Perda Auditiva Neonatal: mecanismos, implicações clínicas e perspectivas globais

Fonte: American Academy of Pediatrics

Perda Auditiva Neonatal: mecanismos, implicações clínicas e perspectivas globais Sobre o artigo A perda auditiva neonatal é uma das deficiências sensoriais congênitas mais frequentes e pode comprometer de forma significativa a aquisição da linguagem, o desenvolvimento cognitivo e a integração social quando não reconhecida precocemente. O artigo destaca que cerca de 34 milhões de crianças no mundo apresentam perda auditiva incapacitante, sendo que aproximadamente 60% dos casos poderiam ser prevenidos por meio de identificação e intervenção precoces. A etiologia da perda auditiva neonatal é multifatorial. Os autores a organizam em três grandes grupos: causas genéticas, responsáveis por aproximadamente 50%–60% dos casos; infecciosas, 20%–30%; e adquiridas, 10%–20%. A vulnerabilidade do período neonatal decorre da interação entre predisposição genética, exposições intrauterinas, infecções congênitas, condições metabólicas, agressões perinatais e intervenções próprias da terapia intensiva neonatal. O avanço da genética molecular, especialmente com o sequenciamento de nova geração, ampliou a identificação das causas hereditárias, enquanto a melhora da sobrevida de recém-nascidos extremamente prematuros aumentou a relevância clínica de fatores adquiridos, como exposição a medicamentos ototóxicos, hiperbilirrubinemia e lesão hipóxico-isquêmica. Os autores enfatizam ainda a desigualdade global no diagnóstico: programas universais de triagem auditiva neonatal reduziram substancialmente a idade de detecção da deficiência auditiva em países de alta renda, enquanto a cobertura permanece limitada em regiões com menos recursos. Métodos utilizados Trata-se de uma revisão abrangente da literatura, destinada a sintetizar epidemiologia, mecanismos fisiopatológicos, estratégias diagnósticas, prevenção e manejo da perda auditiva neonatal. A revisão concentra atenção especial nos avanços publicados na última década e integra evidências sobre genética molecular, infecções congênitas, farmacogenômica, hiperbilirrubinemia, ototoxicidade relacionada à UTIN, triagem auditiva neonatal e métodos diagnósticos. O artigo não descreve uma coorte própria nem intervenção experimental. Também não apresenta, no conteúdo disponibilizado, uma metodologia formal de revisão sistemática com estratégia de busca, bases pesquisadas ou critérios estruturados de inclusão e exclusão. Portanto, deve ser interpretado como revisão narrativa/compreensiva, e não como revisão sistemática ou metanálise. Resultados Causas genéticas Os fatores genéticos constituem a principal categoria etiológica da perda auditiva congênita. Mais de 70% dos casos hereditários seguem padrão autossômico recessivo. O GJB2, gene responsável pela codificação da conexina 26, destaca-se como uma das principais causas genéticas, sendo responsável por aproximadamente 30%–50% das perdas auditivas recessivas não sindrômicas em populações caucasianas e asiáticas. A disfunção da conexina 26 prejudica a reciclagem de potássio na cóclea e favorece perda apoptótica das células ciliadas. As formas sindrômicas representam aproximadamente 30% das perdas auditivas genéticas. Entre as condições discutidas estão as síndromes de Waardenburg, Usher, Pendred, Jervell e Lange-Nielsen, Alport e Stickler. Um achado de grande relevância para a prática neonatal é a variante mitocondrial m.1555A>G no gene MT-RNR1, associada à susceptibilidade acentuada à ototoxicidade por aminoglicosídeos. Indivíduos portadores podem desenvolver perda auditiva sensorioneural bilateral e irreversível mesmo após exposição terapêutica limitada ao medicamento. Etiologias infecciosas O citomegalovírus (CMV) é apresentado como a principal causa infecciosa não genética de perda auditiva sensorioneural permanente no período neonatal. O vírus apresenta tropismo por estruturas neurais e cocleares, podendo atingir estria vascular, gânglio espiral