Intervenção Mindfulness em adolescentes com uso de substâncias: uma revisão sistemática

Fonte: American Academy of Pediatrics

Intervenção Mindfulness em adolescentes com uso de substâncias: uma revisão sistemática Sobre o artigo  O uso de substâncias e os transtornos por uso de substâncias (TUS) permanecem importantes problemas de saúde pública entre adolescentes e adultos jovens. Embora a prevalência de alguns padrões de consumo tenha diminuído, o uso de álcool, cannabis, nicotina e outras drogas continua associado a piores desfechos psiquiátricos, de saúde e funcionamento. As intervenções psicossociais baseadas em técnicas motivacionais, cognitivo-comportamentais e familiares constituem tratamentos de primeira linha para a maioria dos TUS nessa população. Entretanto, seus efeitos são geralmente pequenos a modestos, a abstinência sustentada ocorre apenas em uma parcela dos pacientes e menos de 1 em cada 10 jovens norte-americanos que poderiam se beneficiar do tratamento para TUS o recebem. Nesse contexto, as intervenções baseadas em mindfulness (Mindfulness-Based Interventions – MBIs) surgem como estratégia potencialmente complementar. Mindfulness envolve direcionar intencionalmente a atenção ao momento presente de maneira não julgadora. Sua aplicação terapêutica pode favorecer autoconsciência, regulação da atenção, autocompaixão, autorregulação e estratégias adaptativas de enfrentamento. No contexto das dependências, a hipótese é que o mindfulness permita reconhecer craving, estresse e emoções negativas sem responder automaticamente com o consumo da substância. Dessa forma, poderia interromper o ciclo entre craving, sofrimento emocional e comportamento impulsivo de busca e uso de drogas. O objetivo principal da revisão foi avaliar a eficácia das MBIs na redução do consumo de álcool e drogas e na melhora do funcionamento psicológico de jovens que usam substâncias. Os autores também procuraram identificar características das intervenções e das populações associadas à resposta terapêutica e explorar possíveis mecanismos psicológicos envolvidos. Métodos utilizados Foi realizada uma revisão sistemática seguindo as recomendações PRISMA, previamente registrada no PROSPERO (CRD42021251004). A busca bibliográfica incluiu as bases PubMed, EMBASE, Cochrane Library, PsycINFO e Web of Science. A pesquisa original foi realizada em maio de 2021 e atualizada em outubro de 2023 e maio de 2025. As referências dos estudos selecionados e de publicações relacionadas também foram examinadas. Foram selecionados estudos controlados randomizados que compararam uma intervenção contendo treinamento e prática de mindfulness com uma condição controle ativa ou passiva em adolescentes e adultos jovens usuários de substâncias ou com TUS. Entre as intervenções consideradas estavam: Mindfulness-Based Relapse Prevention; Respiração consciente; Mindfulness meditation; Urge surfing; Técnicas de mindfulness derivadas da terapia comportamental dialética; Acceptance and Commitment Therapy; Loving-kindness meditation; Intervenções digitais e por smartphone. Os comparadores incluíram ausência de intervenção, lista de espera, tratamento usual, estratégias de relaxamento, técnicas de distração e outras intervenções psicossociais. Foram extraídos dados referentes ao desenho dos estudos, características das amostras, medidas de desfecho, características das intervenções, número e duração das sessões, formato, ambiente de aplicação e características dos grupos controle. A avaliação do risco de viés foi realizada com a ferramenta Cochrane Risk of Bias. Devido à heterogeneidade dos estudos e à insuficiência de dados para análises estatisticamente adequadas, não foi realizada metanálise com poder apropriado. Os autores utilizaram síntese qualitativa e análise narrativa dos resultados. Resultados A busca identificou inicialmente 2.090 citações únicas após a remoção de duplicatas. Após triagem e avaliação dos textos completos, 23 estudos correspondentes a 21 ensaios clínicos randomizados preencheram os critérios de inclusão. No total, foram avaliados 2.297 participantes, com idade média de 20,4 anos, sendo aproximadamente 54% do sexo feminino. Os ensaios apresentaram importante heterogeneidade quanto às populações estudadas, substâncias avaliadas, intervenções, duração do tratamento, comparadores, medidas de desfecho e métodos analíticos. Entre os 21 ensaios: 11 avaliaram principalmente álcool; 5 avaliaram tabaco/nicotina; 3 avaliaram cannabis; 2 avaliaram uso geral de substâncias. As MBIs também apresentaram grande variação de intensidade. O tempo total de instrução variou de aproximadamente 6 minutos a 19 horas, incluindo intervenções ultrabreves, breves e programas tradicionais mais extensos. Foram utilizados formatos presenciais, gravações de áudio e intervenções digitais. De forma global, mais de dois terços dos estudos relataram resultados favoráveis às intervenções baseadas em mindfulness, em comparação com as condições controle, para redução do uso de substâncias após a intervenção ou em desfechos agregados relacionados ao consumo. Alguns ensaios demonstraram redução da frequência ou quantidade de álcool, episódios de binge drinking e consequências negativas relacionadas ao consumo. Entretanto, os resultados não foram uniformes. Em determinados estudos, estratégias como relaxamento, distração ou tomada de perspectiva apresentaram resultados semelhantes ou, para alguns desfechos imediatos, superiores às técnicas de mindfulness. As análises de subgrupos forneceram evidências preliminares de que as MBIs podem: reduzir impulsividade; modificar a resposta ao estresse; alterar a resposta ao craving; melhorar processos de autorregulação relacionados ao consumo de substâncias. Os autores destacam ainda evidências preliminares de que mudanças na impulsividade, estresse e craving podem atuar como mediadores entre a exposição ao mindfulness e os desfechos relacionados ao uso de substâncias. Discussão Os resultados sugerem que intervenções baseadas em mindfulness apresentam potencial terapêutico para adolescentes e adultos jovens que usam substâncias, especialmente como estratégia para reduzir padrões de consumo e atuar sobre mecanismos psicológicos associados à manutenção do comportamento aditivo. Um aspecto clinicamente relevante é que mindfulness pode atuar por mecanismos parcialmente diferentes daqueles explorados pelas abordagens motivacionais e cognitivo-comportamentais convencionais. Em vez de atuar exclusivamente sobre pensamentos, motivação ou tomada de decisão, a intervenção procura modificar a relação do indivíduo com craving, estresse, impulsividade e experiências emocionais desagradáveis. Essa característica sustenta seu possível papel como tratamento complementar às intervenções psicossociais já estabelecidas. Entretanto, os achados devem ser interpretados com cautela. Houve elevada heterogeneidade entre os estudos quanto ao tipo de mindfulness, dose, duração, população, substância-alvo, comparador e método de mensuração dos desfechos. Além disso, intervenções denominadas mindfulness variaram desde exposições ultrabreves de poucos minutos até programas estruturados com várias horas de treinamento, dificultando considerar todas essas estratégias como uma modalidade terapêutica homogênea. Outro ponto relevante é que alguns estudos não demonstraram superioridade do mindfulness em relação a controles ativos. Estratégias de distração, relaxamento e tomada de perspectiva também produziram efeitos relevantes em determinados experimentos. A evidência para drogas ilícitas permanece particularmente limitada, reduzindo a possibilidade de extrapolar os resultados observados predominantemente para álcool e nicotina a todos os transtornos por uso de

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