Gráficos básicos da ventilação mecânica na UTI Neonatal: uma visão prática

Fonte: American Academy of Pediatrics

Gráficos básicos da ventilação mecânica na UTI Neonatal: uma visão prática Sobre o artigo  A ventilação mecânica permanece um componente fundamental da assistência intensiva neonatal, especialmente em recém-nascidos prematuros com síndrome do desconforto respiratório. Embora gasometria, radiografia, oximetria e monitorização de dióxido de carbono forneçam informações importantes, os gráficos disponíveis nos ventiladores modernos oferecem uma avaliação contínua e não invasiva da mecânica respiratória. As curvas de pressão, fluxo e volume, juntamente com as alças pressão-volume e fluxo-volume, permitem avaliar complacência pulmonar, resistência das vias aéreas e interação paciente-ventilador. Além disso, determinados padrões gráficos podem auxiliar na identificação de secreções, escape de ar ao redor do tubo endotraqueal, hiperinsuflação, aprisionamento aéreo e autociclagem. O objetivo da revisão é fornecer ao profissional da UTI neonatal uma abordagem prática para interpretar esses gráficos e utilizá-los na individualização do suporte ventilatório e na identificação precoce de alterações respiratórias. Métodos utilizados Trata-se de uma revisão narrativa com finalidade educacional e prática, e não de um estudo clínico experimental ou observacional. Os autores apresentam os princípios dos modos convencionais de ventilação mecânica, os métodos empregados pelos ventiladores para mensuração do fluxo respiratório e, principalmente, a interpretação das curvas e alças pulmonares em tempo real. São abordados dois métodos de mensuração: Pneumotacômetro: detecta o fluxo por diferenças de pressão através de uma resistência. É altamente sensível a pequenas alterações de fluxo, porém pode sofrer interferência de umidade e secreções. Anemômetro de fio quente: utiliza um fio aquecido e detecta as alterações de temperatura produzidas pelo fluxo. É menos afetado por umidade e secreções, porém apresenta menor sensibilidade para pequenas mudanças de fluxo. A revisão correlaciona padrões gráficos com situações clínicas relevantes da ventilação neonatal. Resultados Curvas de pressão, fluxo e volume As curvas do ventilador representam pressão, fluxo ou volume no eixo vertical em relação ao tempo no eixo horizontal. Curva de pressão Permite identificar a pressão inspiratória de pico (PIP) e a pressão positiva ao final da expiração (PEEP). A partir desses valores pode-se calcular a pressão de distensão: ΔP = PIP − PEEP Curva de fluxo Representa o fluxo inspiratório e expiratório ao longo do tempo. Valores acima da linha de base correspondem à inspiração e valores abaixo, à expiração. Os autores descrevem diferentes padrões, incluindo fluxo quadrado, desacelerado/descendente e sinusoidal. O formato varia conforme o modo ventilatório empregado. A curva de fluxo também é particularmente útil para avaliar o término da expiração e reconhecer situações em que o fluxo expiratório não retorna à linha de base antes do próximo ciclo. Curva de volume Representa o volume corrente (Vt) ao longo do tempo. Diferenças entre volume inspiratório e expiratório podem indicar escape aéreo. Na presença de escape ao redor do tubo endotraqueal, o volume inspiratório será maior que o expiratório. Alça pressão-volume Relaciona pressão e volume durante cada ciclo respiratório. Em condições habituais apresenta formato ovalado. Sua principal aplicação é a avaliação da complacência pulmonar, expressa como: Complacência = ΔV / ΔP Redução da complacência pode ocorrer em condições como síndrome do desconforto respiratório, distúrbios do surfactante, pneumonia e edema pulmonar. Após administração de surfactante, a melhora da complacência pode ser visualizada pela mudança da inclinação da alça pressão-volume. Clinicamente, essa melhora significa que menores pressões podem ser necessárias para produzir volumes semelhantes, sinalizando a necessidade de reavaliar os parâmetros ventilatórios. Alça fluxo-volume Relaciona fluxo e volume durante o ciclo respiratório. Idealmente, os componentes inspiratório e expiratório são aproximadamente imagens espelhadas. Quando a alça não se fecha, devem ser considerados principalmente escape aéreo ou aprisionamento de ar. Secreções Secreções podem produzir turbulência e gerar um padrão irregular ou "ruidoso" nas curvas de fluxo e nas alças fluxo-volume. Essas irregularidades podem desaparecer após aspiração. Diante desse padrão, o artigo recomenda avaliar o paciente e investigar secreções, condensação ou outras formas de obstrução, incluindo sensor, tubo endotraqueal e circuito. Uma aplicação clínica relevante proposta pelos autores é utilizar o padrão gráfico para auxiliar na indicação de aspiração conforme necessidade, em vez de realizar o procedimento exclusivamente em horários predeterminados. Escape de ar pelo tubo endotraqueal O escape ao redor do tubo é frequente em neonatos devido ao uso habitual de tubos endotraqueais sem cuff. Na curva de volume, o volume expiratório torna-se inferior ao inspiratório e a curva pode não retornar à linha de base antes do próximo ciclo. Na presença de escape, o volume corrente expiratório representa melhor o volume efetivamente entregue ao pulmão. Quando o escape é importante, as medidas podem se tornar imprecisas. Ajustes na posição da cabeça e do tubo podem reduzir o problema; em determinadas situações, pode ser necessária reintubação com tubo de maior diâmetro quando o escape compromete o suporte respiratório. As alças pressão-volume e fluxo-volume também não se fecham completamente na presença de escape significativo. Hiperinsuflação pulmonar Pressões e volumes elevados podem produzir sobredistensão alveolar e contribuir para barotrauma e volutrauma. Na alça pressão-volume, o achado característico é o achatamento da região superior direita, produzindo o padrão denominado “beaking”. Os autores descrevem ainda a relação C20/C, calculada dividindo-se a complacência dos últimos 20% do volume corrente pela complacência global. Valores inferiores a 0,8 sugerem sobredistensão. Segundo a revisão, essa situação pode ser corrigida pela redução da PEEP ou PIP. Aprisionamento aéreo O aprisionamento aéreo pode ocorrer quando o tempo expiratório é insuficiente para permitir o esvaziamento pulmonar antes do ciclo seguinte. Na curva de fluxo, o achado fundamental é: fluxo expiratório que não retorna à linha de base antes do início da próxima inspiração. O fenômeno pode resultar em sobredistensão alveolar, ruptura alveolar e escape aéreo. As intervenções descritas dependem do mecanismo e incluem redução de um tempo inspiratório inadequadamente prolongado, mudança para ciclagem a fluxo, redução da frequência respiratória em determinados pacientes com displasia broncopulmonar ou aumento da PEEP quando existe broncomalácia associada à limitação do fluxo expiratório. Autociclagem Nos modos disparados por fluxo, o ventilador inicia uma nova respiração ao detectar uma mudança de fluxo acima do limiar programado. Normalmente isso representa esforço respiratório do paciente. Entretanto, escape aéreo significativo ou condensação no circuito podem gerar falsos

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