Devemos abandonar a suplementação de ARA e DHA em recém-nascidos prematuros?

Devemos abandonar a suplementação de ARA e DHA em recém-nascidos prematuros? Sobre o artigo  A suplementação de ácidos graxos poli-insaturados de cadeia longa (LC-PUFAs), especialmente ácido araquidônico (ARA) e ácido docosahexaenoico (DHA), tem sido amplamente estudada em recém-nascidos prematuros. Durante a gestação, esses lipídios são transferidos da placenta para o feto principalmente no terceiro trimestre, sendo fundamentais para o desenvolvimento de órgãos como cérebro, retina, pulmões e intestino. Entretanto, prematuros nascem antes desse período crítico de acúmulo lipídico, apresentando níveis reduzidos de ARA e DHA e maior proporção de ácido linoleico no plasma e em tecidos. Diante dessa deficiência metabólica, diversos ensaios clínicos avaliaram se a suplementação desses ácidos graxos poderia melhorar desfechos neonatais relevantes, como displasia broncopulmonar (DBP), retinopatia da prematuridade (ROP), enterocolite necrosante (ECN), sepse, hemorragia intraventricular (HIV) e mortalidade hospitalar. Métodos utilizados O artigo consiste em um editorial crítico baseado principalmente em uma meta-análise recente que avaliou os efeitos da suplementação enteral de DHA isolado ou combinado com ARA em recém-nascidos prematuros. A meta-análise analisou ensaios clínicos randomizados que investigaram os efeitos da suplementação de LC-PUFAs em diversos desfechos clínicos neonatais, incluindo: Displasia broncopulmonar Retinopatia da prematuridade Enterocolite necrosante Sepse Hemorragia intraventricular Leucomalácia periventricular Mortalidade hospitalar Os autores do editorial também discutem a heterogeneidade metodológica entre os estudos incluídos, especialmente em relação a: idade gestacional dos participantes dose de suplementação proporção entre ARA e DHA início e duração da suplementação ausência de controle para nutrientes relacionados, como colina. Resultados A meta-análise discutida no editorial identificou alguns achados importantes: Suplementação isolada de DHA Em prematuros com idade gestacional inferior a 29 semanas, a suplementação isolada de DHA pode aumentar o risco de displasia broncopulmonar. Esse achado sugere que a administração de DHA sem ARA pode alterar o equilíbrio fisiológico entre esses ácidos graxos. Relação fisiológica entre ARA e DHA Durante o desenvolvimento fetal precoce, a proporção ARA:DHA é elevada. No leite materno, o ARA também excede o DHA. Suplementação combinada de ARA e DHA Estudos com suplementação combinada demonstraram tendências a: menor incidência de DBP menor incidência de ROP menor ocorrência de sepse Entretanto, os dados ainda são limitados, com apenas quatro ensaios clínicos e cerca de 389 pacientes avaliados. Ensaios que utilizaram doses fisiológicas Dois estudos administraram aproximadamente: 100 mg/kg/dia de ARA 50 mg/kg/dia de DHA Essas doses são próximas às taxas fisiológicas de acúmulo intrauterino no terceiro trimestre e foram associadas a: melhora de parâmetros respiratórios redução de ROP melhor crescimento linear. Discussão Os autores destacam que a evidência atual não permite conclusões definitivas sobre os benefícios ou riscos da suplementação de LC-PUFAs em prematuros extremos. Alguns fatores limitam a interpretação dos estudos existentes: Heterogeneidade dos ensaios clínicos diferentes idades gestacionais doses variadas diferentes períodos de suplementação Essa variabilidade reduz a capacidade de detectar efeitos clínicos reais. Diferença no risco basal entre prematuros Prematuros entre 24–29 semanas apresentam risco muito maior de complicações do que aqueles entre 30–34 semanas, o que influencia significativamente os resultados dos estudos. Importância da proporção ARA:DHA A suplementação deve respeitar a fisiologia fetal, mantendo proporção mínima de aproximadamente 2:1 entre ARA e DHA. Papel potencial da colina A colina é um nutriente essencial relacionado ao metabolismo dos fosfolipídios e ao transporte de LC-PUFAs. Nenhum estudo incluído na meta-análise avaliou adequadamente o status de colina, o que pode influenciar a eficácia da suplementação. Conclusão As evidências atuais não sustentam a suplementação rotineira de DHA isolado em prematuros, especialmente em recém-nascidos com idade gestacional inferior a 29 semanas, devido ao possível aumento do risco de displasia broncopulmonar. Por outro lado, a suplementação combinada de ARA e DHA pode ser mais fisiológica e potencialmente benéfica, embora os dados disponíveis ainda sejam limitados. São necessários ensaios clínicos multicêntricos robustos em prematuros extremos (<28 semanas) que avaliem: suplementação combinada de ARA e DHA em proporção adequada (≥2:1) doses próximas às taxas fisiológicas fetais possível adição de colina ao esquema nutricional Esses estudos são essenciais para determinar o papel clínico real da suplementação de LC-PUFAs na prevenção de complicações da prematuridade. Insights clínicos DHA isolado deve ser usado em prematuros extremos? Não. Evidências sugerem que suplementação isolada de DHA pode aumentar o risco de displasia broncopulmonar em prematuros <29 semanas. Qual a proporção fisiológica recomendada entre ARA e DHA? A fisiologia fetal sugere uma proporção mínima de aproximadamente 2:1 de ARA para DHA. A suplementação combinada de ARA e DHA melhora desfechos clínicos? Alguns estudos demonstram tendência à redução de ROP, DBP e sepse, mas o número de ensaios clínicos ainda é pequeno. Por que prematuros apresentam deficiência desses ácidos graxos? Porque a maior transferência placentária de ARA e DHA ocorre no terceiro trimestre, período que muitos prematuros não completam. Existe outro nutriente relevante para o metabolismo de ARA e DHA? Sim. A colina participa do metabolismo e transporte de LC-PUFAs e pode influenciar a eficácia da suplementação. Para ver mais conteúdos como este, acesse: NeoPed Hub

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