Eficácia do Nirsevimabe em consultas de atenção primária para otite média aguda associada ao vírus sincicial respiratório em lactentes.

Fonte: The Journal of Pediatrics

Eficácia do Nirsevimabe em consultas de atenção primária para otite média aguda associada ao vírus sincicial respiratório em lactentes. Sobre o artigo  A otite média aguda (OMA) é particularmente frequente nos primeiros anos de vida e possui etiologia complexa, envolvendo tanto vírus respiratórios quanto bactérias da flora nasofaríngea. Entre os vírus, o vírus sincicial respiratório (VSR) é frequentemente identificado na nasofaringe e no líquido da orelha média durante episódios de OMA. Além de uma possível participação direta, o VSR pode atuar como fator desencadeante de infecções por Streptococcus pneumoniae. A França iniciou, em setembro de 2023, o uso universal do nirsevimabe, anticorpo monoclonal de longa duração contra o VSR, para lactentes no primeiro ano de vida. Sua efetividade na prevenção de bronquiolite por VSR já havia sido demonstrada em diferentes cenários assistenciais. Também haviam sido observadas redução de prescrições de antibióticos e diminuição dos diagnósticos de OMA após a introdução da profilaxia contra o VSR. Entretanto, havia poucos dados específicos sobre a capacidade do nirsevimabe de prevenir episódios de OMA associados ao VSR. O objetivo deste estudo foi, portanto, estimar a efetividade do nirsevimabe contra OMA associada ao VSR (VSR-OMA) em lactentes atendidos ambulatorialmente na França durante as duas primeiras temporadas após sua implementação. Métodos utilizados Foi realizada uma análise post hoc com desenho test-negative, utilizando dados do estudo prospectivo e multicêntrico Oursyn, conduzido por 37 pediatras da atenção primária distribuídos pela França. Para esta análise, foram considerados lactentes com menos de 12 meses diagnosticados com OMA durante as duas primeiras temporadas de implementação do nirsevimabe: de 5 de outubro de 2023 a 29 de fevereiro de 2024 e de 15 de outubro de 2024 a 31 de janeiro de 2025. A OMA foi definida segundo os critérios de Paradise, incluindo alterações específicas da membrana timpânica ou presença de otorreia. Os pediatras participantes receberam treinamento específico para seu diagnóstico. Todos os lactentes realizaram teste antigênico em amostra nasofaríngea para VSR no momento do diagnóstico. Os casos foram definidos como pacientes com OMA VSR-positiva, enquanto os controles apresentavam OMA VSR-negativa. A exposição de interesse foi a imunização passiva com nirsevimabe. Na análise principal, o lactente foi considerado imunizado quando o medicamento havia sido administrado mais de sete dias antes da consulta por OMA. Foram coletadas informações sobre idade, sexo, modalidade de cuidado infantil, prematuridade, doenças crônicas, imunização com nirsevimabe, presença concomitante de bronquiolite e resultado do teste para VSR. A análise principal utilizou regressão logística multivariável, com ajuste para idade, sexo, doença crônica, prematuridade, tipo de cuidado infantil, mês, ano e região geográfica. A efetividade foi calculada pela fórmula 100 × (1 − OR ajustado). Foram realizadas análises de sensibilidade, incluindo a classificação como imunizados dos pacientes que haviam recebido nirsevimabe menos de sete dias antes do diagnóstico e um modelo misto com efeito aleatório para região. Também foi analisado separadamente o subgrupo de OMA associada à bronquiolite. O cálculo amostral indicou necessidade de 206 crianças para detectar redução de 50% na chance de VSR-OMA, considerando poder de 90% e alfa bilateral de 0,05. Resultados Foram incluídos 236 episódios de OMA: 141 na temporada 2023-2024 e 95 na temporada 2024-2025. O VSR foi detectado em 56 dos 236 casos (23,7%). Na primeira temporada, 41 de 141 crianças com OMA (29,1%) apresentaram VSR positivo, comparadas a 15 de 95 (15,8%) na segunda temporada. A idade mediana foi de 9 meses na primeira temporada e 8 meses na segunda. Do total de pacientes, 112 (47,4%) apresentavam OMA associada à bronquiolite. A proporção de lactentes imunizados com nirsevimabe aumentou de 29,1% na primeira temporada para 64,2% na segunda, totalizando 102 dos 236 participantes (43,2%). Entre os 56 casos VSR-positivos, apenas 7 (12,5%) haviam recebido nirsevimabe. Entre os 180 controles VSR-negativos, 95 (52,7%) haviam sido imunizados. Após ajuste multivariável, a efetividade estimada do nirsevimabe para prevenção de VSR-OMA foi de: 78,2% (IC 95%: 44,4%-92,4%) O OR ajustado correspondente foi de 0,22 (IC 95%: 0,07-0,55). No subgrupo de OMA associada à bronquiolite, 7 de 47 casos VSR-positivos (14,8%) haviam recebido nirsevimabe, comparados a 36 de 65 controles (55,3%). A efetividade ajustada nesse grupo foi de: 72,9% (IC 95%: 5,3%-93,0%) As análises de sensibilidade foram consistentes com o resultado principal. Considerando como imunizados também os lactentes que receberam nirsevimabe menos de sete dias antes do diagnóstico, a efetividade foi de 81,4% (IC 95%: 48,8%-96,7%). No modelo misto com efeito aleatório por região, foi de 84,8% (IC 95%: 63,4%-93,6%). Discussão Os resultados sugerem que o benefício do nirsevimabe pode se estender além da prevenção das manifestações do trato respiratório inferior pelo VSR. A detecção do VSR em aproximadamente um quarto dos episódios de OMA estudados reforça sua participação relevante na ocorrência dessa complicação em lactentes. Segundo os autores, os resultados também ajudam a compreender observações anteriores de menor utilização de antibióticos entre crianças que receberam nirsevimabe, uma vez que a OMA constitui importante motivo de prescrição de antimicrobianos nessa faixa etária. O estudo apresenta limitações importantes. Por ser observacional, não permite excluir completamente confundimento residual nem estabelecer causalidade. Além disso, trata-se de uma análise post hoc do estudo Oursyn, cuja inclusão original de pacientes não havia sido otimizada especificamente para esse desenho. Outra limitação foi a utilização de testes rápidos de antígeno para VSR, descritos pelos autores como tendo excelente especificidade, porém sensibilidade inferior. Uma eventual classificação incorreta de casos VSR-positivos como controles tenderia, segundo os autores, a reduzir a efetividade observada. O diagnóstico clínico da OMA também pode ser desafiador. Como fatores mitigadores, os pediatras da rede possuíam treinamento específico e foram utilizadas definições diagnósticas padronizadas. Por fim, não foi realizada paracentese, portanto a identificação do VSR ocorreu por amostras nasofaríngeas, e não diretamente no líquido da orelha média. Dessa forma, o estudo não estabelece se o VSR atuou como agente primário ou como desencadeante do episódio de OMA. Conclusão Neste estudo realizado em condições de prática clínica ambulatorial na França, a imunização passiva com nirsevimabe apresentou efetividade ajustada de 78,2% na prevenção de OMA associada ao VSR em lactentes menores de 1 ano. Os achados

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