Solução Balanceada versus Soro Fisiológico 0,9% em Crianças Tratadas por Choque Séptico

Fonte: The New England Journal of Medicine

Solução Balanceada versus Soro Fisiológico 0,9% em Crianças Tratadas por Choque Séptico Sobre o artigo  A escolha entre soluções cristaloides balanceadas e soro fisiológico 0,9% para ressuscitação volêmica em crianças com choque séptico permanece controversa. O soro fisiológico contém concentração elevada de cloreto, podendo favorecer hipercloremia, acidose metabólica e redução do fluxo renal. As soluções balanceadas apresentam composição eletrolítica mais próxima do plasma humano e estudos prévios sugeriram possível benefício renal e redução da mortalidade, embora os resultados tenham sido inconsistentes. Diante dessa incerteza, foi realizado o estudo PRoMPT BOLUS para avaliar se a utilização de fluidos balanceados reduziria a ocorrência de eventos renais adversos maiores em comparação ao soro fisiológico em crianças com suspeita de choque séptico. Métodos utilizados Estudo clínico pragmático, multicêntrico, randomizado e aberto, conduzido em 47 departamentos de emergência pediátrica de cinco países entre 2020 e 2025. Foram incluídas crianças entre 2 meses e 18 anos com suspeita de choque séptico e sinais clínicos de hipoperfusão, que haviam recebido até 40 mL/kg de cristalóide antes da inclusão. Os participantes foram randomizados para receber: Soluções balanceadas (Ringer Lactato, Plasma-Lyte ou Hartmann). Soro fisiológico 0,9%. O fluido designado era utilizado tanto para expansão volêmica quanto para manutenção por até 48 horas após a inclusão. O desfecho primário foi a ocorrência de evento renal adverso maior em até 30 dias, definido como: Óbito; Necessidade de terapia renal substitutiva; Disfunção renal persistente. Desfechos secundários incluíram mortalidade, dias livres de hospitalização, tempo de internação e alterações eletrolíticas. Resultados Foram incluídos 9.041 pacientes, sendo analisados 8.482 após exclusões relacionadas ao consentimento. Principais resultados: Evento renal adverso maior ocorreu em: 3,4% no grupo solução balanceada; 3,0% no grupo soro fisiológico. Não houve diferença estatisticamente significativa entre os grupos: RR 1,10; IC95% 0,88–1,40; p = 0,85. Mortalidade hospitalar foi idêntica: 1,1% em ambos os grupos. Mortalidade em 90 dias: 2,3% com solução balanceada; 2,1% com soro fisiológico. Dias livres de hospitalização em 28 dias: mediana de 23 dias em ambos os grupos. Soluções balanceadas reduziram: hipercloremia (31,4% vs 49,0%); hipernatremia (1,8% vs 3,1%). Houve maior incidência de hiperlactatemia no grupo balanceado: 19,8% vs 16,7%. Não houve diferenças em trombose, edema cerebral ou outros eventos adversos. Discussão O maior ensaio clínico pediátrico já realizado sobre escolha do cristalóide na sepse pediátrica demonstrou ausência de benefício clínico relevante das soluções balanceadas sobre o soro fisiológico em relação aos desfechos renais e à mortalidade. Embora as soluções balanceadas tenham reduzido alterações bioquímicas associadas ao excesso de cloreto, esses efeitos laboratoriais não se traduziram em melhora clínica significativa. Os autores destacam que crianças mais graves, com acidose importante, hiperlactatemia ou necessidade de grandes volumes de fluidos, podem eventualmente representar um subgrupo com potencial benefício das soluções balanceadas, hipótese que permanece aberta para estudos futuros. Conclusão Em crianças tratadas por choque séptico, o uso de soluções cristaloides balanceadas não reduziu mortalidade, necessidade de terapia renal substitutiva ou disfunção renal persistente quando comparado ao soro fisiológico 0,9%. Apesar da menor incidência de hipercloremia e hipernatremia, não houve benefício clínico mensurável nos principais desfechos avaliados. Os resultados sugerem que ambas as estratégias podem ser consideradas aceitáveis para ressuscitação volêmica no choque séptico pediátrico. Insights clínicos As soluções balanceadas reduzem mortalidade no choque séptico pediátrico? Não. A mortalidade hospitalar e em 90 dias foi semelhante entre os grupos. O uso de solução balanceada reduz lesão renal aguda importante? Não houve redução dos eventos renais maiores compostos por morte, terapia renal substitutiva ou disfunção renal persistente. Existe alguma vantagem bioquímica das soluções balanceadas? Sim. Houve menor incidência de hipercloremia e hipernatremia. O soro fisiológico 0,9% mostrou pior desfecho clínico? Não. Apesar de maiores taxas de hipercloremia, não houve aumento de mortalidade ou eventos renais relevantes. Deve-se abandonar o uso rotineiro do soro fisiológico em crianças com choque séptico? Os dados deste estudo não sustentam a substituição obrigatória do soro fisiológico por soluções balanceadas. Existem pacientes que podem se beneficiar de soluções balanceadas? Possivelmente pacientes com maior gravidade, acidose importante ou necessidade de grandes volumes de ressuscitação, embora isso não tenha sido comprovado neste estudo. Para ver mais conteúdos como este, acesse: NeoPed Hub

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