Efeito da administração intranasal de leite materno sobre a oxigenação cerebral, sinais vitais e tempo de transição para alimentação oral plena em prematuros: estudo randomizado controlado

Efeito da administração intranasal de leite materno sobre a oxigenação cerebral, sinais vitais e tempo de transição para alimentação oral plena em prematuros: estudo randomizado controlado Sobre o artigo  A administração intranasal vem sendo estudada como uma via não invasiva para a entrega de substâncias ao sistema nervoso central. A elevada vascularização nasal e as conexões através do epitélio olfatório e do nervo trigêmeo podem possibilitar que agentes administrados por essa via alcancem o sistema nervoso central, potencialmente contornando a barreira hematoencefálica. O leite materno contém células-tronco e outros componentes bioativos, o que motivou estudos sobre sua administração intranasal em recém-nascidos prematuros. Até o momento, grande parte dessa literatura concentrou-se em prematuros com hemorragia intraventricular (HIV), incluindo avaliações de viabilidade, segurança e possíveis desfechos neurológicos. Os autores destacam que mesmo procedimentos rotineiros realizados em unidades de terapia intensiva neonatal podem interferir na circulação cerebral e na estabilidade fisiológica. Assim, avaliar os efeitos imediatos da administração intranasal de leite materno sobre a oxigenação cerebral e os sinais vitais é clinicamente relevante. O objetivo deste estudo foi determinar se a administração intranasal de leite materno em prematuros modifica a oxigenação cerebral regional (rSO₂), frequência cardíaca, saturação periférica de oxigênio (SpO₂), frequência respiratória e tempo para atingir alimentação oral plena. Também foram avaliados tempo de hospitalização e frequência diária de vômitos e evacuações. Métodos utilizados Foi realizado um ensaio clínico randomizado, controlado e com cegamento do avaliador, conduzido em uma UTI neonatal de hospital universitário entre junho de 2024 e outubro de 2025. Participaram 40 prematuros, randomizados em: Grupo intervenção: 20 recém-nascidos; Grupo controle: 20 recém-nascidos. Foram elegíveis prematuros com idade gestacional entre 28 e 36 semanas e 6 dias, peso ao nascer superior a 1.000 g, recebendo alimentação enteral, Apgar superior a 7 e com leite materno disponível. A randomização foi estratificada pela idade gestacional, considerando os estratos de 28–32+6 semanas e 33–36+6 semanas, seguida de randomização em blocos. Intervenção Os prematuros do grupo intervenção receberam 0,2 mL de leite materno fresco por via intranasal, em temperatura ambiente, divididos em: 0,1 mL na narina direita; 0,1 mL na narina esquerda. A administração foi realizada três vezes ao dia durante três dias consecutivos. O grupo controle recebeu exclusivamente os cuidados clínicos de rotina. A oxigenação cerebral foi monitorada por espectroscopia no infravermelho próximo (NIRS). A rSO₂ cerebral e os sinais vitais foram registrados em quatro momentos: T0: imediatamente antes da intervenção; T1: 5 minutos após; T2: 15 minutos após; T3: 30 minutos após. Também foram acompanhados diariamente o tempo até alimentação oral plena, duração da hospitalização e frequência de vômitos e evacuações. Para análise longitudinal, foi utilizada ANOVA de desenho misto, além de testes estatísticos para comparação das variáveis contínuas e categóricas. O nível de significância adotado foi p < 0,05. Resultados As características basais foram semelhantes entre os grupos, sem diferenças estatisticamente significativas. A idade gestacional média foi de 32,60 ± 1,47 semanas no grupo intervenção e 32,80 ± 1,96 semanas no controle. O peso médio ao nascimento foi de 1.897 ± 374,52 g e 1.930 ± 508,62 g, respectivamente. Oxigenação cerebral Não houve diferença significativa na rSO₂ cerebral antes da intervenção. Após a administração intranasal de leite materno, entretanto, os valores foram significativamente maiores no grupo intervenção: T1: 78,82 ± 3,71 versus 75,20 ± 5,07; T2: 79,47 ± 3,62 versus 75,17 ± 4,92; T3: 79,86 ± 3,48 versus 75,22 ± 4,93. A interação grupo × tempo foi significativa (p < 0,001), demonstrando maior alteração da oxigenação cerebral ao longo do período de observação no grupo que recebeu leite materno intranasal. Saturação de oxigênio e frequência cardíaca Não foram observadas diferenças estatisticamente significativas entre os grupos nos valores médios de SpO₂ ou frequência cardíaca. Apesar disso, houve interação grupo × tempo significativa tanto para SpO₂ (p < 0,001) quanto para frequência cardíaca (p = 0,020). Frequência respiratória A frequência respiratória não diferiu entre os grupos em T0 e T1. Entretanto, foi significativamente menor no grupo intervenção posteriormente: T2: 49,84 ± 4,92 versus 53,26 ± 4,84 incursões/min; T3: 49,21 ± 5,03 versus 53,00 ± 5,08 incursões/min. A interação grupo × tempo também foi significativa (p < 0,001). Alimentação oral e internação O tempo médio para atingir alimentação oral plena foi: intervenção: 18,15 ± 7,49 dias; controle: 23,20 ± 12,27 dias. Apesar da diferença numérica de aproximadamente cinco dias, não houve significância estatística (p = 0,125). A duração média da hospitalização foi de: intervenção: 21,70 ± 7,31 dias; controle: 24,40 ± 12,30 dias; também sem diferença significativa (p = 0,404). Não foram identificadas diferenças significativas na frequência diária de vômitos ou evacuações. Discussão Este é descrito pelos autores como o primeiro estudo a investigar especificamente o efeito da administração intranasal de leite materno sobre a rSO₂ cerebral em prematuros. O principal achado foi o aumento da oxigenação cerebral regional após a intervenção. Os autores discutem dois mecanismos potenciais. O primeiro é a estimulação olfatória, considerando que estudos anteriores demonstraram aumento da rSO₂ cerebral após exposição ao odor do leite ou do mamilo materno. O segundo envolve a possibilidade de participação dos componentes bioativos do leite materno, considerando evidências experimentais de efeitos neuromoduladores sobre tecido neurogênico. Em relação à estabilidade fisiológica, a manutenção de valores semelhantes de SpO₂ e frequência cardíaca entre os grupos sugere boa tolerabilidade da intervenção. A redução da frequência respiratória observada em determinados momentos pode estar relacionada, segundo os autores, inclusive à melhora da permeabilidade nasal, embora esse mecanismo não tenha sido diretamente demonstrado pelo estudo. Não houve benefício estatisticamente significativo sobre alimentação oral plena, duração da hospitalização, vômitos ou evacuações. Os autores consideram que a frequência e a curta duração da intervenção — apenas três dias — podem ter contribuído para a ausência de diferenças nesses desfechos. Entre as principais limitações estão o curto período de intervenção e acompanhamento, ausência de avaliação de desfechos neurodesenvolvimentais, ausência de controle de alguns tratamentos capazes de modificar sinais vitais, como cafeína, e impossibilidade de cegamento dos pesquisadores responsáveis pela intervenção e coleta de dados. Portanto, o aumento agudo da rSO₂ deve ser

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