Contextos de uso de telas na primeira infância e seus resultados cognitivos e psicossociais: uma revisão sistemática e meta-análise.

Contextos de uso de telas na primeira infância e seus resultados cognitivos e psicossociais: uma revisão sistemática e meta-análise. Sobre o artigo  O uso de telas e mídias sociais tornou-se parte frequente da rotina de crianças pequenas, enquanto grande parte das pesquisas e recomendações tradicionais concentra-se principalmente no tempo total de tela. Os autores argumentam que essa medida isolada não contempla aspectos potencialmente relevantes, como tipo de mídia, conteúdo consumido, presença dos pais durante o uso, televisão ligada ao fundo, uso de dispositivos pelos cuidadores durante interações com a criança e finalidade do uso da tela. O estudo teve como objetivo realizar uma revisão sistemática e metanálise das associações entre diferentes contextos de uso de telas em crianças menores de 6 anos e desfechos do desenvolvimento cognitivo e psicossocial. Os desfechos cognitivos considerados incluíram linguagem, funções executivas e habilidades acadêmicas. Os psicossociais abrangeram problemas comportamentais internalizantes e externalizantes, comportamento pró-social e competência socioemocional. A proposta central foi, portanto, ir além da pergunta “quanto tempo de tela?” e avaliar também como, o que e com quem a criança utiliza as telas. Métodos utilizados Foi realizada uma revisão sistemática seguindo as recomendações PRISMA, com protocolo registrado no PROSPERO (CRD42022352082). Foram pesquisadas, desde o início de cada base até 31 de dezembro de 2023, as bases PsycINFO, Embase, MEDLINE Ovid, ProQuest, CINAHL, Web of Science e Scopus. Foram elegíveis estudos envolvendo crianças com desenvolvimento típico, avaliadas desde o nascimento até 5,99 anos, que investigassem fatores contextuais relacionados ao uso habitual de telas e sua associação com desenvolvimento cognitivo ou psicossocial. Foram incluídos estudos transversais, longitudinais, experimentais e ensaios clínicos randomizados. Os contextos avaliados incluíram: conteúdo dirigido à criança e conteúdo inadequado para a idade; visualização de programas; jogos e aplicativos; uso compartilhado da tela (co-use/coviewing); uso solitário ou não supervisionado; televisão ligada ao fundo; uso de telas pelos cuidadores durante rotinas ou interações com a criança; utilização de dispositivos para acalmar a criança. A triagem dos estudos foi realizada de forma independente por dois revisores. A extração dos dados foi realizada por um pesquisador e verificada por outro. Os estudos observacionais elegíveis foram combinados por meio de metanálises de três níveis com modelo de efeitos aleatórios, utilizando o coeficiente de correlação de Pearson (r) como medida de efeito. Estudos experimentais e outros desenhos não elegíveis para metanálise foram sintetizados narrativamente. A busca identificou 7.441 registros para triagem, resultando em 100 estudos, com um total de 176.742 participantes. Destes, 64 estudos observacionais foram incluídos nas metanálises. Resultados Os resultados mostraram que diferentes contextos de exposição às telas apresentaram associações distintas com o desenvolvimento infantil. Visualização de programas Maior exposição à visualização de televisão, vídeos, DVDs ou filmes esteve associada a piores desfechos cognitivos: r = −0,16; IC 95% −0,24 a −0,08. Também houve associação negativa, embora de menor magnitude, com desfechos psicossociais: r = −0,04; IC 95% −0,07 a −0,01. Para os desfechos cognitivos, o desenho do estudo foi um moderador significativo: estudos transversais apresentaram associações negativas mais pronunciadas que estudos longitudinais. Conteúdo inadequado para a idade Maior exposição a conteúdo considerado inadequado para a idade — incluindo conteúdo violento, de ação ou destinado a público mais maduro — esteve associada a piores desfechos psicossociais: r = −0,11; IC 95% −0,17 a −0,04. Os ensaios clínicos randomizados incluídos na revisão também forneceram evidências favoráveis ao uso de conteúdos educativos e pró-sociais, incluindo melhora de alfabetização e competência socioemocional. Uso compartilhado da tela O co-use, caracterizado pelo uso da mídia na presença ou com participação de outra pessoa, como pais ou irmãos, apresentou associação positiva com os desfechos cognitivos: r = 0,14; IC 95% 0,03 a 0,25. Esse resultado sugere que o contexto social no qual a mídia é utilizada pode ser relevante para a aprendizagem infantil. Televisão ligada ao fundo A exposição à televisão ligada enquanto a criança realizava outras atividades esteve associada a piores desfechos cognitivos: r = −0,10; IC 95% −0,18 a −0,02. Um estudo experimental incluído na revisão mostrou ainda menos episódios de atenção focada entre lactentes quando a televisão permanecia ligada ao fundo. Uso de telas pelos cuidadores O uso de dispositivos pelos cuidadores durante interações com a criança ou rotinas como brincadeiras e refeições esteve associado a piores desfechos psicossociais: r = −0,11; IC 95% −0,20 a −0,03. Experimentos sobre interrupções tecnológicas das interações entre pais e filhos também apresentaram predominantemente resultados negativos nos desfechos avaliados. Jogos e aplicativos Não foi identificada associação estatisticamente significativa entre uso de jogos/aplicativos e os desfechos globais: Cognitivos: r = −0,01; IC 95% −0,12 a 0,11. Psicossociais: r = −0,01; IC 95% −0,04 a 0,02. Uso de telas para acalmar a criança A utilização da tela como ferramenta para acalmar ou regular o desconforto infantil também não apresentou associação estatisticamente significativa no conjunto de estudos incluídos: r = −0,07; IC 95% −0,18 a 0,05. Os autores ressaltam que, de maneira geral, as associações identificadas apresentaram magnitudes pequenas, variando aproximadamente entre 0,03 e 0,16. Discussão Os resultados reforçam que a avaliação pediátrica do uso de telas não deve considerar exclusivamente a quantidade de tempo de exposição. O contexto em que a tela é utilizada também apresenta associações relevantes com o desenvolvimento infantil. Três achados principais foram destacados pelos autores. Primeiro, maior visualização de programas esteve associada a piores resultados cognitivos e psicossociais, enquanto conteúdos inadequados para a idade estiveram relacionados a piores desfechos psicossociais. Segundo, a exposição ambiental e familiar às telas também se mostrou relevante. A televisão ligada ao fundo esteve associada a piores resultados cognitivos, enquanto o uso de dispositivos pelos cuidadores durante interações e rotinas infantis esteve associado a piores resultados psicossociais. Os autores discutem que a televisão ao fundo pode competir pela atenção da criança e interferir nas interações entre pais e filhos. Da mesma forma, interrupções tecnológicas durante as interações familiares podem reduzir a qualidade das trocas entre cuidadores e crianças. Terceiro, o uso compartilhado da mídia apresentou associação positiva com resultados cognitivos. A interação com o cuidador durante a exposição pode criar oportunidades de aprendizagem por meio

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