Vacina da gripe reduz em 80% o risco de morte por influenza em crianças, aponta estudo do CDC

Análise conduzida ao longo de oito temporadas e mais de 1.200 óbitos confirmados mostra que a proteção se mantém mesmo em crianças sem doenças de base. Na temporada mais recente, 91% das crianças que foram a óbito não estavam vacinadas.
Fonte: medRxiv

Análise conduzida ao longo de oito temporadas e mais de 1.200 óbitos confirmados mostra que a proteção se mantém mesmo em crianças sem doenças de base. Na temporada mais recente, 91% das crianças que foram a óbito não estavam vacinadas.

 


A vacina da gripe reduziu em 80% o risco de morte por influenza em crianças e adolescentes de 6 meses a 17 anos, segundo estudo publicado em fevereiro de 2026 por pesquisadores dos Centros de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos (CDC). Os dados abrangem oito temporadas consecutivas, de 2016 a 2025, e incluem 1.234 óbitos confirmados laboratorialmente.

A temporada mais letal desde o início do monitoramento

A temporada 2024-2025 registrou 252 mortes infantis por influenza, o maior número desde que os EUA começaram a monitorar esse dado, em 2004. Nessa mesma temporada, apenas 9% das crianças que foram a óbito tinham recebido a vacina da gripe, o menor percentual de toda a série histórica analisada.

Para efeito de comparação, a cobertura vacinal média entre crianças americanas saudáveis foi de 49% no mesmo período. A diferença entre quem morreu e quem estava protegido é o que sustenta a estimativa de 80% de efetividade.

Crianças saudáveis também estão em risco

Um dos achados que mais chama atenção no estudo é que metade dos óbitos ocorreu em crianças sem nenhuma doença prévia conhecida. Nesse grupo, apenas 12% tinham recebido a vacina da gripe, e a efetividade estimada foi de 87%, a mais alta entre todos os perfis analisados.

Entre as crianças com ao menos uma condição de saúde associada a maior risco de complicações por influenza, como doenças neurológicas, cardíacas ou pulmonares, a vacinação reduziu o risco de morte em 77%. Nesses casos, 23% dos que foram a óbito estavam vacinados.

Os pesquisadores também observaram que crianças pequenas, de 6 meses a 4 anos, foram as mais beneficiadas pela vacina da gripe: a efetividade chegou a 89% entre as saudáveis e a 83% entre as com condições de risco.

Queda na vacinação preocupa especialistas

Desde 2021, as taxas de vacinação contra influenza em crianças americanas caem ano após ano. Esse declínio acontece num momento em que o número de mortes infantis pela doença bate recordes, e a combinação dos dois fatores é o pano de fundo em que o estudo foi produzido.

Os autores verificaram a robustez dos resultados em diferentes cenários, inclusive assumindo que as pesquisas populacionais superestimam a vacinação real em até 20%. Ainda assim, a efetividade da vacina da gripe se manteve estatisticamente significativa em todas as faixas etárias e condições de saúde analisadas.

Como o estudo foi feito

Os pesquisadores compararam o status vacinal de crianças que foram a óbito por influenza com estimativas de cobertura vacinal em grupos da mesma faixa etária e estado de residência, obtidas por duas pesquisas nacionais americanas: a NIS-Flu e a NHIS. Os dados de óbito vieram do Sistema de Vigilância de Mortalidade Pediátrica Associada à Influenza dos EUA, que coleta informações de prontuários médicos, registros de imunização e relatos de pais e responsáveis.

A temporada 2020-2021 foi excluída da análise porque as medidas de controle da COVID-19 praticamente eliminaram a circulação do vírus influenza naquele período.

O que os autores concluem

Os pesquisadores do CDC concluem que a vacina da gripe protegeu de forma consistente contra morte por influenza em crianças de todas as faixas etárias, com e sem doenças de base, ao longo de oito temporadas consecutivas. A proteção foi observada tanto para o vírus influenza A quanto para o B.

O estudo reforça que a recomendação de vacinação anual contra a gripe a partir dos 6 meses de idade é sustentada por evidências sólidas, e que o cenário atual, com recordes de óbitos e queda na cobertura vacinal, torna esses dados ainda mais relevantes para pediatras, famílias e gestores de saúde pública.

O que isso aponta para a pediatria brasileira

Os dados são americanos, mas a biologia da influenza não tem passaporte. O vírus que mata crianças nos Estados Unidos é o mesmo que circula no Brasil todo inverno, e as condições que tornam uma criança vulnerável a complicações graves são as mesmas em qualquer latitude.

Por isso, os achados desse estudo têm leitura direta para o contexto brasileiro, especialmente num momento em que a vacina da gripe segue sendo subutilizada mesmo com oferta gratuita pelo Sistema Único de Saúde.

O risco das crianças saudáveis é o ponto mais urgente. O estudo mostrou que metade dos óbitos ocorreu em crianças sem nenhuma doença prévia conhecida, e que apenas 12% delas tinham recebido a vacina da gripe. Essa é uma informação que muda a conversa na consulta de puericultura. Quando a vacina da gripe é apresentada como uma medida para “crianças de risco”, famílias de crianças saudáveis tendem a não ver urgência. Os números sugerem que esse raciocínio custa vidas.

O papel do pediatra é insubstituível nessa equação. Estudos sobre comportamento vacinal mostram, de forma consistente, que a recomendação direta do pediatra é o fator que mais influencia a decisão das famílias. A queda na cobertura vacinal não é um fenômeno exclusivamente americano. O Brasil também enfrenta variações significativas nas taxas de adesão à vacina da gripe, com coberturas que oscilam entre regiões, faixas etárias e grupos socioeconômicos. Crianças em áreas rurais e com menor acesso a serviços de saúde tendem a ficar de fora, mesmo sendo elegíveis pelo calendário do PNI.

Há um ponto de atenção metodológico que vale registrar. O estudo ainda não passou por revisão formal de pares, o que significa que seus métodos e conclusões não foram avaliados de forma independente pela comunidade científica. Ainda assim, o tamanho da amostra, a consistência dos resultados ao longo de oito temporadas e a origem dos dados, o sistema de vigilância epidemiológica do CDC, conferem peso considerável às estimativas.

Para a pediatria brasileira, a mensagem prática é direta: a vacina da gripe salva crianças. E a consulta de puericultura é o momento mais efetivo para garantir que essa proteção chegue a quem precisa.

Fonte: Leonard JS, Reinhart K, Lu PJ et al. Influenza Vaccine Effectiveness Against Pediatric Deaths: 2016–2025. medRxiv. 22 fev. 2026. DOI: https://doi.org/10.64898/2026.02.20.26346732

Este artigo é um preprint e ainda não foi submetido à revisão formal por pares. Seus achados não devem ser utilizados para guiar decisões clínicas individuais sem acompanhamento profissional.

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