[HIGHLIGHTS] 1º Congresso Mundial de Urgências e Emergências Pediátricas

 

1º Dia do Congresso de Emergências Pediátricas

1- Abertura e Protocolos PECARN

Um dos momentos mais marcantes foi a abertura conduzida por Nathan Kuppermann, o criador dos protocolos PECARN. Ele apresentou as diretrizes de TCE e Trauma Abdominal, reforçando que o objetivo principal é reduzir a exposição desnecessária das crianças à radiação. No caso do TCE, o protocolo demonstrou uma sensibilidade altíssima (até 100% em menores de 2 anos) para identificar casos graves. A orientação é clara: a tomografia é indispensável em casos de alteração de consciência ou sinais de fratura; para os demais fatores de risco, a observação clínica por 3 a 4 horas na unidade é geralmente suficiente. Já para o trauma abdominal, o foco deve ser a confiança no exame clínico e em critérios específicos (como ausência de hipotensão e tensão abdominal), uma vez que ainda há um excesso de pedidos de tomografia mesmo quando o risco de complicação é inferior a 1%.

 

2 – Emergências Cirúrgicas

Os palestrantes trouxeram a importância de ferramentas preditivas mais precisas. Para a apendicite, os scores Kharbanda e pARC superam o de Alvarado, mas nunca substituem a correlação clínica. Sobre a torção testicular, o alerta é para a agilidade: trata-se de uma patologia tempo-dependente onde a intervenção deve ocorrer em até 6 horas, e um USG normal não deve afastar o diagnóstico se a suspeita clínica for alta. Além disso, ressaltou-se que a torção ovariana é frequentemente subdiagnosticada e deve ser considerada em meninas com dor abdominal difusa e vômitos.

 

3 – Via Aérea e Sedação

A “alma” da sequência rápida de intubação é a pré-oxigenação, que deve ser maximizada. Uma técnica promissora apresentada foi a oxigenação apneica, que ajuda a manter os níveis de oxigênio durante o procedimento através de um gradiente de pressão, embora tenha a limitação de não remover o CO2 em pediatria, podendo gerar hipercapnia. Na sedação, a cetamina continua sendo a escolha preferencial devido ao menor risco de eventos cardiovasculares.

 

4 – Emergências Clínicas Críticas

  • Dengue: A avaliação deve ser dinâmica e focada no risco de choque, utilizando o hematócrito como guia. A hidratação precisa ser cautelosa (expansão de 10ml/kg em 1 hora), pois o excesso pode causar sobrecarga devido ao extravasamento capilar. A monitorização do débito urinário é essencial: o alvo é 1 ml/kg/h; se estiver acima de 3 ml/kg/h, deve-se reduzir o aporte hídrico. Níveis altos de ferritina surgiram como um forte marcador de gravidade.
  • Febre Amarela: Discutiu-se que o período de remissão (2 a 24h após o início) é o mais crítico. A função renal é um determinante importante de desfecho, e transaminases aumentadas em 2x ajudam na suspeita.
  • Púrpura Fulminante: Associada à falência da via da proteína C na sepse, levando à trombose microvascular. O uso de proteína C pode reduzir amputações em 50%, mas o custo e o risco de hemorragia intracraniana ainda são desafios. Na emergência, a tríade “aumento de PCR + VHS normal + consumo de fibrinogênio” é uma dica diagnóstica importante.

 

5 – Saúde Mental na Emergência

Houve um destaque para o aumento de casos de ideação suicida e automutilação. O papel da emergência é garantir a segurança imediata, priorizando a estabilização em vez do diagnóstico definitivo. O planejamento de segurança colaborativo na alta é crucial, pois foca no que fazer quando o risco flutua, aumentando o engajamento com o cuidado e reduzindo novos comportamentos suicidas.

 

6 – Point of Care (Testes Rápidos)

O uso de painéis virais e PCR-multiplex tem se mostrado eficaz para reduzir o tempo de internação no pronto-socorro e evitar o uso desnecessário de antibióticos. No manejo do TCE leve, novos biomarcadores como a proteína glial fibrilar ácida prometem reduzir ainda mais a necessidade de TCs desnecessárias no futuro.

