Associação entre duração do aleitamento materno e desempenho cognitivo na adolescência

Associação entre duração do aleitamento materno e desempenho cognitivo na adolescência Sobre o artigo O aleitamento materno é reconhecido como a forma ideal de alimentação infantil e a Organização Mundial da Saúde recomenda aleitamento materno exclusivo até os 6 meses, seguido da manutenção da amamentação por pelo menos dois anos. Entretanto, a associação entre a duração do aleitamento e o desempenho cognitivo em fases posteriores da vida permanece controversa devido ao importante efeito de confusão exercido pelo nível socioeconômico. Em países de alta renda, mães com maior escolaridade e renda tendem a amamentar por mais tempo, dificultando distinguir o impacto do leite materno do ambiente familiar mais estimulante. Na China, porém, observou-se padrão inverso, com maior duração do aleitamento entre famílias de menor nível socioeconômico, oferecendo uma oportunidade única para estudar essa relação. O objetivo do estudo foi avaliar a associação entre duração do aleitamento materno e desempenho cognitivo em adolescentes chineses após ajuste para fatores socioeconômicos. Métodos utilizados Estudo transversal utilizando dados do China Family Panel Studies (CFPS), uma coorte nacional representativa da população chinesa. Foram incluídos adolescentes entre 10 e 15 anos, nascidos entre 1995 e 2009, submetidos a avaliações cognitivas nos anos de 2010, 2014 ou 2018. A exposição principal foi a duração do aleitamento materno, categorizada em: ≤ 6 meses 6 meses Também foram realizadas análises considerando a duração do aleitamento como variável contínua. Os desfechos cognitivos avaliados foram: Teste de matemática Teste de reconhecimento de palavras Os resultados foram padronizados em escores Z ajustados para idade. Desempenho cognitivo ruim foi definido como pontuação igual ou inferior ao percentil 15. Os modelos estatísticos incluíram ajustes progressivos para: características demográficas; fatores perinatais; escolaridade parental; renda familiar; variáveis ambientais e domiciliares. Também foram realizadas análises de sensibilidade e modelos não lineares por splines cúbicos restritos. Resultados Foram analisados 5.436 adolescentes, com idade média de 12 anos, sendo 52,5% do sexo masculino. 13,8% receberam aleitamento materno por até 6 meses. 86,2% receberam aleitamento materno por mais de 6 meses. A duração mais longa da amamentação foi mais frequente entre: famílias de menor renda; pais com menor escolaridade; residentes em áreas rurais. Na análise não ajustada, não houve associação entre maior duração do aleitamento e desempenho cognitivo. Após ajuste para fatores socioeconômicos, o aleitamento superior a 6 meses associou-se a: Melhor desempenho em matemática β = 0,14 IC95%: 0,05–0,22 Melhor reconhecimento de palavras β = 0,12 IC95%: 0,02–0,21 Além disso, houve redução do risco de baixo desempenho cognitivo: Baixo desempenho em matemática OR = 0,65 IC95%: 0,48–0,88 Baixo desempenho em reconhecimento de palavras OR = 0,64 IC95%: 0,47–0,87 As análises não lineares sugeriram maior benefício cognitivo entre aproximadamente 6 e 12 meses de aleitamento, com redução do efeito em durações mais prolongadas. Discussão O principal achado do estudo foi que a associação entre aleitamento prolongado e melhor desempenho cognitivo somente se tornou evidente após o controle para nível socioeconômico. Diferentemente do observado em países ocidentais, onde mães com maior renda e escolaridade costumam amamentar por mais tempo, na China o padrão foi inverso. Isso gerou um fenômeno de "confusão negativa", mascarando o benefício potencial da amamentação nas análises não ajustadas. Os autores discutem possíveis mecanismos biológicos relacionados ao desenvolvimento cerebral, incluindo: oligossacarídeos do leite humano; modulação do microbioma intestinal; eixo microbiota-intestino-cérebro; compostos bioativos presentes no leite materno; suporte à mielinização e conectividade neuronal. O efeito observado foi modesto em nível individual, variando entre 0,1 e 0,2 desvios-padrão, porém potencialmente relevante em termos populacionais e de capital humano. Os autores reforçam a necessidade de políticas públicas de incentivo ao aleitamento, incluindo: ampliação da licença-maternidade; suporte à lactação no ambiente de trabalho; regulamentação do marketing de fórmulas infantis. Conclusão Entre adolescentes chineses, o aleitamento materno por mais de seis meses associou-se a melhor desempenho cognitivo após ajuste para fatores socioeconômicos. Os resultados sugerem que o impacto do aleitamento sobre a cognição pode ser subestimado quando não se considera adequadamente o contexto socioeconômico familiar. Estudos longitudinais e mecanísticos adicionais são necessários para esclarecer a relação causal e os mecanismos envolvidos. Insights clínicos O aleitamento materno por mais de 6 meses melhora a cognição na adolescência? Sim. Após ajuste para fatores socioeconômicos, adolescentes amamentados por mais de seis meses apresentaram melhor desempenho em matemática e reconhecimento de palavras. Por que a associação desaparecia na análise inicial? Porque adolescentes provenientes de famílias com menor renda e escolaridade amamentavam por mais tempo na população estudada, mascarando o efeito positivo do aleitamento. Existe um período ideal associado ao maior benefício cognitivo? As análises sugerem maior benefício entre aproximadamente 6 e 12 meses de aleitamento. O estudo prova causalidade? Não. Trata-se de um estudo observacional transversal, incapaz de estabelecer relação causal definitiva. Quais mecanismos poderiam explicar os achados? Os autores sugerem participação do microbioma intestinal, do eixo intestino-cérebro e de componentes bioativos do leite humano envolvidos no desenvolvimento neural. Quais implicações práticas o estudo traz para o pediatra? Os resultados reforçam as recomendações internacionais de manutenção do aleitamento materno por pelo menos seis meses e sustentam políticas públicas de proteção à amamentação. Para ver mais conteúdos como este, acesse: NeoPed Hub

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