e células ciliadas. A lesão auditiva relacionada ao CMV resulta da combinação de efeito citopático viral direto, resposta inflamatória imunomediada e alteração do desenvolvimento celular. Polimorfismos relacionados à resposta imune e alterações no GJB2 podem modificar a susceptibilidade à lesão coclear. Outras infecções discutidas incluem toxoplasmose, rubéola, herpes simples, sífilis e infecção pelo vírus Zika. Embora apresentem mecanismos específicos, compartilham vias de lesão envolvendo inflamação, neurotoxicidade, comprometimento vascular, dano de estruturas cocleares e alteração das vias auditivas centrais. A meningite bacteriana neonatal também merece atenção pelo risco de perda auditiva sensorioneural permanente. A inflamação pode provocar apoptose de células ciliadas, degeneração do gânglio espiral, fibrose e labirintite ossificante, esta última potencialmente dificultando ou inviabilizando posteriormente a implantação coclear. Hiperbilirrubinemia e kernicterus A bilirrubina não conjugada possui elevada neurotoxicidade e pode atravessar a barreira hematoencefálica imatura. Os núcleos auditivos do tronco cerebral, particularmente o núcleo coclear e o complexo olivar superior, são especialmente vulneráveis. A toxicidade envolve disfunção mitocondrial, geração de espécies reativas de oxigênio, redução de ATP, apoptose e excitotoxicidade mediada pelos receptores NMDA. A manifestação audiológica característica é o transtorno do espectro da neuropatia auditiva (ANSD). Nessa condição, as células ciliadas externas podem permanecer funcionantes, com emissões otoacústicas preservadas, enquanto a transmissão neural está comprometida, resultando em respostas auditivas de tronco encefálico ausentes ou intensamente alteradas. Um aspecto particularmente importante é a possibilidade de neurotoxicidade auditiva subclínica pela bilirrubina, inclusive em crianças que não preencham critérios clássicos para encefalopatia bilirrubínica aguda. Isso pode permitir que alterações de sincronia neural escapem à triagem neonatal convencional. Ototoxicidade na UTIN Aminoglicosídeos como gentamicina, amicacina e tobramicina permanecem importantes no tratamento da sepse neonatal, mas apresentam risco de ototoxicidade. O artigo relata incidência entre 2% e 25%, dependendo da dose acumulada, duração do tratamento, predisposição genética e exposições concomitantes. Esses antibióticos ligam-se ao RNA ribossômico mitocondrial 12S, comprometendo a síntese proteica mitocondrial e promovendo formação de espécies reativas de oxigênio, peroxidação lipídica e apoptose das células ciliadas externas. A furosemida pode potencializar esse dano ao alterar a homeostase da endolinfa e o potencial endococlear. A associação entre diuréticos de alça e aminoglicosídeos pode, portanto, produzir lesão coclear sinérgica. Entre as estratégias preventivas discutidas estão farmacogenômica, uso criterioso de antibióticos e diuréticos, monitorização terapêutica dos medicamentos e vigilância audiológica. Triagem e diagnóstico A combinação de emissões otoacústicas (EOA/OAE) e resposta auditiva automatizada do tronco encefálico (AABR) permite avaliar, respectivamente, a função coclear e a integridade neural. Segundo os autores, protocolos em duas etapas, utilizando OAE seguida de AABR nos casos encaminhados, apresentam sensibilidade superior a 95% para perdas auditivas moderadas a profundas. Entretanto, a triagem neonatal possui limitações: casos de início tardio ou progressivo podem não ser detectados inicialmente. A avaliação por ABR diagnóstica permanece referência para estimativa de limiares auditivos. Nos recém-nascidos de risco, a triagem universal ganha maior valor quando associada à investigação molecular de infecções congênitas, avaliação farmacogenômica e acompanhamento audiológico longitudinal. Discussão O artigo demonstra que a perda auditiva neonatal deve ser entendida como resultado da interação entre vulnerabilidade

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