Intervenções dietéticas e nutricionais nos transtornos neuropsiquiátricos na infância Sobre o artigo Os transtornos do neurodesenvolvimento constituem condições heterogêneas de início precoce, capazes de comprometer funcionalidade e qualidade de vida da criança e de sua família. Entre as condições abordadas estão TEA, TDAH e outros transtornos neuropsiquiátricos pediátricos. Nos últimos anos, aumentou o interesse pelo papel da alimentação, da microbiota intestinal e do chamado eixo intestino-cérebro nesses transtornos. Esse eixo envolve mecanismos neurais, imunológicos, neuroendócrinos e metabólicos, levantando a hipótese de que intervenções nutricionais possam modificar sintomas gastrointestinais e neurocomportamentais. Entre as estratégias difundidas estão dietas sem glúten e caseína, probióticos, ômega-3, vitaminas, minerais, ácido folínico e N-acetilcisteína (NAC). Entretanto, a popularização dessas intervenções contrasta com resultados científicos heterogêneos e com o risco de dietas restritivas e suplementações indiscriminadas. O objetivo da revisão foi analisar criticamente eficácia e segurança dessas intervenções em crianças e adolescentes, diferenciando práticas respaldadas por evidências de abordagens ainda sustentadas predominantemente por hipóteses ou evidências insuficientes. Métodos utilizados Trata-se de uma revisão narrativa com busca estruturada, direcionada a crianças e adolescentes de 0 a 18 anos com TEA, TDAH, transtornos de ansiedade e transtornos depressivos. A pergunta foi estruturada segundo o modelo PICO, contemplando intervenções como: dietas de exclusão e padrões alimentares; probióticos; ômega-3; vitamina D; ácido folínico/leucovorina; N-acetilcisteína; suplementação de micronutrientes. As buscas ocorreram entre abril e agosto de 2025 nas bases PubMed, SciELO, Cochrane e Web of Science. Foram priorizados ensaios clínicos randomizados, revisões sistemáticas e metanálises publicados entre 2019 e 2025, admitindo estudos anteriores considerados clinicamente relevantes. A análise qualitativa considerou tamanho amostral, aleatorização e mascaramento, heterogeneidade dos protocolos, risco de viés e conflitos de interesse. Resultados Probióticos Embora exista plausibilidade biológica para modulação do eixo microbiota-intestino-cérebro, não há evidências robustas de que probióticos melhorem os sintomas centrais de TEA ou TDAH. Em TEA, metanálise de ensaios clínicos não demonstrou benefício consistente sobre sintomas comportamentais centrais, embora alguns estudos indiquem melhora de manifestações gastrointestinais. No TDAH, metanálise envolvendo 379 crianças e adolescentes não identificou diferença entre probióticos e placebo para desatenção ou hiperatividade/impulsividade. Os estudos apresentam limitações importantes, incluindo pequenas amostras, diferentes cepas e doses, intervenções curtas e heterogeneidade dos desfechos. Aplicação clínica: o uso rotineiro para tratamento dos sintomas centrais de TEA/TDAH não é recomendado; eventual benefício gastrointestinal pode existir em subgrupos selecionados. Dieta sem glúten e caseína A dieta gluten-free casein-free (GFCF) é uma das intervenções nutricionais mais populares no TEA, mas as evidências disponíveis não demonstram benefício significativo nos sintomas do autismo, comportamento ou funcionalidade. Essa conclusão é compatível com recomendações de NICE, AAP e ESPGHAN. Aplicação clínica: dietas de exclusão não devem ser utilizadas rotineiramente para tratar sintomas centrais do TEA. Sua indicação deve decorrer de condições clínicas específicas, como doença celíaca, alergia ou intolerância devidamente identificada, com acompanhamento nutricional. Ômega-3 A suplementação com EPA e DHA apresenta plausibilidade biológica devido ao papel desses ácidos graxos nas membranas neuronais, neurotransmissão e modulação inflamatória. No TDAH, um ensaio clínico com EPA 1,2 g/dia encontrou melhora