Avaliação dos distúrbios de sono em crianças e adolescentes com distúrbios do neurodesenvolvimento Sobre o artigo Os distúrbios do neurodesenvolvimento têm início precoce e podem comprometer o funcionamento social, pessoal e acadêmico. Nesse grupo estão condições como deficiência intelectual, transtorno do espectro autista (TEA), transtorno do déficit de atenção e hiperatividade (TDAH) e síndromes genéticas como Down, Smith-Magenis, Prader-Willi e X-Frágil. Os distúrbios do sono constituem uma das comorbidades mais frequentes nessa população. O artigo relata prevalência de até 86% em crianças com transtornos do neurodesenvolvimento, comparada a aproximadamente 25% a 30% nas crianças neurotípicas. Essa associação é particularmente relevante porque o sono participa de processos essenciais ao desenvolvimento cerebral, incluindo plasticidade cerebral, consolidação da memória, regulação emocional e funções cognitivas. A relação entre sono e neurodesenvolvimento é multidirecional: alterações cognitivas, sociais, comunicativas e físicas podem interferir no sono, enquanto o sono inadequado pode agravar manifestações comportamentais e comprometer o prognóstico. O objetivo da revisão foi analisar as associações entre diferentes transtornos do neurodesenvolvimento e os principais distúrbios do sono na infância e adolescência, enfatizando manifestações clínicas e investigação diagnóstica. Métodos utilizados Trata-se de uma revisão da literatura, realizada na base PubMed. Foram utilizados os termos relacionados a “transtornos do neurodesenvolvimento” associados a diferentes categorias de distúrbios do sono: insônia, distúrbios respiratórios relacionados ao sono, distúrbios do ritmo circadiano sono-vigília, distúrbios do movimento relacionados ao sono, parassonias e hipersonolência de origem central. Também foram pesquisadas nomenclaturas específicas dos transtornos do neurodesenvolvimento e dos distúrbios do sono. As referências bibliográficas dos artigos identificados foram revisadas para localização de outras publicações relevantes. Resultados A revisão demonstra que os distúrbios do sono apresentam diferentes padrões conforme o transtorno do neurodesenvolvimento e podem decorrer de mecanismos anatômicos, biológicos e comportamentais. Insônia: no TEA, é o distúrbio do sono mais frequentemente relatado, caracterizando-se principalmente por maior latência para adormecer e despertares noturnos frequentes. Crianças e adolescentes com TEA apresentaram, em um estudo longitudinal citado, 43 minutos a menos de sono noturno, em média, em comparação às crianças com desenvolvimento típico. Menor duração de sono contínuo também esteve associada a maior irritabilidade e estereotipias. No TDAH, distúrbios do sono podem ocorrer em até 55% das crianças. São descritos maior resistência ao adormecimento, dificuldade para iniciar o sono, despertares noturnos, dificuldade para despertar pela manhã, sonolência diurna e menor eficiência do sono. Existe ainda uma interação clínica importante: alterações do sono podem exacerbar manifestações do TDAH, enquanto psicoestimulantes podem provocar dificuldades para adormecer, despertares precoces e sono agitado. Na deficiência intelectual, comorbidades como dor recorrente, constipação, tosse frequente e crises epilépticas recorrentes mostraram-se importantes preditores de problemas de sono, reforçando a necessidade de investigação clínica sistêmica. Distúrbios respiratórios relacionados ao sono: a síndrome da apneia/hipopneia obstrutiva do sono (SAOS) é o principal distúrbio respiratório discutido. Pode manifestar-se com ronco, pausas respiratórias, sudorese noturna e respiração oral, além de alterações diurnas como irritabilidade, desatenção, hiperatividade, sonolência e déficits de aprendizagem. Na síndrome de Down, a SAOS é especialmente prevalente, com estimativas entre 50% e 100% durante a infância, aproximando-se de 100% na idade adulta. O artigo destaca a necessidade de busca ativa desde os primeiros anos de vida. Também são relatadas associações entre distúrbios respiratórios do sono e TDAH, mucopolissacaridose tipo II e síndrome de Prader-Willi. Distúrbios do ritmo circadiano: na síndrome de Smith-Magenis, são extremamente frequentes e associados a alterações relacionadas ao gene RAI1 e à regulação da melatonina. No TEA, alterações da expressão de genes CLOCK e irregularidades na secreção de melatonina são apontadas como possíveis mecanismos de desregulação circadiana. No TDAH, há tendência ao cronotipo vespertino e, em situações extremas, à síndrome do atraso de fase do sono. O perfil vespertino foi associado a dificuldade para iniciar e manter o sono e à sonolência diurna excessiva. Distúrbios do movimento relacionados ao sono: incluem síndrome das pernas inquietas (SPI), movimentos periódicos dos membros, movimentos rítmicos relacionados ao sono, bruxismo e distúrbio do sono agitado. A SPI pode ocorrer em até 44% dos indivíduos com TDAH. O artigo discute uma possível relação bidirecional, envolvendo privação de sono, manifestações semelhantes ao TDAH e possível déficit dopaminérgico compartilhado. Parassonias: crianças com transtornos do neurodesenvolvimento apresentam maior risco de parassonias do sono não REM. Em um estudo com 23 pacientes com TEA, 14 apresentaram parassonias na avaliação objetiva, sendo 13 casos relacionados ao sono não REM. Hipersonolência de origem central: são discutidas narcolepsia, hipersonia idiopática, síndrome de Kleine-Levin e hipersonias secundárias. Uma revisão sistemática citada encontrou prevalência agregada de 25% de TDAH entre pacientes com narcolepsia, ressaltando a sobreposição entre desatenção, hiperatividade, impulsividade e sonolência excessiva. Na síndrome de Prader-Willi, a sonolência diurna excessiva é frequente e incapacitante, podendo decorrer não apenas de SAOS, mas também de disfunção hipotalâmica. Discussão A avaliação do sono deve integrar rotineiramente o acompanhamento pediátrico dos pacientes com transtornos do neurodesenvolvimento. A anamnese precisa investigar história gestacional e perinatal, desenvolvimento, padrão de sono desde o nascimento, comorbidades, exposição a telas, rotina escolar, atividade física, horários de dormir e despertar, ambiente de sono, latência para adormecer, despertares, ronco, respiração oral, pausas respiratórias, sonolência diurna, sestas e medicamentos capazes de interferir na vigília ou no sono. O exame físico também é relevante, particularmente para identificação de hipotonia, alterações de força, malformações craniofaciais e obesidade. A investigação complementar deve ser orientada pela hipótese clínica. Entre as ferramentas discutidas estão: Diário de sono: preferencialmente por pelo menos duas semanas, permitindo caracterizar horários, despertares e atividades diurnas. Questionários: BISQ para crianças até 3 anos; Escala de Distúrbios do Sono em Crianças entre 3 e 18 anos; ESS-CHAD entre 12 e 18 anos para avaliação da sonolência diurna. Actigrafia: útil na avaliação objetiva e prolongada do ciclo sono-vigília, especialmente na insônia e nos distúrbios circadianos. Polissonografia: necessária para investigação dos distúrbios respiratórios relacionados ao sono e utilizada em situações específicas de outros distúrbios. Vídeos domiciliares: podem auxiliar na caracterização de parassonias quando a descrição clínica é insuficiente. Teste de latências múltiplas do sono: empregado na investigação da narcolepsia, associado ao diário de sono, actigrafia e polissonografia. Um aspecto central da
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