Desempenho de biomarcadores sanguíneos em lactentes febris menores de 90 dias com infecção bacteriana invasiva.

Desempenho de biomarcadores sanguíneos em lactentes febris menores de 90 dias com infecção bacteriana invasiva. Sobre o artigo  A identificação precoce da infecção bacteriana invasiva (IBI) em lactentes febris menores de 90 dias permanece um dos maiores desafios da emergência pediátrica. Diversos algoritmos diagnósticos utilizam biomarcadores sanguíneos como leucograma, contagem absoluta de neutrófilos (ANC), proteína C-reativa (PCR) e procalcitonina (PCT) para estratificação de risco. Entretanto, evidências recentes sugerem que a resposta inflamatória não depende apenas da gravidade da infecção, mas também do agente etiológico envolvido. Escherichia coli e Streptococcus agalactiae representam mais de 80% das IBIs nessa faixa etária, podendo desencadear perfis inflamatórios distintos e influenciar o desempenho dos algoritmos clínicos atuais. Métodos utilizados Estudo retrospectivo multicêntrico realizado em 18 hospitais da Espanha e América Latina entre 2008 e 2022. Foram incluídos lactentes com até 90 dias de vida atendidos em serviços de emergência pediátrica e diagnosticados com IBI, definida pela identificação de bactéria patogênica em hemocultura ou líquor, por cultura ou PCR. Foram analisados: Leucócitos totais (WBC); Contagem absoluta de neutrófilos (ANC); Proteína C-reativa (PCR); Procalcitonina (PCT). Os autores avaliaram a sensibilidade dos pontos de corte utilizados no algoritmo Step-by-Step: WBC > 15.000 células/mm³; ANC > 10.000 células/mm³; PCR > 20 mg/L; PCT > 0,5 ng/mL. Também foi realizada análise multivariada ajustando para: idade; sexo; temperatura máxima; duração dos sintomas; estado clínico inicial avaliado pelo Pediatric Assessment Triangle (PAT). Resultados Foram analisados 391 lactentes com IBI. Principais agentes etiológicos Escherichia coli: 45,6%; Streptococcus agalactiae: 25,6%; Staphylococcus aureus: 7,9%; Streptococcus pneumoniae: 3,8%; Enterococcus faecalis: 3,6%; Neisseria meningitidis: 2,6%. Principais apresentações clínicas Bacteremia isolada: 43,2%; ITU bacterêmica: 41,7%; Meningite associada à bacteremia: 10%; Meningite isolada: 3,1%. Achados principais As respostas inflamatórias variaram significativamente conforme o microrganismo e o tipo de IBI. Infecções por E. coli Apresentaram: maiores contagens leucocitárias; maiores valores de ANC; maiores níveis de PCR. Infecções por Streptococcus agalactiae Caracterizaram-se por: leucograma frequentemente normal; neutrofilia discreta ou ausente; PCR frequentemente baixa; resposta inflamatória global mais branda. Nesses casos, apenas a procalcitonina apresentou sensibilidade considerada adequada para rastreamento da IBI. Sensibilidade dos biomarcadores Os pontos de corte tradicionais de leucócitos e ANC apresentaram sensibilidade inferior a 50% para praticamente todos os agentes etiológicos avaliados. A procalcitonina demonstrou o melhor desempenho diagnóstico global, especialmente nas infecções por Streptococcus agalactiae e meningite bacteriana. Discussão O estudo demonstra que a interpretação dos biomarcadores em lactentes jovens não deve ser uniforme para todos os agentes infecciosos. As IBIs causadas por Streptococcus agalactiae podem apresentar resposta inflamatória surpreendentemente discreta, aumentando o risco de subdiagnóstico caso sejam utilizados apenas leucograma e PCR. Além disso: bacteremias isoladas produziram respostas inflamatórias menores do que ITUs bacterêmicas; a duração curta dos sintomas contribuiu para biomarcadores menos elevados; a baixa sensibilidade do leucograma e da ANC reforça as limitações dos algoritmos mais antigos. Os resultados sustentam as recomendações atuais da American Academy of Pediatrics que incluem a procalcitonina na avaliação dos lactentes febris de baixo risco. Conclusão Os biomarcadores sanguíneos em lactentes febris menores de 90 dias apresentam comportamento dependente do agente etiológico e do tipo de infecção bacteriana invasiva. As principais conclusões foram: bacteremias isoladas geram menor resposta inflamatória que ITUs bacterêmicas; infecções por Streptococcus agalactiae frequentemente cursam com PCR e leucograma pouco alterados; a procalcitonina foi o biomarcador com melhor desempenho diagnóstico, especialmente para exclusão de IBI por Streptococcus agalactiae; algoritmos que não utilizam PCT podem subestimar infecções bacterianas invasivas nessa população. Esses achados possuem impacto direto na prática clínica e na interpretação dos exames laboratoriais na emergência pediátrica e neonatal. Insights clínicos  A procalcitonina deve ser solicitada rotineiramente no lactente febril menor de 90 dias? Sim. O estudo demonstrou que a PCT foi o biomarcador mais sensível, especialmente nas infecções por Streptococcus agalactiae, nas quais PCR e leucograma frequentemente permanecem normais. Um leucograma normal exclui infecção bacteriana invasiva? Não. A sensibilidade dos pontos de corte tradicionais para leucócitos e ANC foi inferior a 50% para praticamente todos os agentes estudados. As ITUs bacterêmicas apresentam perfil inflamatório diferente das bacteremias isoladas? Sim. ITUs bacterêmicas apresentaram níveis significativamente maiores de leucócitos, PCR e procalcitonina quando comparadas às bacteremias isoladas. Streptococcus agalactiae produz resposta inflamatória menos intensa? Sim. Os níveis de leucócitos, ANC e PCR foram significativamente menores do que aqueles observados nas infecções por E. coli. Os algoritmos sem procalcitonina podem falhar? Os resultados sugerem que sim, especialmente nos casos de IBI por Streptococcus agalactiae, nos quais a ausência da PCT pode aumentar o risco de falso baixo risco clínico. Para ver mais conteúdos como este, acesse: NeoPed Hub

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