da atenção focada particularmente nas crianças com baixos níveis basais de EPA. O benefício, porém, não foi uniforme para outros sintomas, e participantes com níveis basais elevados não apresentaram a mesma resposta. No TEA, os resultados permanecem inconclusivos e baseados em evidências de baixa qualidade. Aplicação clínica: não há suporte para suplementação rotineira de ômega-3 como tratamento dos transtornos neuropsiquiátricos. A possível resposta relacionada ao estado nutricional basal reforça a importância da individualização. Zinco Ensaios clínicos em TDAH sugerem redução modesta dos sintomas globais. Um estudo de 12 semanas mostrou maior efeito sobre hiperatividade/impulsividade e socialização, especialmente em crianças com níveis basais mais baixos, sem melhora clara da atenção. Ferro Baixos níveis de ferritina estão associados a maior risco e gravidade de TDAH. A suplementação pode melhorar sintomas quando existe deficiência de ferro. Magnésio Apesar de sua importância para excitabilidade neuronal e resposta ao estresse, as evidências para suplementação em TEA e TDAH permanecem inconsistentes. Mensagem central sobre micronutrientes: suplementação deve ser orientada por avaliação clínica e laboratorial, priorizando a correção de deficiências documentadas. Ácido folínico / leucovorina O ácido folínico representa uma das intervenções com resultados particularmente relevantes em subgrupos específicos de crianças com TEA. Um ensaio randomizado envolvendo 48 crianças com TEA e comprometimento de linguagem utilizou 2 mg/kg/dia, máximo de 50 mg/dia, durante 12 semanas, encontrando melhora da comunicação verbal em comparação ao placebo, sobretudo entre crianças positivas para autoanticorpos contra o receptor de folato. Outro ensaio randomizado utilizou a mesma dose máxima durante 24 semanas e encontrou melhora comportamental, novamente mais pronunciada em crianças com títulos elevados de autoanticorpos. Estudos adicionais identificaram benefícios em determinados sintomas comportamentais e na fala. Aplicação clínica: os resultados sugerem potencial benefício em fenótipos biologicamente definidos, mas ainda são necessários estudos maiores e padronizados antes de uma recomendação generalizada. Vitamina D A deficiência de vitamina D é frequente em populações pediátricas com transtornos psiquiátricos. Em um estudo citado pelos autores, aproximadamente 77% das crianças e adolescentes avaliados apresentavam deficiência. Metanálises de ensaios randomizados sugerem possíveis benefícios em determinados componentes do TEA, incluindo estereotipias e alguns aspectos sociais e comportamentais, porém sem demonstração uniforme de melhora global dos sintomas centrais. Os resultados são limitados pelo pequeno tamanho das amostras, seguimento curto e heterogeneidade de doses e protocolos. Aplicação clínica: a correção da deficiência é justificável, mas as evidências não sustentam suplementação indiscriminada como tratamento específico do TEA. Dieta anti-inflamatória e alimentos ultraprocessados Padrões alimentares ricos em frutas, vegetais, nozes, sementes, peixes, azeite e grãos integrais apresentam propriedades antioxidantes e anti-inflamatórias e podem modular microbiota e inflamação sistêmica. Em contraste, maior consumo de alimentos ultraprocessados está associado, em estudos observacionais e metanálises, a pior saúde mental e maior sintomatologia de TDAH. Apesar da plausibilidade biológica, os autores consideram os achados ainda preliminares para estabelecer uma intervenção terapêutica específica sobre os transtornos do neurodesenvolvimento. N-acetilcisteína A NAC pode aumentar os níveis de glutationa e modular a neurotransmissão glutamatérgica. Ensaios clínicos apresentaram resultados heterogêneos. Um estudo utilizando até 2.700 mg/dia encontrou redução significativa da irritabilidade em crianças com TEA,
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