Desfechos de Longo Prazo da Síndrome Inflamatória Multissistêmica (SIM) em Crianças pós COVID Sobre o artigo A síndrome inflamatória multissistêmica em crianças (MIS-C) é uma complicação pós-infecciosa rara e grave associada ao SARS-CoV-2, caracterizada por febre, inflamação sistêmica acentuada e comprometimento de múltiplos órgãos. Durante a fase aguda, pode ocorrer importante envolvimento cardiovascular, incluindo disfunção ventricular, miocardite, alterações coronarianas e arritmias. Embora estudos iniciais tenham demonstrado recuperação relativamente rápida da função cardíaca e dos marcadores inflamatórios, as evidências sobre consequências tardias permaneciam limitadas, especialmente além de dois anos. O objetivo deste estudo foi avaliar de forma abrangente os desfechos cardiovasculares, neurológicos, respiratórios, gastrointestinais, renais e hipertensivos após MIS-C, com acompanhamento de até 4,5 anos após a infecção pelo SARS-CoV-2. Métodos utilizados Foi realizado um estudo de coorte retrospectivo utilizando registros eletrônicos de saúde do Montefiore Health System, nos Estados Unidos. Foram avaliados pacientes com menos de 21 anos submetidos a PCR para SARS-CoV-2 entre março de 2020 e agosto de 2024. A população incluiu: 173 pacientes com MIS-C 14.190 pacientes com COVID-19 sem MIS-C A identificação da MIS-C foi realizada por três estratégias: código ICD-10 M35.81 associado a PCR positivo para SARS-CoV-2, critérios diagnósticos da Organização Mundial da Saúde (OMS) ou critérios dos Centers for Disease Control and Prevention (CDC). Os controles foram pacientes menores de 21 anos com PCR positivo para SARS-CoV-2 que não preencheram critérios para MIS-C. Os principais desfechos incidentes avaliados após a infecção foram doenças cardiovasculares, distúrbios neurológicos, doenças respiratórias, doenças gastrointestinais, choque, doença renal crônica (DRC) e hipertensão arterial. Foi realizado pareamento 1:2 por escore de propensão, resultando em 173 pacientes com MIS-C comparados a 346 controles. O pareamento considerou idade, sexo, raça, etnia e comorbidades preexistentes. Modelos de riscos proporcionais de Cox foram utilizados para estimar hazard ratios ajustados (aHR). Também foram realizadas análises de sensibilidade, incluindo uma definição mais restritiva de MIS-C baseada em evidências clínicas compatíveis com os critérios do CDC/OMS. Resultados Após o pareamento e o ajuste multivariável, a MIS-C permaneceu associada a aumento significativo do risco de diferentes desfechos de longo prazo. Os principais resultados foram: Desfecho aHR IC 95% Significância Doenças cardiovasculares 13,88 4,69–41,07 p < 0,001 Doenças gastrointestinais 9,48 2,66–33,71 p < 0,001 Hipertensão arterial 8,86 4,12–19,06 p < 0,001 Doenças respiratórias 3,46 2,21–5,42 p < 0,001 Doenças neurológicas 2,02 1,22–3,34 p = 0,007 Os pacientes com MIS-C apresentaram incidência cumulativa superior à dos controles para todos os desfechos avaliados nas análises de Kaplan-Meier. Desfechos cardiovasculares O aumento de quase 14 vezes no risco de doença cardiovascular foi um dos achados mais expressivos. Na coorte pareada, 15,61% dos pacientes com MIS-C apresentaram desfechos cardiovasculares, comparados a 1,16% dos controles. A insuficiência cardíaca foi o evento cardiovascular individual mais frequente, ocorrendo em 9,25% dos pacientes com MIS-C, versus 0,58% dos controles. Hipertensão arterial A hipertensão incidente ocorreu em 19,08% dos pacientes com MIS-C, contra 2,60% dos controles pareados. Além disso, hipertensão preexistente esteve associada a maior risco posterior de: doença cardiovascular: aHR 7,62; doença neurológica: aHR 3,09; doença respiratória: aHR 3,14; doença gastrointestinal: aHR 9,88. Desfechos neurológicos e psicológicos Os pacientes