 

2º Dia do Congresso de Emergências Pediátricas

1 – Lactente Febril < 2 meses e Biomarcadores

Grande atualização no protocolo PECARN para febre sem foco, agora validado a partir de 8 até 28 dias de vida, com publicação recente na JAMA 2026. A regra usa três variáveis: urinálise, contagem absoluta de neutrófilos (CAN > 4.000/mm³) e procalcitonina (PCT > 0,5 ng/mL), garantindo 98% de sensibilidade para infecção bacteriana grave. Um recém-nascido PECARN-negativo pode ser internado para observação sem punção lombar imediata e sem antibióticos.

  • Dica prática: A procalcitonina já é o marcador de escolha em detrimento do PCR, pois positiva em menos de 4h, enquanto o PCR pode levar até 12h.
  • O futuro (Biossignaturas de RNA): O horizonte dos exames complementares está na avaliação da expressão de RNA do hospedeiro, criando “mapas de calor” capazes de diferenciar infecções bacterianas de virais com alta precisão, podendo no futuro substituir as culturas.

2 – Crianças com Condições Médicas Complexas

Esses pacientes (com condições crônicas, múltiplas alterações sistêmicas e uso de tecnologias) representam 20% dos atendimentos em emergências e mais de 50% das internações em UTI, frequentemente reinternando ainda no primeiro ano de vida.

  • A principal lição: É fundamental estabelecer com os pais um plano de ação prévio, para guiar a avaliação inicial e as condutas na emergência sem que a equipe precise aguardar o contato com o especialista assistente.

3 – Cetoacidose Diabética (CAD)

No Brasil, 50–60% dos novos casos de DM1 debutam como CAD, e o principal sinal de alerta precoce no consultório é o surgimento de enurese noturna. O que mudou no manejo:

  • Soluções balanceadas aceleram a resolução da CAD e reduzem o tempo de insulinoterapia quando comparadas ao SF 0,9%.
  • A insulina subcutânea surge como uma alternativa viável à bomba de infusão contínua.
  • O acesso venoso central não é recomendado devido ao aumento do risco de trombose.
  • Atenção: O edema cerebral é raro (ocorre em cerca de 1% dos casos) e não é causado pela fluidoterapia.

4 – Choque Adrenal

Em crianças com insuficiência adrenal conhecida que chegam em choque, a regra é clara: iniciar hidrocortisona imediatamente às cegas, sem esperar resultados laboratoriais. Suspeite de crise adrenal quando houver a associação de hiponatremia, hipoglicemia, hipercalemia e acidose metabólica.

5 – Morte Súbita em Crianças e Jovens

A sobrevivência cai drasticamente de ~100% para ~10% em apenas 10 minutos sem intervenção.

  • Na história familiar, deve-se pesquisar especificamente por morte súbita inexplicada abaixo dos 30 anos, incluindo parentes como primos e sobrinhos.
  • A síncope cardíaca caracteriza-se por início súbito (geralmente pós-esforço) e uma recuperação super rápida após o fim da arritmia.
  • A educação pública foca em RCP apenas com as mãos (“pressione forte e rápido no centro do tórax”), técnica eficaz e ensinável em cerca de 30 segundos.

6 – Trauma Pediátrico e Coagulopatias

A hipotensão é um sinal tardio no trauma, surgindo apenas após a perda de aproximadamente 30% do volume, pois a taquicardia e a vasoconstrição compensam a perda inicial. A sobrevida é tempo-sensível, reduzindo-se em 5% a cada minuto de atraso no atendimento.

  • POCUS: Uma novidade é o uso do ultrassom point-of-care para identificar pseudoatividade elétrica sem pulso, aumentando a chance de retorno à circulação espontânea, desde que feito por profissionais treinados e sem atrasar as compressões.
  • Radiação: Atenção ao risco cumulativo em crianças: uma única tomografia pode aumentar significativamente o risco futuro de câncer, exigindo a limitação rigorosa de exames desnecessários.
  • Coagulopatias: A conduta foca em transfusão maciça, prevenção de sangramentos e, criticamente, prevenção de hipotermia, com o uso de ácido tranexâmico ainda sob estudos no Reino Unido.

