Profilaxia com vitamina K em recém-nascidos e sangramento na infância. Sobre o artigo A deficiência de vitamina K pode provocar sangramento por deficiência de vitamina K (Vitamin K Deficiency Bleeding – VKDB), condição rara, porém potencialmente grave e fatal no período neonatal e nos primeiros meses de vida. Os recém-nascidos apresentam vulnerabilidade particular devido à limitada transferência transplacentária de vitamina K, às baixas concentrações dessa vitamina no leite materno e à incapacidade da microbiota intestinal inicial de produzir quantidades adequadas. Distúrbios gastrointestinais que comprometem sua absorção podem aumentar ainda mais o risco. A administração intramuscular de vitamina K ao nascimento é utilizada há décadas e demonstrou prevenir efetivamente a VKDB. Embora esquemas orais sejam empregados como alternativa, sua efetividade é considerada inferior à administração intramuscular. Na Suécia, a profilaxia intramuscular foi introduzida nacionalmente em 1961. Após uma mudança para administração oral em 1986, houve ressurgimento de casos de VKDB, levando ao retorno da profilaxia intramuscular. Desde 1989, todos os recém-nascidos no país recebem a oferta de uma dose única de vitamina K intramuscular ao nascimento. Diante de relatos internacionais de aumento da recusa parental da profilaxia, os autores investigaram a evolução temporal da não administração da vitamina K intramuscular na Suécia e sua associação com diagnósticos de sangramento durante os primeiros seis meses de vida. Métodos utilizados Foi realizado um estudo de coorte nacional, incluindo nascimentos ocorridos na Suécia entre 1º de janeiro de 2003 e 31 de dezembro de 2021. Foram elegíveis recém-nascidos vivos com idade gestacional igual ou superior a 35 semanas. Foram excluídos natimortos, recém-nascidos sem número de identificação pessoal, casos com idade gestacional ausente, crianças com hemofilia e registros específicos considerados potencialmente comprometidos por erro de documentação. A população final foi composta por 2.020.302 recém-nascidos vivos. A exposição principal foi a ausência de registro de administração intramuscular de vitamina K ao nascimento. O desfecho primário foi qualquer diagnóstico de sangramento nos primeiros seis meses de vida. O sangramento intracraniano constituiu um dos principais desfechos secundários. Os pesquisadores também avaliaram sangramentos ocorridos nos primeiros 28 dias de vida. Os dados do Swedish Medical Birth Register foram vinculados a diversos registros nacionais suecos, incluindo registros de pacientes, qualidade neonatal, mortalidade, população e educação. Foram utilizados modelos de regressão logística para calcular odds ratios (OR) e odds ratios ajustados (aOR), com intervalos de confiança de 95%. Os modelos consideraram potenciais confundidores maternos, obstétricos e neonatais, incluindo idade materna, escolaridade, país de nascimento materno, coabitação com parceiro, paridade, ano do nascimento, tipo de parto, idade gestacional, peso para idade gestacional e sexo do recém-nascido. Também foram conduzidas análises de sensibilidade para avaliar a robustez dos resultados diante de possíveis problemas de documentação e confundimento residual. Resultados Dos 2.020.302 recém-nascidos incluídos, 24.089 (1,19%) não apresentavam registro de administração intramuscular de vitamina K ao nascimento. A proporção de recém-nascidos sem registro da profilaxia caiu inicialmente de 1,32% em 2003 para 0,66% em 2006, mas posteriormente apresentou crescimento progressivo, atingindo 1,50% em 2021. A tendência de aumento foi estatisticamente significativa. Houve também variação regional importante na ausência de profilaxia documentada, com percentuais mais elevados em determinadas regiões suecas. Sangramento nos primeiros seis meses A ausência de vitamina K intramuscular esteve associada a maior ocorrência de sangramento. Para qualquer diagnóstico de sangramento nos primeiros seis meses: aOR 1,52; IC95% 1,27–1,81. As taxas foram de aproximadamente 636,1 por 100.000 nascidos vivos entre crianças sem registro de vitamina K intramuscular e 379,6 por 100.000 entre aquelas que receberam a profilaxia. Para sangramento intracraniano nos primeiros seis meses, a associação foi ainda mais expressiva: aOR 2,91; IC95% 2,13–3,96. Sangramento no período neonatal Nos primeiros 28 dias de vida, recém-nascidos sem registro de vitamina K intramuscular apresentaram: Qualquer sangramento: aOR 2,62; IC95% 1,99–3,44. Sangramento intracraniano: aOR 2,90; IC95% 2,08–4,05. Vitamina K oral Entre 2012 e 2021, havia informações sobre a administração oral para 1.104.427 recém-nascidos. Entre os 14.776 sem registro de vitamina K intramuscular, 1.457 (9,9%) receberam vitamina K oral. A administração oral aumentou ao longo do período estudado. Entretanto, os recém-nascidos que receberam vitamina K oral apresentaram maior odds de sangramento em comparação com aqueles que receberam a formulação intramuscular: Sangramento até seis meses: aOR 2,26; IC95% 1,33–3,84. Sangramento até 28 dias: aOR 3,74; IC95% 1,55–9,04. Os próprios autores ressaltam que esses achados sobre a via oral devem ser interpretados com cautela devido ao pequeno número de crianças nesse grupo. As diferentes análises de sensibilidade produziram resultados semelhantes aos da análise principal. Discussão O estudo demonstra que, embora a ausência de profilaxia intramuscular com vitamina K permaneça relativamente incomum na Suécia, sua frequência aumentou ao longo dos anos. O principal achado clínico foi a associação consistente entre ausência da administração intramuscular e maior risco de sangramento durante a infância, particularmente hemorragia intracraniana, uma das manifestações mais graves relacionadas à deficiência de vitamina K. Os autores destacam ainda que a vitamina K oral parece proporcionar profilaxia menos confiável que a via intramuscular. Entre as possíveis explicações estão a necessidade de doses repetidas e a dependência da adesão familiar ao esquema após a alta. Além disso, condições gastrointestinais ou hepáticas podem comprometer a efetividade da administração oral. Nos partos domiciliares registrados entre 2018 e 2021, quase dois terços dos recém-nascidos não tinham documentação da administração intramuscular. Entretanto, os autores reconhecem que esse resultado pode refletir parcialmente subnotificação em ambientes fora do hospital. O estudo reforça a importância da comunicação entre profissionais de saúde e famílias sobre a finalidade da profilaxia. Segundo os autores, a orientação deve começar ainda durante o pré-natal e ser clara e transparente, favorecendo uma decisão informada. Entre os principais pontos fortes estão a dimensão da coorte, a abrangência nacional, o uso de registros prospectivos de elevada cobertura e as múltiplas análises de sensibilidade. As limitações incluem possibilidade de erros de classificação da exposição, diferenças regionais de registro, ausência de determinados confundidores, falta de informações sobre adesão ao esquema oral e ausência de confirmação clínica e laboratorial individual de VKDB. O desfecho utilizado correspondeu a diagnósticos registrados de sangramento atraumático, e não exclusivamente a casos
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