por meio de treinamento em comunicação e escuta ativa, fortalecimento do cuidado centrado na família, expansão do uso de intérpretes e implementação de estratégias institucionais de apoio às equipes. Existe relação entre negligência da escuta e segurança do paciente? Sim. A incapacidade de ouvir pacientes e familiares pode atrasar diagnósticos, dificultar a identificação precoce de eventos adversos e comprometer a qualidade assistencial. Para ver mais conteúdos como este, acesse: NeoPed Hub

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