7 – Eventos Tromboembólicos Pediátricos

Existem dois picos de incidência: menores de 1 ano e adolescentes. Cenários relevantes na emergência:

  • TEP: Há uma nova classificação de risco (baixo, intermediário, alto) que impacta o prognóstico. Destaca-se que o TEP do subtipo “in situ” (trombo formado na própria artéria pulmonar por hipercoagulabilidade) é o mais grave e está associado a uma pior sobrevida.
  • Veia Cava Superior: 47% dos casos têm origem oncológica, com alta mortalidade.
  • Kawasaki: O grupo de jovens tem um risco maior de desenvolver aneurisma coronariano.
  • AVC Isquêmico: É a 10ª causa de mortalidade pediátrica, com 1/3 de recorrência em 2 anos, reforçando a importância dos times de “Código STROKE”.

8 – Intoxicações Exógenas

Certas medicações são consideradas “One Pill Killers”, podendo ser fatais mesmo em pequenas quantidades. O manejo é guiado por quatro perguntas estruturadas: o quê, quanto, quando e como. Em adolescentes, é mandatório sempre investigar ativamente a intenção de autoagressão, pois nem toda intoxicação é um acidente.

9 – Armadilha Diagnóstica: FPIES

A Síndrome de Enterocolite Induzida por Proteína Alimentar (FPIES) é uma alergia não mediada por IgE que costuma ser confundida com sepse ou abdome agudo.

  • Apresenta-se com vômitos em jato repetidos nas primeiras 4 horas após a exposição, palidez, hipotensão e hipotermia (sem febre e sem provas inflamatórias elevadas).
  • Gatilhos por idade: Leite de vaca (1 a 6 meses); arroz, soja e aveia (5 a 9 meses); e ovo e peixe (8 a 12 meses).
  • O tratamento é estratificado em leve, moderado e grave. Em casos severos, além da ondansetrona imediata, é necessária expansão rápida com solução salina (20ml/kg) e consideração do uso de metilprednisolona endovenosa.

10 – Emergências em Transtornos Alimentares e RISH

A anorexia nervosa possui a maior mortalidade entre os transtornos psiquiátricos, sendo a emergência pediátrica a principal porta de entrada.

  • O peso isolado não define o risco; deve-se usar os Critérios MEED, onde 1 critério vermelho ou 2 laranjas indicam alto risco e internação.
  • A regra é não atrasar a nutrição, pois o alimento é o remédio, devendo ser iniciado com poucas calorias e aumento gradual.
  • A Síndrome de Realimentação é uma emergência médica caracterizada por hipofosfatemia severa, exigindo suplementação de tiamina e reposição agressiva de eletrólitos.
  • A Diabulimia (uso de insulina para perda de peso em jovens com DM1) é uma realidade clínica, onde múltiplas idas ao PS por cetoacidose são um “Red Flag”.
  • Distinção importante (RISH): A Ingestão Restritiva como Automutilação (RISH) difere da anorexia pois o jovem restringe alimentos exclusivamente como automutilação, sem relação com a imagem corporal, alternando momentos de restrição com alimentação normal. A aplicação da ferramenta HEADSSS na anamnese é ideal para guiar e identificar esses distúrbios.

3º Dia do Congresso de Emergências Pediátricas 

1- Bronquiolite: um novo olhar A palestra destacou que a bronquiolite não é uma doença única, mas uma síndrome heterogênea com diferentes fenótipos (A, B, C e D), levantando inclusive a possibilidade de mudança do nome da doença no futuro. Isso exige uma conduta individualizada em vez de recomendações universais (como incentivar ou contraindicar broncodilatadores para todos). A prova terapêutica com salbutamol não é indicada para menores de 6 meses; em maiores de 6 meses, deve ser feita especialmente em pacientes atópicos ou com rinovírus fora da temporada de VSR. O uso de corticóides deve ser restrito a casos com forte suspeita de fenótipo asmático ou episódios muito graves. Na oxigenoterapia, respeite a hierarquia: cânula de baixo fluxo, alto fluxo, CPAP, e ventilação invasiva; o uso de CPAP em enfermaria pode evitar a necessidade de cuidados em UTI.

