Impacto da Triagem Neonatal Universal e da Triagem Direcionada por Alterações Auditivas na Prevalência Observada ao Nascimento da Infecção Congênita por Citomegalovírus (CMV)

Fonte: The Journal of Pediatrics

Impacto da Triagem Neonatal Universal e da Triagem Direcionada por Alterações Auditivas na Prevalência Observada ao Nascimento da Infecção Congênita por Citomegalovírus (CMV). Sobre o artigo  A infecção congênita por citomegalovírus (cCMV) é uma importante causa infecciosa de perda auditiva e de alterações do neurodesenvolvimento na infância. Nos Estados Unidos, estima-se que aproximadamente 1 em cada 200 recém-nascidos apresente cCMV. Diferentes estratégias de triagem neonatal têm sido adotadas. A triagem direcionada pela audição realiza investigação para CMV principalmente em recém-nascidos que falham na triagem auditiva neonatal. Entretanto, essa estratégia pode deixar de identificar uma parcela substancial das crianças infectadas, inclusive recém-nascidos assintomáticos ao nascimento que permanecem sob risco de sequelas auditivas, de linguagem, cognitivas e motoras. A triagem universal, por outro lado, testa todos os recém-nascidos e pode permitir identificação precoce da infecção, possibilitando encaminhamento para acompanhamento auditivo, visual e do neurodesenvolvimento e intervenções quando indicadas. O objetivo deste estudo foi avaliar como a implementação sequencial da triagem direcionada pela audição e posteriormente da triagem universal modificou a prevalência observada de cCMV ao nascimento na região do Rochester Epidemiology Project (REP), no sudeste de Minnesota. Métodos utilizados Foi realizado um estudo retrospectivo utilizando dados do Rochester Epidemiology Project (REP), sistema que integra registros eletrônicos de saúde de prestadores responsáveis por grande parte da assistência médica da região estudada. Foram incluídos recém-nascidos entre 1º de janeiro de 2010 e 31 de dezembro de 2024, nascidos em hospitais participantes do REP e residentes em Minnesota no momento do nascimento. A identificação inicial dos possíveis casos utilizou resultados laboratoriais e códigos diagnósticos ICD-9/10 relacionados a CMV e cCMV. Posteriormente, os prontuários foram revisados por um neonatologista. O critério para cCMV confirmado foi PCR positivo para CMV realizado nos primeiros 21 dias de vida. Nenhum caso foi incluído exclusivamente com base em código diagnóstico. O período foi dividido conforme a estratégia de rastreamento: 2010–2017: ausência de programa sistemático de triagem neonatal; confirmação por PCR de urina ou saliva. 2018–2022: triagem direcionada pela audição, com PCR em urina ou saliva nos recém-nascidos que falharam duas vezes na triagem auditiva durante a hospitalização inicial. 2023–2024: triagem neonatal universal por PCR em dried blood spot (DBS), após sua implementação em Minnesota em fevereiro de 2023. A prevalência foi calculada dividindo-se o número de casos confirmados pelo total de nascidos vivos, com estimativa dos respectivos intervalos de confiança de 95%. Resultados Entre 2010 e 2024, foram registrados 78.641 nascidos vivos na região estudada. Inicialmente, 91 crianças apresentaram PCR positivo e/ou código diagnóstico relacionado a CMV/cCMV. Após aplicação dos critérios diagnósticos, 56 casos foram confirmados como cCMV. Em 35 crianças, a infecção congênita não pôde ser confirmada porque o teste laboratorial ocorreu após 21 dias de vida. Entre os 56 casos confirmados: 29 (51,8%) eram do sexo masculino; 27 (48,2%) eram do sexo feminino; 43 (76,8%) foram identificados como brancos; 5 (8,9%) eram de etnia hispânica/latina. A distribuição dos diagnósticos mudou substancialmente conforme a estratégia de triagem. Apenas 9 casos (16,1%) foram identificados entre 2010–2017, aumentando para 15 (26,8%) durante a triagem direcionada pela audição e para 32 (57,1%) durante os dois primeiros anos da triagem universal. A prevalência observada de cCMV por 10.000 nascidos vivos foi: 2010–2024: 7,12 (IC95% 5,38–9,25); 2010–2017, sem triagem sistemática: 2,07 (IC95% 0,95–3,92); 2018–2022, triagem direcionada pela audição: 5,65 (IC95% 3,16–9,32); 2023–2024, triagem universal: 37,45 (IC95% 25,61–52,87). Assim, após a implementação da triagem direcionada pela audição, a prevalência observada foi aproximadamente 3 vezes maior que no período sem rastreamento sistemático. Com a triagem universal, tornou-se aproximadamente 18 vezes maior. A prevalência de 37,45/10.000 corresponde a aproximadamente 0,37%, valor semelhante aos 0,29% descritos durante o primeiro ano da triagem universal em todo o estado de Minnesota. Discussão Os resultados demonstram que a prevalência observada de cCMV depende fortemente da estratégia utilizada para identificar os recém-nascidos infectados. O aumento após a introdução dos programas de rastreamento não significa necessariamente aumento da incidência biológica da infecção. O achado central é que estratégias mais abrangentes permitem identificar casos que anteriormente permaneceriam sem diagnóstico. Embora a triagem direcionada pela audição tenha aumentado a detecção, o efeito foi muito mais pronunciado com a triagem universal. O programa universal de Minnesota utiliza PCR em DBS, aproveitando a infraestrutura já existente de coleta universal de sangue seco para triagem neonatal. Os autores também destacam evidências anteriores de potencial custo-efetividade dessa estratégia. Entretanto, existe uma limitação técnica relevante: a sensibilidade do PCR em DBS é de aproximadamente 75% quando comparada à PCR de saliva ou urina, indicando que mesmo a estratégia universal utilizada pode deixar de identificar parte dos recém-nascidos infectados. Outras limitações incluem dependência da qualidade dos registros eletrônicos, possibilidade de ausência de códigos ou resultados laboratoriais, barreiras de acesso à saúde e potencial perda de casos atendidos fora do sistema REP. Apesar dessas limitações, a adesão à triagem por DBS em Minnesota supera 99%. Os autores consideram os resultados potencialmente generalizáveis para populações semelhantes às do sudeste de Minnesota e do Upper Midwest, mas alertam que essa generalização pode não ser válida para comunidades com maior diversidade populacional. Conclusão A ausência de programas sistemáticos de triagem neonatal faz com que a maioria dos recém-nascidos com cCMV provavelmente não seja identificada. A triagem direcionada pela audição aumentou aproximadamente três vezes a prevalência observada da infecção em comparação ao período sem rastreamento sistemático, enquanto a introdução da triagem universal esteve associada a uma prevalência observada aproximadamente 18 vezes maior. A triagem universal apresenta, portanto, maior capacidade de revelar a carga real da cCMV na população estudada e pode criar oportunidades para acompanhamento precoce e intervenções, incluindo tratamento antiviral quando indicado. Insights clínicos A triagem auditiva neonatal isoladamente é suficiente para identificar cCMV? Não. O artigo destaca que estratégias baseadas na falha da triagem auditiva deixam de identificar uma parcela substancial dos recém-nascidos infectados, especialmente aqueles sem manifestação auditiva detectável ao nascimento. Qual foi o impacto da triagem direcionada pela audição? A prevalência observada passou de 2,07 para 5,65 casos por 10.000 nascidos vivos, aproximadamente três vezes maior que no período sem rastreamento

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