Faringite por Estreptococo do Grupo A: Atualização da Diretriz da IDSA sobre Escores Clínicos A nova recomendação da Infectious Diseases Society of America (IDSA) para a faringite por estreptococo do grupo A (Streptococcus pyogenes ou GAS) sugere o uso de escores clínicos padronizados para estratificar o risco e definir quem precisa de investigação laboratorial. Em crianças, a sensibilidade dos escores clínicos variou de 0,83 a 0,97 em comparação ao julgamento clínico isolado (0,71 a 0,87), apresentando especificidade comparável de 0,60 a 0,72 versus 0,60 a 0,92. A recomendação é condicional e amparada por certeza de evidência muito baixa. Pontos-chave: A IDSA sugere a aplicação de sistemas de pontuação clínica para definir a indicação de testes em crianças e adultos com dor de garganta (recomendação condicional, certeza muito baixa de evidência). A principal função dos escores consiste em identificar pacientes com baixa probabilidade de infecção (escore Centor de 0 a 1 com risco de 7% a 12%; McIsaac de 0 a 1 com risco de 7,6% a 13,1%) para evitar testagem desnecessária. A recomendação de aplicar escores clínicos não contempla crianças com menos de 3 anos de idade, pois as manifestações clássicas da doença costumam ser atípicas nessa faixa etária. Indivíduos de alto risco, como contatos domiciliares de casos confirmados de GAS ou com história de febre reumática, devem ser testados mesmo diante de pontuações clínicas baixas. Até 26% das crianças em idade escolar apresentam colonização por GAS e são portadoras assintomáticas, cenário no qual o teste positivo não reflete faringite aguda estreptocócica ativa. Sobre o artigo Título original: 2025 Clinical Practice Guideline Update by the Infectious Diseases Society of America on Group A Streptococcal Pharyngitis: Risk Assessment Using Clinical Scoring Systems in Children and Adults Autores: Jeffrey A. Linder, Michael E. Watson, Michael R. Wessels et al. Revista: Clinical Infectious Diseases, 2026; 82(9):i97-i104 Tipo de estudo: Diretriz de prática clínica baseada em revisão sistemática (metodologia GRADE) DOI: 10.1093/cid/ciaf668 Objetivo Avaliar se sistemas de pontuação clínica devem ser empregados na avaliação de crianças e adultos com queixa de dor de garganta para definir a necessidade de realização de testes diagnósticos laboratoriais para faringite por estreptococo do grupo A. Métodos O painel da IDSA elaborou uma recomendação baseada em revisão sistemática da literatura sem data inicial e atualizada até março de 2025. Utilizou-se a abordagem Grading of Recommendations, Assessment, Development, and Evaluation (GRADE) para classificar a certeza das evidências e a força das recomendações. Foram selecionados estudos randomizados e não randomizados em língua inglesa que compararam o uso de escores clínicos ao julgamento médico isolado em pacientes com dor de garganta, tendo a cultura de orofaringe ou teste rápido de detecção antigênica (RADT) como padrão de referência. Seis estudos observacionais preencheram os critérios de inclusão, totalizando dados pediátricos, adultos e combinados nos Estados Unidos, Japão e Canadá. O painel avaliou os escores descritos por Breese, Centor, Fujikawa, McIsaac e Attia. Principais resultados: o que o estudo mostrou sobre faringite por estreptococo do grupo A A evidência sintetizada demonstrou acurácia diagnóstica comparável ou discretamente superior dos escores em relação à avaliação clínica não padronizada: População pediátrica (3 estudos; n = 1.309): os escores (Breese, McIsaac, Attia) apresentaram sensibilidade entre 0,83 e 0,97, superior ao julgamento clínico sem escore (0,71 a 0,87). A especificidade variou de 0,60 a 0,72 com escore e de 0,60 a 0,92 sem escore. Em estudo pediátrico isolado (n = 892), a taxa de diagnóstico correto foi de 70% com escore de Breese versus 69% sem escore, valor preditivo positivo (VPP) de 40% versus 44%, valor preditivo negativo (VPN) de 80% versus 75% e falso-positivo de 20% versus 25%. Em outro estudo pediátrico (n = 271), o diagnóstico tentativo com escore de Fujikawa variou de 54% a 93% versus 53,5% no grupo sem escore. População adulta (n = 423): o escore de McIsaac demonstrou sensibilidade de 0,70 (IC 95%, 0,51 a 0,84) versus 0,68 (IC 95%, 0,51 a 0,82) sem escore, e especificidade de 0,98 (IC 95%, 0,97 a 0,99) versus 0,97 (IC 95%, 0,95 a 0,99). No modelo preditivo original de Centor em adultos (n = 286), a probabilidade de cultura positiva aumentou conforme o número de critérios: 2,5% com zero critérios, 6,5% com 1 critério, 15% com 2 critérios, 32% com 3 critérios e 55,7% com 4 critérios; a estimativa de residentes em treinamento teve VPP de 36%. População combinada de adultos e crianças (n = 517): o escore de McIsaac apresentou sensibilidade de 0,83 (IC 95%, 0,72 a 0,91) versus 0,69 (IC 95%, 0,57 a 0,80) do julgamento isolado, com especificidade de 0,94 (IC 95%, 0,92 a 0,96) versus 0,97 (IC 95%, 0,95 a 0,98). Estratificação por pontuação (dados de validação ampla): a taxa de positividade com escore 0 foi de 8% (IC 95%, 8 a 9) em dados de farmácias e clínicas (n = 23.229) e de 1% a 3% nos estudos originais; nos pacientes com escore 4, a taxa de positividade atingiu 51% a 55%. Conclusão dos autores Em crianças e adultos com dor de garganta, o painel da IDSA sugere a utilização de um sistema de pontuação clínica para determinar quem deve ser testado para estreptococo do grupo A (recomendação condicional, certeza de evidência muito baixa). A principal utilidade do escore clínico é identificar indivíduos com baixa probabilidade de infecção, nos quais testes adicionais não trazem benefício e podem gerar falso-positivos ou expor portadores assintomáticos a tratamentos antibióticos desnecessários. Centor e McIsaac são opções aceitas e validadas por não dependerem de testes laboratoriais na estratificação. O que muda na prática O médico deve interromper a triagem indiscriminada de testes microbiológicos para qualquer paciente com queixa de faringite. A aplicação de ferramentas como Centor ou McIsaac permite filtrar os casos de baixo risco (pontuação 0 ou 1), dispensando exames rápidos ou cultura sem comprometer a segurança terapêutica. Diante de apresentações com suspeita de complicações (como abscesso periamigdaliano ou febre escarlatina), história de febre reumática ou contato com caso confirmado na residência, a coleta de exame laboratorial permanece mandatória independentemente do valor do escore. Limitações
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