2- Dor Abdominal na Emergência Apesar de 45% dos casos na emergência serem inespecíficos e autolimitados, o foco é reconhecer rapidamente condições graves como apendicite, invaginação intestinal e torção ovariana, considerando a prevalência por idade: neonatos com invaginação, volvo ou sepse; e adolescentes com apendicite e torção ovariana. Lactente com vômito bilioso levanta forte suspeita de volvo até prova em contrário. Não esqueça de causas extra-abdominais, como pneumonia de base e cetoacidose diabética. Scores como pARC e PAS combinam clínica e laboratório para estratificar o risco de apendicite, mas nenhum achado isolado a confirma ou descarta. No tratamento da apendicite, estudos favorecem a cirurgia sobre os antibióticos pela menor taxa de falha, ressaltando que os eventos adversos moderados foram 4 vezes maiores com o uso de antibióticos.

3- Pneumonia na Emergência O diagnóstico segue sendo clínico, e o raio-X não é critério essencial. O USG pulmonar ganha espaço como ferramenta para identificar fenótipos e auxiliar na decisão clínica, não apenas no diagnóstico binário de “tem/não tem”. Testes moleculares point-of-care via swab de orofaringe entregam resultados em até 1 hora para múltiplos patógenos e possivelmente substituirão as culturas no futuro. No cenário pós-COVID, há alta prevalência da doença pneumocócica invasiva em menores de 5 anos pelos sorotipos 3 (com chance 15x maior de necrose) e 19A. O detalhe crítico é que o sorotipo 19A tem 72% de resistência à penicilina, gerando a necessidade direta do uso de antibióticos de amplo espectro.

4- Sepse e Choque Séptico O reconhecimento precoce continua sendo a principal barreira. Deve-se utilizar o Triângulo de Avaliação Pediátrica na triagem e valorizar a intuição clínica médica, bem como a preocupação dos cuidadores. Soluções balanceadas parecem mais seguras, fisiológicas e com melhores desfechos em críticos do que o SF 0,9%. Ocorre uma mudança de paradigma respaldada por evidências: menos fluidos e início mais precoce de inotrópicos para melhorar os desfechos no choque pediátrico.

5- Anafilaxia: O que há de novo e Manejo Detalhado Apesar da redução na mortalidade, a taxa de hospitalização por anafilaxia vem aumentando. Os critérios diagnósticos foram atualizados para: envolvimento agudo de pele ou mucosa associado a comprometimento respiratório, redução de pressão arterial ou sintomas gastrointestinais após exposição a um alérgeno conhecido. Os alimentos (especialmente leite e ovo nos 2 primeiros anos) são a causa número 1 em crianças, e a maioria dos casos ocorre em casa.

  • Reação Bifásica: Após o manejo e um intervalo assintomático de 1 a 12 horas, ocorre o retorno dos sintomas. O risco é alto se a reação inicial for grave, exigir >1 dose de epinefrina, ou se for induzida por castanhas. Esses pacientes exigem observação clínica prolongada.
  • Adrenalina (Primeiro Passo): Via intramuscular na coxa, dose de 0,01 mg/kg. Atenção: a dose máxima única em crianças é de 0,3 mg. Pode ser repetida a cada 5 a 15 minutos se os sintomas persistirem.
  • Manejo da Instabilidade: Se houver sintomas circulatórios ou respiratórios graves, o protocolo indica uso imediato de oxigênio em alto fluxo (10 litros/minuto com bolsa reservatório) e bólus de fluidos intravenosos (cristaloides).
  • Sintomas Específicos: Para sibilos, use salbutamol inalatório ou com espaçador. Para estridor, administre adrenalina nebulizada na dose de 1 mg em 4 ml de SF 0,9% como suplemento à via IM.
  • O papel (e os limites) dos Corticoides e Anti-histamínicos: Eles não evitam a reação bifásica e não devem ser administrados com esse propósito.
    • Corticosteroides sistêmicos: São benéficos especificamente em casos de anafilaxia refratária ou quando ocorrem no contexto de asma mal controlada.
    • Anti-histamínicos: Úteis apenas como terapia adjuvante para reverter sintomas cutâneos, como prurido e urticária. Devem estar sempre associados à adrenalina e nunca a substituir.
  • Alta: A família deve receber orientações detalhadas, identificação dos gatilhos, receita para pelo menos 2 autoinjetores de adrenalina e encaminhamento para o alergista.

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