Resultados da triagem universal de Deficiência de G6PD em recém-nascidos em uma grande coorte urbana Sobre o artigo A deficiência de glicose-6-fosfato desidrogenase (G6PD) é considerada a enzimopatia humana mais comum, afetando mais de 400 milhões de pessoas no mundo. Embora muitos indivíduos permaneçam assintomáticos, recém-nascidos com deficiência de G6PD apresentam maior risco de hiperbilirrubinemia clinicamente significativa e encefalopatia bilirrubínica, mesmo sem exposição conhecida a agentes oxidantes. A relevância clínica é particularmente importante no período neonatal porque a deficiência de G6PD é reconhecida pela American Academy of Pediatrics (AAP) como fator de risco tanto para desenvolvimento de hiperbilirrubinemia significativa quanto para neurotoxicidade por bilirrubina. Consequentemente, sua identificação pode modificar os limiares utilizados para tratamento da hiperbilirrubinemia. Em 2022, o estado de Nova York determinou a avaliação de fatores de risco para deficiência de G6PD em recém-nascidos, com realização de teste diagnóstico nos considerados de alto risco. Em resposta, o Mount Sinai Hospital implementou triagem quantitativa universal. O estudo teve dois objetivos principais: caracterizar os recém-nascidos com deficiência ou atividade intermediária de G6PD e avaliar os desfechos clínicos relacionados à hiperbilirrubinemia entre crianças deficientes, intermediárias e suficientes para G6PD. Métodos utilizados Foi realizada revisão retrospectiva de prontuários de recém-nascidos nascidos ou transferidos para o Mount Sinai Hospital entre 21 de junho de 2022 e 21 de junho de 2023 e submetidos à dosagem quantitativa da atividade enzimática da G6PD durante a internação do nascimento. Foram avaliados 5.470 recém-nascidos, classificados em três grupos: atividade de G6PD suficiente; atividade intermediária; deficiência de G6PD. A classificação foi baseada nos critérios da Organização Mundial da Saúde, considerando deficiência quando a atividade enzimática era inferior a 30% da mediana masculina para a idade e atividade intermediária quando inferior a aproximadamente 70%–80% da mediana masculina. Entre as variáveis neonatais analisadas estavam idade gestacional, peso ao nascimento, sexo, duração da internação, admissão em unidade de terapia intensiva neonatal (UTIN), valores máximos de bilirrubina nos primeiros dias de vida, necessidade de fototerapia ou exsanguineotransfusão, concentração quantitativa de G6PD e acompanhamento após a alta. Também foram analisados raça e etnia maternas registradas no prontuário. Variáveis categóricas foram avaliadas pelo teste do qui-quadrado e variáveis contínuas pelos testes de Kruskal-Wallis e Mann-Whitney U. Para avaliar a relação entre atividade da G6PD e bilirrubina, pacientes com incompatibilidade ABO e/ou Rh foram excluídos das análises de correlação, realizadas pelo coeficiente rho de Spearman. Os pesquisadores também analisaram se os recém-nascidos identificados pela triagem universal teriam sido detectados caso fossem utilizados apenas os fatores de risco previstos pela estratégia de Nova York. Resultados Dos 5.470 recém-nascidos, 5.247 (95,9%) apresentaram atividade suficiente de G6PD, 132 (2,4%) atividade intermediária e 91 (1,7%) deficiência. Entre os recém-nascidos do sexo masculino, a prevalência de deficiência foi de 2,9%. A deficiência foi mais frequente entre recém-nascidos cujas mães se identificaram como negras. O risco relativo de deficiência de G6PD nesse grupo foi aproximadamente cinco vezes maior do que entre aqueles cujas mães não se identificaram como negras (IC95% 3,91–8,85). Entretanto, a distribuição dos casos mostrou uma limitação importante de estratégias baseadas exclusivamente em raça ou etnia. Entre os recém-nascidos deficientes, 22% tinham um dos pais identificado como porto-riquenho ou dominicano. Entre aqueles com deficiência cujos pais se identificaram como brancos, a maioria também se identificava como judaica, incluindo indivíduos de ascendência Ashkenazi e Sephardic. A deficiência de G6PD esteve associada a maior necessidade de tratamento da hiperbilirrubinemia. Entre recém-nascidos alojados no berçário, a fototerapia durante a internação ocorreu em 21,3% dos deficientes, comparados a 8,4% dos suficientes e 9,1% dos intermediários (P < 0,001). Entre os pacientes internados em UTIN, as respectivas taxas foram 90,9%, 45,1% e 36,4%, também com diferença estatisticamente significativa. Após a alta, 5,7% dos recém-nascidos deficientes foram reinternados para fototerapia, comparados a 1,4% dos suficientes (P = 0,04). O risco relativo de reinternação para fototerapia foi aproximadamente quatro vezes maior nos pacientes deficientes (IC95% 1,29–11,76). Os recém-nascidos com deficiência de G6PD também apresentaram valores máximos de bilirrubina sérica mais elevados nos primeiros dias de vida. Foram observadas correlações negativas pequenas, porém estatisticamente significativas, entre a atividade enzimática da G6PD e os maiores níveis de bilirrubina durante as primeiras 96 horas. Não ocorreram exsanguineotransfusões por hiperbilirrubinemia durante o período estudado. Também não foram encontradas diferenças significativas na duração da internação relacionadas ao status de G6PD. Um dos achados mais relevantes foi que uma estratégia baseada apenas nos fatores de risco estabelecidos pelo estado de Nova York poderia ter deixado de identificar até 44% dos recém-nascidos com deficiência de G6PD antes da alta hospitalar. Discussão Os resultados demonstram que a deficiência de G6PD possui impacto clínico mensurável já no período neonatal. Os recém-nascidos deficientes apresentaram bilirrubina mais elevada e necessidade significativamente maior de fototerapia, tanto no berçário quanto na UTIN, além de maior risco de reinternação para tratamento. A ausência de exsanguineotransfusões provavelmente está relacionada à baixa frequência desse desfecho e à utilização de protocolos estruturados para identificação e tratamento da hiperbilirrubinemia. O estudo não avaliou diferenças na ocorrência de kernicterus ou encefalopatia bilirrubínica, dada a raridade e a complexidade diagnóstica desses eventos. Um aspecto importante refere-se aos recém-nascidos com atividade intermediária de G6PD. Apesar de apresentarem valores de bilirrubina mais elevados nas primeiras 96 horas, sua frequência de fototerapia não diferiu daquela observada nos pacientes suficientes. Os autores chamam atenção especial para recém-nascidos masculinos com resultado intermediário. Como indivíduos do sexo masculino são hemizigotos, um resultado intermediário associado à icterícia pode levantar a suspeita de elevação transitória da atividade enzimática em contexto de hemólise. No estudo, entre seis meninos inicialmente classificados como intermediários que possuíam teste repetido, os dois que necessitaram de fototerapia hospitalar foram posteriormente classificados como deficientes. Os autores sugerem, portanto, considerar repetição da dosagem nesses casos. Nas meninas com atividade intermediária, a identificação também pode ter importância clínica, uma vez que podem apresentar manifestações relacionadas ao estresse oxidativo e se beneficiar de orientação preventiva sobre exposições desencadeantes. Outro achado central é a fragilidade da seleção de pacientes para triagem com base em raça ou etnia. A heterogeneidade da população, ancestralidade paterna não
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