Concentrações de glicose no sangue do cordão umbilical e hipoglicemia neonatal transitória

Concentrações de glicose no sangue do cordão umbilical e hipoglicemia neonatal transitória Sobre o artigo  A hipoglicemia neonatal transitória representa o distúrbio metabólico mais frequente do período neonatal e pode estar associada a comprometimento neurodesenvolvimental quando grave ou prolongada. Apesar da prática rotineira de monitorização em grupos de risco, ainda faltam biomarcadores precoces capazes de identificar recém-nascidos com maior probabilidade de desenvolver hipoglicemia após o nascimento. Os autores investigaram se os valores de glicose arterial e venosa do sangue do cordão umbilical, bem como parâmetros derivados como a diferença venoarterial e a taxa de extração de glicose fetal, poderiam funcionar como marcadores preditivos da hipoglicemia neonatal transitória. Além disso, o estudo estabeleceu valores de referência baseados em percentis para a glicemia do sangue de cordão em recém-nascidos de termo e pré-termo tardios. Métodos utilizados Estudo prospectivo de coorte realizado em centro perinatal terciário da Alemanha. Inclusão de recém-nascidos com idade gestacional igual ou superior a 35 semanas. Foram analisadas amostras pareadas de sangue arterial e venoso do cordão umbilical coletadas imediatamente após o nascimento. A população incluiu recém-nascidos com e sem fatores de risco para hipoglicemia neonatal. Os fatores de risco incluíram: diabetes materno; prematuridade tardia; pequeno para idade gestacional; grande para idade gestacional; restrição de crescimento fetal; estresse perinatal; hipotermia. A hipoglicemia neonatal transitória foi definida como glicemia ≤45 mg/dL. Hipoglicemia grave foi definida como glicemia <30 mg/dL. Foram realizadas análises de curva ROC e regressão logística multivariada para avaliar a capacidade preditiva dos parâmetros do sangue de cordão. Resultados Foram incluídos 598 recém-nascidos. A incidência de hipoglicemia neonatal transitória foi de 31,4%. Hipoglicemia grave ocorreu em 3,7% dos pacientes. Os valores medianos encontrados foram: glicemia arterial do cordão: 67 mg/dL; glicemia venosa do cordão: 85 mg/dL; diferença venoarterial: 16 mg/dL; taxa de extração de glicose: 19%. Apenas 3,7% dos recém-nascidos apresentaram glicemia arterial do cordão ≤45 mg/dL. Houve correlação muito fraca entre glicemia arterial do cordão e a primeira glicemia pós-natal. A diferença venoarterial e a taxa de extração de glicose não apresentaram correlação com a glicemia pós-natal. Nenhum parâmetro do sangue de cordão apresentou sensibilidade ou especificidade clinicamente úteis para prever hipoglicemia neonatal. Os maiores valores de área sob a curva ROC permaneceram baixos, com desempenho discriminatório insuficiente. Recém-nascidos com glicemia arterial do cordão ≤45 mg/dL apresentaram maior incidência de hipoglicemia grave, embora esse achado tenha sido exploratório devido ao pequeno número de casos. Discussão Os resultados sugerem que a glicemia do sangue do cordão reflete apenas o estado metabólico fetal no momento do nascimento, mas não consegue prever adequadamente a adaptação metabólica dinâmica que ocorre nas primeiras horas de vida extrauterina. A hipoglicemia neonatal transitória depende de múltiplos fatores fisiológicos e hormonais pós-natais, incluindo persistência transitória da secreção de insulina fetal, disponibilidade de substratos energéticos e adaptação da gliconeogênese neonatal. O estudo também demonstrou a importância da correta diferenciação entre sangue arterial e venoso do cordão, já que mais de um quarto das amostras inicialmente coletadas não preencheram critérios de validação para identificação correta do vaso. Os autores levantam a hipótese de que valores extremamente baixos de glicose arterial do cordão possam identificar recém-nascidos com formas patológicas de hipoglicemia, especialmente hiperinsulinismo congênito, hipótese que ainda necessita de validação em estudos maiores. Conclusão Os níveis de glicose arterial e venosa do sangue do cordão umbilical, bem como a diferença venoarterial e a taxa de extração de glicose, não apresentaram utilidade clínica para prever hipoglicemia neonatal transitória. A monitorização glicêmica pós-natal permanece como o método padrão para identificação precoce e tratamento dos recém-nascidos em risco. Valores extremamente baixos de glicemia arterial do cordão podem futuramente auxiliar na identificação de hipoglicemias patológicas relacionadas ao hiperinsulinismo congênito, porém essa aplicação ainda não pode ser recomendada para a prática clínica. Insights clínicos  A glicemia do sangue de cordão pode substituir a monitorização glicêmica pós-natal? Não. O estudo demonstrou desempenho preditivo insuficiente para uso clínico rotineiro. Qual foi a incidência de hipoglicemia neonatal transitória nesta coorte? Aproximadamente um terço dos recém-nascidos apresentou pelo menos um episódio de hipoglicemia. Valores baixos de glicose arterial do cordão identificam hipoglicemia futura? Não para a hipoglicemia transitória habitual, embora valores extremamente baixos possam estar associados a formas mais graves. A diferença entre glicose venosa e arterial do cordão possui valor clínico? Não houve capacidade discriminatória suficiente para prever hipoglicemia neonatal. Existe potencial aplicação da glicemia do cordão no hiperinsulinismo congênito? Possivelmente sim, especialmente em valores muito baixos, mas são necessários estudos adicionais antes de qualquer recomendação clínica. Qual a principal mensagem prática para neonatologistas? A monitorização glicêmica seriada permanece indispensável e continua sendo o padrão-ouro para o diagnóstico e tratamento da hipoglicemia neonatal. Para ver mais conteúdos como este, acesse: NeoPed Hub

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