Tratamento profilático do ducto arterioso patente com paracetamol: ensaio clínico randomizado Sobre o artigo A persistência do ducto arterioso (PDA) em prematuros extremos está associada a aumento de morbidade e mortalidade. No entanto, estratégias profiláticas ou tratamento precoce com AINEs (indometacina/ibuprofeno) não demonstraram melhora consistente nos desfechos clínicos e apresentam efeitos adversos relevantes. O paracetamol surge como alternativa potencial, com possível melhor perfil de segurança, atuando na inibição da síntese de prostaglandinas via bloqueio da peroxidase. Contudo, evidências robustas em prematuros extremos ainda são limitadas. O estudo TREOCAPA foi desenvolvido para avaliar se o uso profilático precoce de paracetamol melhora a sobrevida sem morbidades graves em prematuros extremos. Métodos utilizados Desenho: ensaio clínico multicêntrico, duplo-cego, randomizado, controlado por placebo Cenário: 43 UTIs neonatais em 14 países europeus População: recém-nascidos entre 23+0 e 28+6 semanas, com ≤12 horas de vida Amostra: 778 pacientes analisados Intervenção: Paracetamol intravenoso por 5 dias 23–26 semanas: dose de ataque 25 mg/kg + 10 mg/kg a cada 6h 27–28 semanas: dose de ataque 20 mg/kg + 7,5 mg/kg a cada 6h Comparador: placebo (soro fisiológico) Desfecho primário: Sobrevida sem morbidade grave aos 36 semanas de idade pós-menstrual Desfechos secundários: Fechamento do ducto arterioso (ecocardiografia no dia 7) Necessidade de tratamento de resgate Eventos adversos Resultados Sobrevida sem morbidade grave: Paracetamol: 66,2% Placebo: 63,6% Diferença não significativa (RR 1,04; IC 95% 0,94–1,16) Fechamento do ducto no dia 7: Paracetamol: 71,2% Placebo: 52,2% Aumento significativo (RR 1,36) Menor necessidade de tratamento de resgate: Paracetamol: 14,3% Placebo: 21,2% Segurança: Sem diferenças relevantes na maioria dos eventos adversos Maior incidência de colestase no grupo paracetamol (6,4% vs 2,6%) Discussão Apesar de aumentar significativamente o fechamento precoce do ducto arterioso, o paracetamol profilático não reduziu mortalidade nem morbidades neonatais graves. Os achados reforçam evidências prévias com AINEs: o fechamento do ducto não se traduz necessariamente em benefício clínico relevante. A ausência de impacto em suporte ventilatório, hemodinâmico ou nutricional sugere que o fechamento precoce isolado pode não modificar a evolução clínica. O perfil de segurança foi globalmente favorável, porém o aumento de colestase levanta preocupação quanto ao uso profilático universal. O estudo também sugere necessidade de melhor definição de subgrupos que possam se beneficiar de intervenção precoce. Conclusão O uso profilático de paracetamol em prematuros extremos não melhora a sobrevida sem morbidades graves, apesar de aumentar o fechamento do ducto arterioso. Portanto, essa estratégia não deve ser recomendada rotineiramente nessa população. Insights clínicos O paracetamol profilático melhora desfechos clínicos em prematuros extremos? Não. Não houve aumento de sobrevida sem morbidade grave aos 36 semanas. O paracetamol é eficaz para fechamento do ducto arterioso? Sim. Aumenta significativamente a taxa de fechamento no dia 7. Fechar o ducto precocemente melhora prognóstico? Não necessariamente. O estudo mostra dissociação entre fechamento anatômico e benefício clínico. Há redução na necessidade de tratamento de resgate? Sim. O uso de paracetamol reduziu intervenções adicionais para PDA. O tratamento é seguro? Globalmente sim, mas houve aumento de colestase, exigindo cautela. Deve-se usar paracetamol profilaticamente para PDA? Não. O estudo não apoia essa prática rotineira. Para ver mais conteúdos como este, acesse: NeoPed Hub
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