Otimizando o Manejo de Lactentes Febris Sem Uso de Procalcitonina Sérica Sobre o Artigo A febre em lactentes com até 60 dias representa um desafio clínico importante devido ao risco de infecções bacterianas invasivas (IBI), incluindo bacteremia e meningite bacteriana. Embora algoritmos modernos utilizem procalcitonina como marcador inflamatório de maior acurácia, sua indisponibilidade em muitos serviços limita sua aplicação prática. As diretrizes da American Academy of Pediatrics (AAP) recomendam o uso combinado da proteína C-reativa (PCR), contagem absoluta de neutrófilos (ANC) e temperatura corporal para identificar lactentes de baixo risco quando a procalcitonina não está disponível. Entretanto, os pontos de corte recomendados foram definidos por consenso de especialistas e não haviam sido previamente validados em conjunto. O objetivo deste estudo foi identificar a combinação ideal desses marcadores inflamatórios para maximizar a identificação segura de lactentes com baixo risco de IBI, mantendo elevada sensibilidade e aumentando a especificidade. Métodos Utilizados Análise secundária de uma coorte prospectiva de melhoria contínua da qualidade. Período: janeiro de 2018 a julho de 2023. Local: hospital pediátrico terciário. Inclusão: Lactentes previamente saudáveis. Nascidos a termo. Idade entre 8 e 60 dias. Temperatura retal ≥ 38°C. Critérios compatíveis com as recomendações da AAP. Exclusões: Doença crítica. Antibioticoterapia recente. Imunização recente. Doenças crônicas ou imunodeficiência. Dispositivos invasivos. Infecções bacterianas focais. Todos os pacientes realizaram hemocultura e urocultura. A punção lombar foi realizada conforme decisão clínica. Foi utilizado modelo CART (Classification and Regression Tree) com validação cruzada de 10 partes para derivar uma nova regra clínica baseada em: PCR; ANC; Temperatura; Idade; Urinálise. O desfecho principal foi infecção bacteriana invasiva (bacteremia ou meningite bacteriana). Resultados Foram incluídos 1.987 lactentes febris. Características da amostra 83,7% tinham entre 22 e 60 dias. 58,1% eram do sexo masculino. 43,1% foram hospitalizados. 37,9% realizaram coleta de líquor. Infecções identificadas Qualquer infecção bacteriana: 13,4%. Infecção bacteriana invasiva (IBI): 38 casos (1,9%). Meningite bacteriana: 9 casos (0,5%). Desempenho dos critérios da AAP Critérios de baixo risco: PCR ≤ 20 mg/L. ANC ≤ 5.200/mm³. Temperatura ≤ 38,5°C. Resultados: Sensibilidade: 100%. Valor preditivo negativo (VPN): 100%. Especificidade: 50,7%. Nova regra derivada pelo estudo Pontos de corte otimizados: PCR ≤ 22,2 mg/L. Temperatura ≤ 39,0°C. ANC ≤ 4.500/mm³. Regra de baixo risco: PCR ≤ 22,2 mg/L e temperatura ≤ 39,0°C; ou PCR ≤ 22,2 mg/L, temperatura > 39,0°C e ANC ≤ 4.500/mm³. Desempenho: Sensibilidade: 100%. VPN: 100%. Especificidade: 83,8%. AUC: 92,5%. Na validação cruzada: Sensibilidade: 97,4%. VPN: 99,9%. Especificidade: 83,8%. AUC: 91,9%. A nova estratégia classificou corretamente 82,2% dos lactentes como baixo risco, sem perder nenhum caso de IBI. Discussão O estudo demonstrou que os marcadores recomendados pela AAP mantêm excelente capacidade para excluir infecção bacteriana invasiva, porém apresentam baixa especificidade, resultando em muitos procedimentos e internações desnecessários. A nova regra derivada estatisticamente preservou a segurança diagnóstica e aumentou substancialmente a especificidade. Achados importantes: Nem a idade nem a urinálise permaneceram no modelo final. A capacidade preditiva dos marcadores inflamatórios foi semelhante entre lactentes de 8–21 dias e 22–60 dias. O ANC mostrou maior utilidade quando utilizado em combinação com PCR e temperatura. A regra poderia evitar um número significativo de punções lombares, uso empírico de antibióticos e hospitalizações. Os autores sugerem que a estratificação baseada em biomarcadores pode ser mais relevante do que a idade isoladamente para avaliação do risco de IBI. Conclusão Em lactentes febris de 8 a 60 dias sem disponibilidade de procalcitonina, a combinação de: PCR ≤ 22,2 mg/L; Temperatura ≤ 39°C; ANC ≤ 4.500/mm³ (quando a temperatura estiver acima de 39°C); apresentou excelente desempenho para excluir infecção bacteriana invasiva. A nova regra manteve sensibilidade e valor preditivo negativo extremamente elevados, ao mesmo tempo em que aumentou significativamente a especificidade em comparação aos critérios atuais da AAP. Após validação externa, essa estratégia poderá reduzir exames invasivos, antibioticoterapia desnecessária e hospitalizações em lactentes febris de baixo risco. Insights Clínicos A procalcitonina é indispensável para excluir infecção bacteriana invasiva? Não. O estudo demonstrou que a combinação de PCR, temperatura e ANC pode manter sensibilidade próxima de 100% mesmo quando a procalcitonina não está disponível. Qual foi o melhor ponto de corte para PCR? PCR ≤ 22,2 mg/L foi o ponto de corte selecionado pelo modelo estatístico para identificar lactentes de baixo risco. Qual foi o melhor ponto de corte para ANC? ANC ≤ 4.500/mm³ foi o valor que apresentou melhor desempenho combinado com PCR e temperatura. A idade do lactente foi importante para prever IBI? Não. A idade não permaneceu no modelo final, sugerindo que os biomarcadores tiveram maior valor preditivo do que a faixa etária isoladamente. A nova regra reduziu falsos positivos? Sim. A especificidade aumentou de 50,7% para 83,8%, mantendo a mesma sensibilidade para detectar IBI. Qual o potencial impacto prático dessa estratégia? Redução de internações, punções lombares e uso empírico de antibióticos em lactentes febris classificados como baixo risco, sem comprometer a segurança diagnóstica. Para ver mais conteúdos como este, acesse: NeoPed Hub
Faça login para acessar o conteúdo
ou cadastre-se. | ESQUECI MINHA SENHA