Variação na avaliação e no manejo de lactentes febris de 61 a 90 dias de vida Sobre o artigo Lactentes febris com até 90 dias constituem uma população relevante nos serviços de emergência. Segundo os autores, aproximadamente 200 mil lactentes febris ≤90 dias são avaliados anualmente em departamentos de emergência dos Estados Unidos, sendo quase 100 mil pertencentes à faixa de 61 a 90 dias. Embora a diretriz de prática clínica da American Academy of Pediatrics (AAP), publicada em 2021, forneça recomendações para avaliação e manejo de lactentes febris entre 8 e 60 dias, os lactentes de 61 a 90 dias não foram incluídos, devido à insuficiência de evidências para estabelecer recomendações específicas. Essa lacuna é clinicamente importante porque o risco de infecção do trato urinário (ITU) permanece relevante nessa faixa etária e o risco de infecção bacteriana invasiva (IBI) — definida como bacteremia ou meningite bacteriana — não é desprezível. Na ausência de uma diretriz nacional baseada em evidências, a extensão da investigação laboratorial, o uso de antibióticos e a decisão de hospitalizar ficam mais dependentes da prática de cada instituição e de cada equipe. O objetivo do estudo foi, portanto, descrever as tendências temporais e a variação entre hospitais na investigação, tratamento e destino de lactentes febris de 61 a 90 dias atendidos em departamentos de emergência norte-americanos, além de avaliar os desfechos infecciosos observados. Métodos utilizados Foi realizado um estudo de coorte retrospectivo, utilizando dados do Pediatric Emergency Care Applied Research Network (PECARN) Registry, registro multicêntrico derivado de prontuários eletrônicos. Foram incluídos lactentes de 61 a 90 dias, previamente saudáveis e sem doença crítica, que apresentaram temperatura ≥38 °C no departamento de emergência ou febre ≥38 °C documentada antes da consulta. Foram excluídos, entre outros, lactentes em uso domiciliar de antibióticos, com infecção de pele ou tecidos moles, prematuridade ≤32 semanas, condições clínicas ou cirúrgicas significativas e doença crítica. O estudo realizou duas análises principais: Análise de tendências: 9.041 lactentes atendidos em 12 departamentos de emergência entre 2017 e 2023. Análise de variação entre hospitais: 4.448 lactentes atendidos em 17 departamentos de emergência entre 2022 e 2023. Os principais desfechos avaliados foram realização de exame de urina, hemocultura, cultura do líquido cefalorraquidiano (LCR), procalcitonina (PCT), testes para vírus respiratórios, administração de antibióticos parenterais e hospitalização. A ITU foi definida pela associação entre urinálise positiva e crescimento ≥10.000 unidades formadoras de colônia de um uropatógeno em cultura obtida por cateterismo ou punção suprapúbica. A IBI foi definida como bacteremia ou meningite bacteriana. As infecções foram consideradas quando identificadas em culturas obtidas na consulta inicial ou em nova consulta dentro do mesmo episódio de doença de sete dias. As variáveis categóricas foram apresentadas como números e porcentagens e as contínuas como mediana e intervalo interquartil. As tendências temporais foram avaliadas pelo teste de Cochran-Armitage, considerando significância estatística quando P < 0,05. Resultados Na análise de tendências, foram incluídos 9.041 lactentes. Na análise contemporânea de variação entre hospitais, foram avaliados 4.448 lactentes. Entre 2017 e 2023 ocorreu redução significativa de várias intervenções: Investigação urinária: 53,8% → 45,7% (P < 0,01) Hemocultura: 35,0% → 18,9% (P < 0,01) Investigação do LCR: 3,8% → 1,1% (P < 0,01) Hospitalização: 22,6% → 16,9% (P < 0,01) Antibiótico parenteral: 10,2% → 5,8% (P < 0,01) Em sentido contrário, aumentaram: Testes para vírus respiratórios: 13,4% → 63,3% (P < 0,01) Uso de procalcitonina: 1,6% → 14,2% (P < 0,01) A prevalência de ITU permaneceu relativamente estável, passando de 4,9% para 4,4% (P = 0,24). A prevalência de IBI apresentou pequena redução, de 1,1% para 0,5% (P = 0,04). Na análise de 2022-2023, verificou-se grande variação entre os hospitais: Investigação urinária: mediana de 46,3%, variando de 32,2% a 73,9%. Hemocultura: mediana de 21,1%, variando de 8,0% a 51,1%. Investigação do LCR: mediana de 1,2%, variando de 0% a 2,9%. Teste viral respiratório: mediana de 71,8%, variando de 34,7% a 95,5%. Procalcitonina: mediana de 13,4%, variando de 0% a 37,0%. Hospitalização: mediana de 16,2%, variando de 7,9% a 26,1%. Apesar dessa ampla heterogeneidade de condutas, a ocorrência de infecções bacterianas invasivas foi baixa e relativamente semelhante entre instituições: mediana de 0,3%, com variação de 0% a 1,2%. Na população de 4.448 lactentes avaliada em 2022-2023, 17,4% foram hospitalizados, 5,9% receberam antibióticos IV/IM, 3,9% apresentaram ITU e 0,4% bacteremia. Nenhum caso de meningite bacteriana foi identificado nesse período. Discussão O estudo demonstra uma mudança importante na abordagem do lactente febril de 61 a 90 dias ao longo de sete anos. Houve progressiva redução da investigação de infecções bacterianas, do uso de antibióticos parenterais e das hospitalizações. Ao mesmo tempo, aumentou substancialmente a realização de testes para vírus respiratórios. Os autores consideram que resultados rápidos para vírus como vírus sincicial respiratório, influenza e SARS-CoV-2 podem ter sido utilizados pelos médicos para auxiliar decisões sobre investigação invasiva, tratamento e hospitalização. Outro fenômeno importante foi o crescimento do uso da procalcitonina, biomarcador com desempenho superior a outros exames laboratoriais para identificação de IBI em lactentes febris. Os autores relacionam essa tendência, ao menos parcialmente, à disseminação das estratégias de estratificação de risco desenvolvidas para lactentes ≤60 dias. Apesar dessas mudanças temporais, permanece uma expressiva variação entre hospitais, especialmente na solicitação de exame de urina, hemocultura, testes virais e PCT. Um achado particularmente relevante é a relação entre hospitalização e ocorrência de IBI. Em 2022-2023, aproximadamente 17% dos lactentes foram hospitalizados, enquanto apenas 0,4% apresentaram IBI. Os autores interpretam essa diferença como uma oportunidade para implementação de estratégias baseadas em evidências que possam reduzir hospitalizações potencialmente desnecessárias. Entretanto, o próprio estudo ressalta que nem toda hospitalização ocorreu necessariamente por preocupação com IBI. Doenças respiratórias virais ou ingestão oral inadequada também podem ter contribuído, especialmente porque apenas cerca de 6% receberam antibiótico parenteral. Os autores destacam ainda que uma regra de predição recentemente desenvolvida para lactentes febris de 61 a 90 dias, incorporando PCT e contagem absoluta de neutrófilos, apresentou sensibilidade de 100% e especificidade de 65,8% para IBI em derivação e validação interna. Contudo, ressaltam que validação externa ainda é necessária
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