com MIS-C apresentaram aproximadamente o dobro do risco de desfechos neurológicos e psicológicos. A categoria analisada incluiu depressão, ansiedade e acidente vascular cerebral. Na coorte pareada, esses eventos ocorreram em 25,43% dos pacientes com MIS-C versus 13,29% dos controles. A obesidade também esteve associada a maior risco de desfechos neurológicos (aHR 2,53). Desfechos respiratórios Distúrbios respiratórios ocorreram em 41,62% dos pacientes com MIS-C versus 15,90% dos controles pareados. Como pneumonia e bronquite tardias poderiam representar novas infecções em vez de sequelas da MIS-C, os autores realizaram uma análise adicional excluindo esses diagnósticos. Mesmo assim, a associação permaneceu significativa (aHR 2,37; IC95% 1,46–3,83; p < 0,001). Doença renal crônica e choque DRC e choque ocorreram quase exclusivamente entre os sobreviventes de MIS-C no grupo pareado, impossibilitando uma estimativa finita do hazard ratio. Cada aumento de um ano na idade esteve associado a maior risco tanto de choque (aHR 1,06) quanto de DRC (aHR 1,06). Diabetes preexistente apresentou associação particularmente forte com DRC incidente (aHR 49,43; IC95% 3,04–803,21), embora com intervalo de confiança bastante amplo. A mortalidade observada entre os pacientes com MIS-C foi de 3,47%. Discussão Os resultados sugerem que a MIS-C não deve ser compreendida exclusivamente como uma doença inflamatória aguda e transitória. Nesta coorte, houve acúmulo persistente de morbidade multissistêmica ao longo de até 4,5 anos. Os desfechos cardiovasculares e de choque apresentaram separação relativamente precoce das curvas entre pacientes com e sem MIS-C. Já os desfechos neurológicos, renais, hipertensivos e gastrointestinais apresentaram divergência mais tardia e progressiva. No sistema cardiovascular, os autores discutem que a lesão inflamatória miocárdica aguda poderia evoluir para comprometimento ventricular crônico ou recorrente em uma parcela dos pacientes. Para hipertensão, são discutidos como mecanismos potenciais a ativação do sistema renina-angiotensina-aldosterona após SARS-CoV-2, lesão endotelial, inflamação crônica de baixo grau e exposição a corticosteroides em altas doses durante o tratamento agudo. Em relação aos desfechos neuropsiquiátricos, os autores consideram possíveis mecanismos como lesão microvascular, alteração da barreira hematoencefálica e neuroinflamação mediada por citocinas, além da potencial contribuição dos fatores psicossociais relacionados à COVID-19, à pandemia e à hospitalização. Os resultados sustentam acompanhamento estruturado de longo prazo, incluindo monitorização da pressão arterial e vigilância cardiovascular, renal, neurológica e de saúde mental. Os autores também defendem cuidado multidisciplinar envolvendo atenção primária, cardiologia, neurologia, saúde mental, pneumologia e gastroenterologia. Entre as principais limitações estão o desenho retrospectivo, dependência de registros eletrônicos e códigos diagnósticos, possibilidade de classificação incorreta da MIS-C, perda de eventos ocorridos fora da rede hospitalar, informações incompletas sobre vacinação e tratamentos para COVID-19, tamanho amostral limitado para determinadas análises e possibilidade de confundimento residual e viés de seleção. Conclusão A MIS-C associada à COVID-19 esteve relacionada a morbidade multissistêmica persistente por vários anos, com aumento significativo de desfechos cardiovasculares, hipertensivos, respiratórios, gastrointestinais e neurológicos. Os achados sustentam a necessidade de vigilância clínica estruturada e prolongada, estratificação precoce de risco e acompanhamento multidisciplinar, especialmente nos pacientes com fatores adicionais de risco. O estudo
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