Testagem para o Vírus da Hepatite C em Crianças Expostas ao HCV no Período Perinatal

Testagem para o Vírus da Hepatite C em Crianças Expostas ao HCV no Período Perinatal Sobre o artigo  A incidência de hepatite C em gestantes aumentou significativamente nas últimas décadas, resultando em um número crescente de crianças expostas ao vírus durante a gestação e o parto. Embora aproximadamente 8% dos lactentes expostos adquiram a infecção por transmissão vertical, estudos anteriores demonstram que menos da metade dessas crianças realiza o rastreamento recomendado. Historicamente, as diretrizes recomendavam sorologia anti-HCV após os 18 meses de idade, devido à persistência dos anticorpos maternos. Entretanto, as novas recomendações do CDC passaram a indicar pesquisa de RNA-HCV entre 2 e 6 meses de vida para reduzir perdas de seguimento e permitir diagnóstico mais precoce. O estudo teve como objetivo identificar fatores maternos e infantis associados à realização adequada da testagem para HCV em crianças expostas e descrever a cascata de cuidado, incluindo diagnóstico, seguimento e tratamento das crianças infectadas. Métodos utilizados Estudo de coorte populacional realizado no estado de Massachusetts, Estados Unidos, utilizando o Massachusetts Public Health Data Warehouse, banco de dados que integra registros de nascimentos, vigilância epidemiológica, dados laboratoriais, prescrições, seguros de saúde e tratamento para uso de substâncias. Foram incluídas crianças nascidas entre 2014 e 2021 de mães com hepatite C confirmada (RNA positivo) ou provável (sorologia positiva sem confirmação molecular). Os principais desfechos avaliados foram: realização de testagem adequada conforme diretrizes vigentes; diagnóstico de infecção pelo HCV; vinculação ao cuidado especializado; realização de tratamento antiviral. Foram utilizados modelos de regressão logística multivariada para identificar fatores associados à testagem apropriada. Resultados Foram identificadas 4.548 crianças nascidas de 3.693 mães com hepatite C provável ou confirmada. Entre as 4.103 crianças com idade suficiente para completar o rastreamento: apenas 41,9% realizaram a testagem adequada para exposição perinatal ao HCV; 46,4% realizaram pelo menos algum exame para HCV; apenas 2,5% das crianças adequadamente testadas receberam diagnóstico confirmado de infecção pelo HCV. Entre as crianças infectadas: 81,6% foram encaminhadas para acompanhamento especializado; 65,8% realizaram genotipagem viral; menos de 29% das crianças elegíveis receberam tratamento antiviral até o final do estudo. Observou-se redução progressiva das taxas de testagem ao longo dos anos: 45,7% das crianças nascidas em 2014 foram adequadamente testadas; apenas 32,3% das nascidas em 2020 completaram o rastreamento recomendado. Os fatores associados a maior probabilidade de realização da testagem incluíram: registro do diagnóstico materno de HCV próximo ao parto (OR ajustado 5,40); uso de terapia medicamentosa para transtorno por uso de opioides durante a gestação; acompanhamento pediátrico regular com consultas de puericultura. Por outro lado, apresentaram menor probabilidade de rastreamento: crianças de mães negras não hispânicas; famílias com seguro privado; residentes em determinadas regiões rurais do estado. Discussão O estudo demonstra importante falha na cascata de cuidado das crianças expostas ao HCV, desde a identificação da exposição até o tratamento dos casos confirmados. O principal determinante para a realização do rastreamento foi o conhecimento do diagnóstico materno pelos profissionais responsáveis pelo seguimento da criança. Quando a informação sobre a infecção materna estava documentada durante a internação do parto, a chance de a criança ser testada aumentava mais de cinco vezes. Também foram identificadas desigualdades raciais e geográficas importantes, sugerindo influência de fatores estruturais e barreiras de acesso ao sistema de saúde. Os autores destacam que estratégias como: comunicação sistemática entre equipes obstétricas e pediátricas; alertas eletrônicos em prontuários; inclusão do status sorológico materno no resumo de alta neonatal; implementação das novas recomendações do CDC para RNA-HCV entre 2 e 6 meses, podem melhorar significativamente a identificação e o tratamento das crianças expostas. Conclusão Menos da metade das crianças expostas ao HCV durante o período perinatal realiza o rastreamento recomendado, e apenas uma pequena proporção das crianças infectadas recebe tratamento antiviral. A documentação adequada da infecção materna e a comunicação efetiva entre assistência obstétrica e pediátrica são fatores centrais para melhorar a cascata de cuidado e alcançar as metas de eliminação da hepatite C pediátrica. A adoção das novas recomendações de testagem precoce por RNA-HCV representa uma oportunidade importante para reduzir perdas de seguimento e ampliar o diagnóstico oportuno. Insights clínicos Qual é o principal fator associado à realização do rastreamento adequado do HCV na criança exposta? A documentação do diagnóstico materno de hepatite C no momento do parto aumentou mais de cinco vezes a probabilidade de a criança realizar a investigação recomendada. As novas recomendações do CDC podem melhorar o diagnóstico? Sim. A realização do RNA-HCV entre 2 e 6 meses reduz perdas de seguimento associadas à espera pela sorologia após os 18 meses. Crianças com maior acesso ao sistema de saúde foram mais testadas? Curiosamente, crianças com seguro privado apresentaram menores taxas de rastreamento quando comparadas às cobertas por seguro público. Quantas crianças expostas desenvolveram infecção pelo HCV? Entre as crianças adequadamente testadas, aproximadamente 2,5% apresentaram infecção confirmada por transmissão vertical. A maioria das crianças infectadas recebeu tratamento antiviral? Não. Apesar da maioria ter sido encaminhada para acompanhamento especializado, menos de 29% das crianças elegíveis receberam terapia antiviral. Quais estratégias podem melhorar o rastreamento? Comunicação estruturada entre obstetras e pediatras, inclusão do status sorológico materno na alta neonatal e utilização de alertas eletrônicos em prontuários clínicos são medidas potencialmente eficazes. Para ver mais conteúdos como este, acesse: NeoPed Hub

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