Epidemiologia do Vírus Herpes Simples em Lactentes com Idade de 0–42 Dias: 2008–2024 Sobre o Artigo A infecção neonatal pelo Vírus Herpes Simples (HSV) permanece uma das infecções perinatais mais graves, associada historicamente a elevada mortalidade e sequelas neurológicas importantes. Nas últimas décadas, observou-se mudança epidemiológica relevante, com o HSV-1 ultrapassando o HSV-2 como principal subtipo causador de doença neonatal. O estudo teve como objetivo avaliar a incidência, os padrões clínicos, os subtipos virais e as tendências temporais da doença por HSV em lactentes de até 42 dias de vida em um grande sistema integrado de saúde da Califórnia do Norte. Métodos Utilizados Estudo retrospectivo observacional realizado no sistema Kaiser Permanente Northern California (KPNC). Foram incluídos todos os recém-nascidos e lactentes de 0 a 42 dias nascidos entre outubro de 2008 e setembro de 2024. O diagnóstico de HSV foi confirmado por: PCR para HSV; Cultura viral; Imunofluorescência direta (DFA). Foram coletados dados demográficos, clínicos, laboratoriais e radiológicos. Os casos foram classificados em: Doença de pele, olhos e boca (SEM); Doença disseminada (DIS); Doença do sistema nervoso central (CNS). As tendências temporais foram avaliadas por regressão Joinpoint. Resultados Foram avaliados 632.979 nascidos vivos, sendo identificados 62 casos sintomáticos de HSV neonatal, correspondendo a uma incidência acumulada de 9,8 casos por 100.000 nascimentos. Principais achados: Doença SEM representou 55% dos casos. HSV-1 foi responsável por 61% das infecções. A incidência de: SEM foi de 5,4/100.000 nascimentos; DIS foi de 2,8/100.000 nascimentos; CNS foi de 1,6/100.000 nascimentos. Características clínicas: Idade média ao diagnóstico: 10,8 dias. 24% dos pacientes eram prematuros. Incidência em prematuros: 28,3/100.000 nascimentos. Incidência em recém-nascidos a termo: 8,1/100.000 nascimentos. Mortalidade: Seis óbitos foram registrados. Mortalidade global de aproximadamente 10%. Mortalidade na doença disseminada atingiu 28%. Achado epidemiológico mais relevante: Houve aumento estatisticamente significativo da doença disseminada após 2021. Entre 2021 e 2024 observou-se crescimento anual de 4,5 casos por 100.000 nascimentos na incidência de doença disseminada. Discussão O estudo demonstra estabilidade geral da incidência de HSV neonatal ao longo de 16 anos, porém identifica uma mudança importante após a pandemia de COVID-19, marcada pelo aumento da forma disseminada da doença. Os autores sugerem que alterações nos comportamentos sexuais durante e após a pandemia possam ter contribuído para aumento de infecções genitais primárias por HSV-1 em gestantes, ampliando o risco de transmissão neonatal. Outro aspecto relevante foi a manutenção do predomínio do HSV-1 durante todo o período estudado, reforçando a transformação epidemiológica observada internacionalmente. Os autores destacam ainda que: A maioria dos lactentes não apresentava febre. Limitar a investigação de HSV apenas a recém-nascidos febris poderia deixar de diagnosticar cerca de 68% dos casos. Lesões cutâneas estavam ausentes em parcela importante dos pacientes com doença disseminada e neurológica. Conclusão A infecção neonatal por HSV apresentou incidência de 9,8 casos por 100.000 nascimentos em uma coorte de mais de 600 mil recém-nascidos. O HSV-1 permaneceu como subtipo predominante durante todo o período estudado. Após a pandemia de COVID-19 ocorreu aumento significativo da doença disseminada, forma associada à maior mortalidade. Os resultados reforçam a necessidade de: Vigilância epidemiológica contínua; Reconhecimento precoce dos sinais clínicos; Início rápido de aciclovir em casos suspeitos; Estratégias preventivas voltadas à infecção materna por HSV. Insights Clínicos Qual foi a forma clínica mais frequente de HSV neonatal? A doença de pele, olhos e boca (SEM) representou 55% dos casos diagnosticados. Qual subtipo viral predominou? O HSV-1 foi responsável por 61% das infecções neonatais durante o período estudado. Qual forma apresentou maior mortalidade? A doença disseminada (DIS), com mortalidade de aproximadamente 28%. O HSV neonatal ocorre apenas em recém-nascidos febris? Não. Apenas 21% dos pacientes apresentaram febre documentada, mostrando que a ausência de febre não exclui o diagnóstico. A hipotermia pode ser manifestação de HSV neonatal? Sim. Casos de hipotermia e hipotermia persistente foram observados em diferentes apresentações clínicas da doença. Lesões vesiculares estão sempre presentes? Não. Lesões cutâneas ou orais ocorreram em apenas 53% dos pacientes e foram muito menos frequentes nas formas disseminadas e neurológicas. Quando deve-se considerar aciclovir empírico? Em recém-nascidos ou lactentes jovens com quadro compatível com doença disseminada, especialmente quando houver instabilidade clínica, alterações hepáticas, respiratórias, hematológicas ou neurológicas. Qual a principal mensagem prática para o neonatologista? O HSV neonatal deve permanecer no diagnóstico diferencial de recém-nascidos gravemente enfermos, mesmo na ausência de febre ou lesões cutâneas, pois atrasos diagnósticos estão associados a pior prognóstico e maior mortalidade. Para ver mais conteúdos como este, acesse: NeoPed Hub
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