Smartphone: idade de aquisição e desfechos em saúde na adolescência precoce

Fonte: American Academy of Pediatrics

Smartphone: idade de aquisição e desfechos em saúde na adolescência precoce Sobre o artigo  A posse de smartphones tornou-se extremamente comum durante a transição da infância para a adolescência. Nos Estados Unidos, aproximadamente metade das crianças já possui seu próprio smartphone aos 11 anos. Embora smartphones ofereçam acesso imediato à comunicação, atividades escolares, redes sociais, jogos e internet, seu uso também pode envolver exposição a bullying, conteúdos inadequados e períodos prolongados diante de telas. Estudos anteriores já relacionaram uso excessivo ou problemático de smartphones a pior saúde mental, comportamento sedentário e alterações do sono. Entretanto, uma questão diferente permanecia menos esclarecida: a simples posse de um smartphone — independentemente de caracterizar uso problemático — e a idade em que o dispositivo é adquirido estão associadas a desfechos adversos de saúde? O estudo avaliou especificamente três desfechos clinicamente relevantes no início da adolescência: depressão, obesidade e sono insuficiente. A hipótese dos pesquisadores foi que possuir um smartphone, particularmente quando adquirido em idade mais precoce, estaria associado a piores desfechos de saúde. Métodos utilizados Os pesquisadores utilizaram dados do Adolescent Brain Cognitive Development (ABCD) Study, estudo longitudinal realizado em 21 centros dos Estados Unidos. A análise principal incluiu 10.588 participantes, acompanhados desde o final da infância até a adolescência. A posse de smartphone foi determinada por informações fornecidas pelos cuidadores. Participantes com iPhone ou dispositivo Android foram classificados como proprietários de smartphone. A idade da primeira aquisição também foi informada pelos responsáveis. Foram realizadas três análises principais: Associação entre posse de smartphone aos 12 anos e depressão, obesidade e sono insuficiente. Associação entre idade da primeira aquisição do smartphone e esses desfechos aos 12 anos, entre adolescentes que já possuíam o aparelho. Entre adolescentes que não tinham smartphone aos 12 anos, comparação aos 13 anos entre aqueles que adquiriram um aparelho durante o ano seguinte e aqueles que permaneceram sem smartphone. Depressão foi avaliada utilizando o Kiddie Schedule for Affective Disorders and Schizophrenia (KSADS). Na avaliação aos 13 anos, psicopatologia clinicamente significativa foi definida por escore T ≥65 no Brief Problem Monitor (BPM). Obesidade foi definida como IMC acima do percentil 95 e sono insuficiente como duração autorreferida inferior a 9 horas por noite. Foram utilizados modelos de regressão logística de efeitos mistos, com ajuste para idade, sexo, raça/etnia, renda familiar, escolaridade parental, estágio puberal, monitoramento parental e posse de outros dispositivos eletrônicos. O estudo também realizou múltiplas análises de sensibilidade, incluindo exclusão dos participantes com uso problemático de smartphone. Resultados Aos 12 anos, 63,6% dos participantes (6.739/10.588) possuíam smartphone. Essa proporção aumentou para 77,2% na avaliação seguinte e 89,1% posteriormente. A mediana de idade da primeira aquisição foi de 11 anos. Posse de smartphone aos 12 anos Após ajuste para potenciais fatores de confusão, possuir smartphone esteve associado a maior chance de: Depressão: OR 1,31; IC95% 1,05–1,63; P=0,016. Obesidade: OR 1,40; IC95% 1,20–1,63; P<0,001. Sono insuficiente: OR 1,62; IC95% 1,46–1,79; P<0,001. Portanto, a associação de maior magnitude observada nessa análise ocorreu para sono inferior a 9 horas por noite. Idade de aquisição do smartphone Entre os participantes que já possuíam smartphone aos 12 anos, cada ano mais precoce de aquisição esteve associado a: aumento de 9% nas odds de obesidade: OR 1,09; IC95% 1,02–1,16; aumento de 8% nas odds de sono insuficiente: OR 1,08; IC95% 1,02–1,12. Após ajuste completo, não houve associação estatisticamente significativa entre idade mais precoce de aquisição e depressão: OR 1,03; IC95% 0,94–1,12. Aquisição entre 12 e 13 anos Entre 3.486 adolescentes que não possuíam smartphone aos 12 anos, 1.546 adquiriram um aparelho no ano seguinte e 1.940 permaneceram sem smartphone. Após ajuste inclusive para o estado clínico anterior, adquirir um smartphone esteve associado a: psicopatologia em nível clínico: OR 1,57; IC95% 1,12–2,20; sono insuficiente: OR 1,50; IC95% 1,26–1,77. Não foi encontrada diferença estatisticamente significativa para obesidade nessa análise longitudinal: OR 1,57; IC95% 0,82–3,04. As principais associações permaneceram semelhantes nas análises de sensibilidade, inclusive após exclusão dos adolescentes classificados como apresentando uso problemático de smartphone. Discussão Os resultados fornecem evidências convergentes de que a posse de smartphone no início da adolescência está associada a desfechos adversos de saúde mental, peso corporal e sono. Um aspecto particularmente relevante é que os resultados não parecem depender exclusivamente do uso problemático ou compulsivo do aparelho. As associações permaneceram mesmo quando adolescentes com padrões problemáticos de uso foram excluídos. Os autores discutem possíveis mecanismos, incluindo fragmentação da atenção, comportamentos repetitivos de checagem do aparelho, uso prolongado no período noturno e deslocamento de atividades importantes para o desenvolvimento, como interação presencial, atividade física e sono restaurador. Outro achado relevante foi a relação entre aquisição mais precoce do smartphone e obesidade e sono insuficiente. Embora os tamanhos de efeito por ano de antecipação sejam modestos, os autores destacam que pequenas diferenças individuais podem adquirir importância em saúde pública diante da elevada prevalência da exposição. O estudo não demonstrou diferenças consistentes entre meninos e meninas nas análises principais. Entretanto, uma análise longitudinal de sensibilidade identificou associação mais forte entre posse de smartphone e sono prejudicado entre meninas. Do ponto de vista clínico, os resultados apoiam uma avaliação mais individualizada da prontidão da criança ou adolescente antes da aquisição do aparelho. Os autores citam, nesse contexto, o PhoneReady Questionnaire, desenvolvido pela American Academy of Pediatrics. Entretanto, o estudo possui uma limitação fundamental: é observacional e não estabelece causalidade. Também não avaliou detalhadamente o que os adolescentes faziam nos smartphones, incluindo aplicativos utilizados, conteúdos acessados, duração e padrões específicos de utilização. Os próprios autores ressaltam que seus achados não constituem uma recomendação para proibir smartphones para adolescentes, mas justificam pesquisas adicionais e maior supervisão durante essa transição. Conclusão A posse de smartphone no início da adolescência esteve associada a maiores taxas de depressão, obesidade e sono insuficiente. Além disso, adquirir o aparelho em idade mais precoce esteve associado a maior ocorrência de obesidade e sono insuficiente, enquanto a aquisição recente entre 12 e 13 anos esteve associada a maior chance de psicopatologia clinicamente significativa e sono insuficiente. Os resultados sugerem que a decisão sobre quando oferecer

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