O Paciente Vítima De Trauma O trauma é uma das principais causa de morte em crianças, e sua abordagem exige compreensão das particularidades fisiológicas e anatômicas dessa população. Diferente do adulto, a criança possui grande capacidade de compensação, o que pode mascarar gravidade e atrasar intervenções críticas. Nos menores de 1 ano, é fundamental manter alto grau de suspeição para abuso como causa de trauma. Além disso, quedas isoladas raramente são responsáveis por desfechos fatais na pediatria, devendo sempre levantar questionamentos sobre o mecanismo envolvido. Hipotensão: um sinal tardio e perigoso Na criança, a hipotensão é um achado tardio. Mecanismos compensatórios robustos — como taquicardia e vasoconstrição periférica — mantêm a pressão arterial por mais tempo, mesmo diante de hipovolemia significativa. Por isso, sinais como taquicardia, extremidades frias e perfusão lentificada devem ser valorizados precocemente. A queda da pressão arterial geralmente ocorre apenas após perdas superiores a 30% do volume circulante. A definição de hipotensão deve ser ajustada para idade PAS 70 2x idade), e a ressuscitação volêmica deve ser guiada pelo peso 10 20 mL/kg). Particularidades anatômicas: A anatomia pediátrica influencia diretamente o padrão de lesões. A coluna cervical, mais flexível e com ossificação incompleta, apresenta centro de rotação mais alto C2 C3 , tornando lesões cervicais superiores mais frequentes, embora raras. As lesões frequentemente envolvem ligamentos, placas de crescimento e fraturas incompletas, o que também dificulta a interpretação de exames de imagem. Nos ossos, a maior quantidade de colágeno confere maior elasticidade, permitindo deformação antes da fratura completa. Isso favorece processos de cura mais rápidos e maior potencial de remodelação, reduzindo a necessidade de abordagem cirúrgica. Tomografia Computadorizada no trauma: Crianças apresentam maior sensibilidade à radiação, com risco aumentado de malignidade ao longo da vida. Tecidos em desenvolvimento e maior expectativa de vida ampliam esse impacto. Mesmo uma única tomografia pode aumentar significativamente o risco futuro de câncer. Ainda assim, a TC é frequentemente utilizada na prática. O desafio está em equilibrar risco e benefício, adotando uma postura mais seletiva e baseada em critérios clínicos. Epidemiologia e ritmos na parada traumática: O trauma pediátrico é altamente tempo-dependente: cada minuto de atraso no atendimento reduz a sobrevida em cerca de 5%. A mortalidade pode chegar a 96%, com alta taxa de sequelas neurológicas entre os sobreviventes. O choque hipovolêmico é a principal causa, responsável por aproximadamente 48% dos casos. Em relação aos ritmos: A atividade elétrica sem pulso AESP) é a mais frequente, presente em cerca de dois terços dos casos Assistolia ocorre em cerca de 30% e está associada a prognóstico extremamente desfavorável Ritmos chocáveis, como fibrilação ventricular, são menos comuns Bradicardia e hipotensão geralmente refletem hipoxemia, acidose ou hipovolemia O papel do POCUS na emergência: O ultrassom point-of-care tem papel crescente na abordagem do trauma pediátrico. Permite identificar causas reversíveis, diferenciar AESP verdadeira de pseudoatividade elétrica e avaliar a presença de atividade cardíaca. Também auxilia na avaliação da efetividade das compressões e pode contribuir na estratificação prognóstica. No entanto, seu uso deve ser restrito a profissionais treinados e nunca deve atrasar ou interromper as compressões torácicas. Parada cardíaca no trauma: Na parada traumática, o foco deve ser sempre a correção das causas reversíveis. Compressões torácicas isoladas têm eficácia limitada se condições como hemorragia, pneumotórax hipertensivo ou tamponamento cardíaco não forem tratadas. A priorização da circulação é fundamental, especialmente diante do choque hemorrágico, que é a causa mais frequente e potencialmente reversível. A abordagem deve ser coordenada desde o cenário pré-hospitalar, com preparo para intervenção cirúrgica e transfusão maciça, até o ambiente intra-hospitalar, com equipe organizada e foco na rápida identificação das causas. Coagulopatia do trauma: A coagulopatia no trauma pediátrico é multifatorial, envolvendo hiperfibrinólise, acidose, hipotermia, diluição de fatores e disfunção plaquetária. Está presente em até 30% dos casos e pode evoluir rapidamente. O tratamento inicial deve incluir transfusão maciça, controle precoce do sangramento e prevenção ativa da hipotermia. Ácido tranexâmico: Atua inibindo a conversão de plasminogênio em plasmina, reduzindo a fibrinólise exacerbada comum no trauma. Trata-se de uma medicação segura, acessível e de baixo custo. Seu benefício é claramente tempo-dependente, sendo mais eficaz quando administrado precocemente, idealmente na primeira hora após o trauma. Na pediatria, seu uso vem crescendo, com base em estudos observacionais e ensaios clínicos em andamento. O esquema mais utilizado inclui dose de ataque de 15 mg/kg seguida de infusão contínua, embora regimes simplificados estejam sendo avaliados. Mensagem final: o trauma pediátrico exige vigilância constante e compreensão de suas particularidades. A ausência de sinais clássicos não exclui gravidade, e a compensação fisiológica pode atrasar diagnósticos críticos. Reconhecer precocemente, agir com prioridade na circulação, ser criterioso no uso de exames e tratar causas reversíveis são pilares que impactam diretamente na sobrevida. Take Home Messages: A hipotensão no trauma é tardia, os mecanismos de compensação com taquicardia e vasoconstrição são fortes, portanto quando identificada, requer intervenção imediata. A resistência vascular periférica é a primeira que começa a aumentar, depois de cerca de 30% de aumento a pressão arterial começa a declinar. Crianças apresentam maior risco ao longo da vida de desenvolver malignidades induzidas por radiação por unidade de dose de radiação, devido aos tecidos em desenvolvimento e à maior expectativa de vida. Mesmo um única Tc pode aumentar de forma significativa o risco futuro de câncer, o que reforça os esforços para limitar exames desnecessários de Tc no trauma pediátrico. A sobrevida é tempo-sensível: cada minuto de atraso no atendimento reduz 5% na sobrevida. Uma novidade: pseudoatividade elétrica sem pulso - identificação da atividade elétrica por meio do uso do POCUS, garantindo maior chance de retorno da circulação espontânea. O POCUS deve ser usado somente por profissionais treinados, não deve atrasar o tratamento definitivo, nem interferir nas compressões torácicas. No tratamento das coagulopatias o que fica de mensagem é: transfusão maciça, prevenção de sangramentos e de hipotermia. Quanto aos fibrinolíticos, estudos observacionais no Reino Unido em andamento sobre uso de ácido tranexâmico. Para ver mais conteúdos como este, acesse: NeoPed Hub
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