Etiologia da Microcefalia Grave em Lactentes: Estudo Multinacional de Vigilância Sobre o Artigo A microcefalia grave, definida como circunferência craniana ≥3 desvios-padrão abaixo da média para idade e sexo, é uma condição rara e heterogênea, associada a múltiplas etiologias, incluindo causas genéticas, infecções congênitas, hipóxia/isquemia cerebral, exposição pré-natal a teratógenos e insuficiência placentária. Após a epidemia do vírus Zika entre 2015 e 2016, países membros da International Network of Paediatric Surveillance Units (INoPSU) implementaram sistemas nacionais de vigilância para monitorar casos de microcefalia grave e compreender melhor suas causas e características clínicas. O objetivo do estudo foi descrever a etiologia, manifestações clínicas e estratégias diagnósticas utilizadas em lactentes com microcefalia grave identificados por programas nacionais de vigilância em países de alta renda. Métodos Utilizados Estudo observacional multicêntrico com análise secundária de dados prospectivamente coletados por sistemas nacionais de vigilância pediátrica da Austrália, Canadá, Reino Unido, Irlanda e Nova Zelândia. Foram incluídas crianças menores de 1 ano com critérios antropométricos compatíveis com microcefalia grave. Os casos foram reportados voluntariamente por mais de 8.000 pediatras e subespecialistas participantes dos programas nacionais de vigilância. As etiologias foram classificadas em: Genéticas confirmadas ou suspeitas; Adquiridas (infecção, hipóxia/isquemia, exposição pré-natal ao álcool ou insuficiência placentária); Etiologia desconhecida. Os dados foram analisados por estatística descritiva e comparações entre grupos etiológicos. Resultados Foram analisados 118 lactentes com microcefalia grave, sendo: Reino Unido/Irlanda: 59 casos (50%); Canadá: 34 casos (29%); Austrália: 25 casos (21%). Características clínicas Idade mediana ao diagnóstico: 17 dias; 49% diagnosticados ao nascimento; Escore Z médio da circunferência craniana: -4,0. Etiologia Genética confirmada ou suspeita: 50% (59 casos); Adquirida: 18% (21 casos); Desconhecida: 32% (38 casos). Entre as causas adquiridas destacaram-se: Infecções congênitas (CMV, herpes simples, toxoplasmose e Zika); Hipóxia/isquemia fetal ou perinatal; Exposição ao álcool; Insuficiência placentária. Achados clínicos associados As manifestações mais frequentes foram: Alterações oftalmológicas ou comprometimento visual: 40%; Hipotonia: 31%; Espasticidade: 25%; Perda auditiva: 21%; Convulsões: 19%. Alterações visuais foram significativamente mais frequentes nos casos de etiologia genética. Investigações diagnósticas Exames mais realizados: Ressonância magnética cerebral: 69%; Microarray de DNA: 69%; Ultrassonografia cerebral: 53%; Triagem para citomegalovírus: 48%. Entre os pacientes submetidos à ressonância magnética: 80% apresentaram alterações estruturais. Entre os casos sem etiologia definida: 63% realizaram tanto testes genéticos quanto neuroimagem; 16% não realizaram nenhum desses exames. Discussão O estudo demonstra que as causas genéticas representam a principal etiologia da microcefalia grave em lactentes, respondendo por aproximadamente metade dos casos. Apesar da ampla utilização de exames diagnósticos, um terço dos pacientes permaneceu sem diagnóstico etiológico definido, evidenciando limitações dos protocolos atuais e sugerindo benefício potencial da ampliação do uso de sequenciamento de exoma ou genoma completo. Os autores observaram grande variabilidade entre países na realização de exames complementares, especialmente em neuroimagem e investigação genética, indicando necessidade de maior padronização internacional. Outro achado relevante foi a elevada taxa de alterações estruturais cerebrais identificadas por ressonância magnética, reforçando o papel central desse exame na investigação etiológica da microcefalia grave. Embora o estudo tenha sido motivado pela epidemia de Zika, poucos casos foram efetivamente atribuídos ao vírus, demonstrando que as causas genéticas continuam predominando mesmo em cenários de vigilância voltados para infecções congênitas emergentes. Conclusão A microcefalia grave em lactentes apresenta etiologia predominantemente genética, porém cerca de um terço dos casos permanece sem diagnóstico definido. Os resultados reforçam a necessidade de protocolos diagnósticos padronizados que incluam neuroimagem sistemática e investigação genética avançada para melhorar a definição etiológica, o prognóstico e o planejamento terapêutico desses pacientes. Insights Clínicos Qual é a principal causa da microcefalia grave em lactentes? As causas genéticas foram responsáveis por 50% dos casos analisados, tornando-se a etiologia mais frequente. Quantos pacientes permaneceram sem diagnóstico etiológico? Cerca de 32% dos lactentes permaneceram sem etiologia definida mesmo após investigação clínica e complementar. A ressonância magnética cerebral deve fazer parte da investigação inicial? Sim. A ressonância foi realizada em 69% dos pacientes e apresentou alterações em 80% dos exames, demonstrando elevado rendimento diagnóstico. Quais manifestações clínicas associadas são mais comuns? Alterações visuais, hipotonia, espasticidade, perda auditiva e convulsões foram os achados mais frequentes. O vírus Zika foi uma causa frequente neste estudo? Não. Apesar da motivação inicial da vigilância ter sido a epidemia de Zika, poucos casos foram atribuídos ao vírus. Quando considerar testes genéticos avançados? Diante da elevada proporção de casos sem etiologia definida e da predominância de causas genéticas, os autores sugerem ampliar o uso de sequenciamento de exoma ou genoma completo na investigação da microcefalia grave. Para ver mais conteúdos como este, acesse: NeoPed Hub
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