Cuidado oral com leite humano em recém-nascidos com cardiopatia congênita crítica e sua associação com aleitamento materno

Fonte: Journal of Perinatology

Cuidado oral com leite humano em recém-nascidos com cardiopatia congênita crítica e sua associação com aleitamento materno Sobre o artigo  O cuidado oral com leite humano (oral care with human milk – OHM) é uma intervenção utilizada em unidades neonatais para recém-nascidos que não conseguem se alimentar por via oral. Em sua forma mais estruturada, denominada imunoterapia oral, pequenas quantidades de leite humano materno, como aproximadamente 0,2 mL, são aplicadas na mucosa oral por seringa ou swab, geralmente a cada 3–6 horas. A prática busca proporcionar exposição precoce ao colostro e aos seus componentes bioativos, relacionados à transferência de imunidade passiva, proteção contra patógenos e colonização saudável do microbioma intestinal. Estudos prévios, principalmente em prematuros e recém-nascidos de baixo peso, relacionaram essa intervenção a diferentes benefícios clínicos. Apesar de o OHM também ser recomendado como estratégia de apoio à lactação e à transição para o aleitamento materno direto, existem poucos dados específicos sobre recém-nascidos com cardiopatia congênita crítica (CCHD). Nessa população, períodos prolongados de jejum, ventilação mecânica, cirurgia cardíaca e restrições alimentares podem limitar a exposição oral precoce ao leite humano. O estudo teve dois objetivos principais: descrever a prevalência e os padrões de utilização do cuidado oral com leite humano em lactentes submetidos à cirurgia cardíaca neonatal durante um período de 10 anos e avaliar a associação entre a frequência de OHM nos primeiros sete dias de vida e os desfechos relacionados ao consumo de leite humano e ao aleitamento materno na alta hospitalar. Métodos utilizados Foi realizada uma coorte retrospectiva, em um único centro, incluindo lactentes com cardiopatia congênita crítica submetidos à cirurgia cardíaca com circulação extracorpórea até 30 dias de vida, entre 2014 e 2023, no Children’s Minnesota. Foram incluídos recém-nascidos com idade gestacional igual ou superior a 36 semanas, admitidos até o primeiro dia de vida. Foram excluídos pacientes que receberam alta antes da cirurgia neonatal, aqueles com idade superior a seis meses no momento da alta, pacientes que recusaram participação em pesquisa por meio do prontuário eletrônico e, para as análises dos desfechos na alta, aqueles que morreram durante a hospitalização. A principal exposição foi a frequência de OHM nos primeiros sete dias de vida, dividida em quartis: Q1: 0–1 dose; Q2: 2–6 doses; Q3: 7–13 doses; Q4: ≥14 doses. Os principais desfechos foram o volume de leite humano consumido na alta, em mL/kg/dia, e a ocorrência de qualquer aleitamento materno direto na semana anterior à alta hospitalar. Foram utilizados modelos de regressão linear e logística, com Q1 como grupo de referência. Os modelos foram ajustados para potenciais fatores de confusão, incluindo tempo de internação cirúrgica neonatal, tipo de seguro e raça. Dependendo do desfecho e do modelo, também foram considerados aleitamento materno direto nos primeiros sete dias, idade na cirurgia e disfunção de cordas vocais. Como o volume ingerido diretamente ao seio geralmente não estava disponível, cada sessão de aleitamento materno foi estimada em 35 mL, valor próximo à média das mamadas mensuradas na população estudada. Foi também realizada análise de sensibilidade excluindo esses volumes estimados. Resultados A amostra foi composta por 297 lactentes. Destes, 37,4% eram do sexo feminino, 37,0% apresentavam fisiologia univentricular e 11,1% tinham uma síndrome genética maior. Durante toda a hospitalização, 93,3% dos pacientes receberam pelo menos uma dose de OHM. Entretanto, o leite humano correspondeu a apenas 25,5% de todas as ocorrências de cuidado oral: 8.285 de 32.506 administrações. Nos primeiros sete dias de vida, 82,8% receberam pelo menos uma dose de OHM, com mediana de 6 doses, variando entre 0 e 31. A utilização aumentou ao longo do período estudado: a mediana passou de 3 doses por paciente em 2014 para 9 doses em 2023, atingindo 12 doses em 2020. Na alta, o volume médio de leite humano foi progressivamente maior conforme aumentou a frequência precoce de OHM. Na análise ajustada da amostra principal, em comparação com Q1: Q2 apresentou 42,67 mL/kg/dia a mais de leite humano; Q3 apresentou 49,38 mL/kg/dia a mais; Q4 apresentou 57,03 mL/kg/dia a mais; todas essas associações apresentaram p < 0,001. Entre os pacientes que não receberam alimentação enteral pré-operatória, a diferença associada aos quartis superiores de OHM foi ainda maior, variando entre 48,09 e 66,43 mL/kg/dia. A associação também foi observada para aleitamento materno direto na alta. Na amostra principal, em comparação com Q1, as odds ratios foram: Q2: OR 4,77; IC95% 1,79–13,79; Q3: OR 6,63; IC95% 2,50–19,27; Q4: OR 6,03; IC95% 2,04–19,30. Nos pacientes sem alimentação enteral pré-operatória, as chances de aleitamento materno direto foram aproximadamente 9 a 11 vezes maiores nos quartis Q2–Q4 em comparação ao Q1. Os resultados permaneceram consistentes quando a análise foi limitada às famílias com objetivo documentado de oferecer leite humano ou amamentar. A análise de sensibilidade excluindo o volume estimado das mamadas também manteve a associação entre maior frequência de OHM e maior consumo de leite humano. Discussão Os resultados demonstram uma associação consistente entre maior frequência de exposição precoce ao leite humano por meio do cuidado oral e melhores desfechos de lactação na alta hospitalar em recém-nascidos com cardiopatia congênita crítica. Segundo os autores, o aumento aproximado de 20–60 mL/kg/dia de leite humano, dependendo do modelo analisado, pode representar até um terço da ingestão nutricional diária do lactente, constituindo uma quantidade clinicamente relevante que, de outra forma, poderia ser substituída por fórmula comercial. Alguns mecanismos podem explicar essa associação. A necessidade de obtenção precoce do leite para OHM pode estimular expressão mais precoce e frequente do leite materno, favorecendo a manutenção da produção. A participação dos pais na oferta do leite também pode funcionar como estímulo para a continuidade da lactação. Os autores levantam ainda a hipótese de que experiências orais positivas precoces com o leite humano possam favorecer posteriormente a alimentação oral. O conceito de feeding imprinting propõe que as primeiras exposições aos estímulos alimentares podem influenciar comportamentos alimentares posteriores. Nesse contexto, cheiro e sabor do leite humano poderiam ajudar a contrabalançar experiências orais potencialmente aversivas associadas à terapia intensiva. Apesar da associação observada, o estudo não demonstra causalidade. A relação pode

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