Estudo de coorte observacional prospectivo-retrospectivo dos desfechos de saúde em curto prazo de prematuros de muito baixo peso submetidos à administração orofaríngea do colostro da própria mãe

Estudo de coorte observacional prospectivo-retrospectivo dos desfechos de saúde em curto prazo de prematuros de muito baixo peso submetidos à administração orofaríngea do colostro da própria mãe Sobre o artigo Prematuros e recém-nascidos de muito baixo peso ao nascer (MBP) apresentam risco elevado de complicações graves, especialmente enterocolite necrosante (ECN) e sepse. O colostro da própria mãe contém componentes imunológicos e fatores de crescimento, incluindo IgA secretora, lactoferrina, leucócitos, fator de crescimento epidérmico e citocinas, potencialmente importantes para maturação intestinal e desenvolvimento da imunidade neonatal. A administração orofaríngea do colostro possibilita o contato desses componentes bioativos com o tecido linfoide associado à orofaringe, potencialmente favorecendo ativação da imunidade de mucosa, integridade da barreira intestinal e modulação da colonização microbiana. O estudo teve como objetivo avaliar se a administração orofaríngea precoce do colostro da própria mãe estaria associada à redução da incidência de ECN e sepse neonatal precoce em prematuros com peso ao nascer inferior a 1.500 g, além de avaliar desfechos nutricionais, mortalidade, segurança e viabilidade da estratégia. Métodos utilizados Foi realizado estudo observacional de coorte, unicêntrico, em uma UTI neonatal nível III de hospital terciário em Pune, Índia. Foram incluídos 302 prematuros com muito baixo peso ao nascer, divididos igualmente em dois grupos: Grupo OMC (n = 151): coorte prospectiva, acompanhada entre abril de 2021 e junho de 2022, submetida à administração orofaríngea do colostro da própria mãe. Grupo controle (n = 151): coorte retrospectiva composta por pacientes internados entre janeiro e dezembro de 2019, período no qual a intervenção não era realizada. Foram elegíveis prematuros com idade gestacional inferior a 37 semanas e peso ao nascer <1.500 g. Foram excluídos aqueles nos quais a administração do colostro não pudesse ser iniciada nas primeiras 24 horas, quando a mãe não desejasse ou não conseguisse ordenhar o colostro ou existisse contraindicação ao leite materno. No grupo de intervenção, o colostro era aplicado delicadamente nas mucosas jugais direita e esquerda utilizando o dedo mínimo da mãe ou da equipe de enfermagem, seguindo medidas rigorosas de higiene das mãos. O procedimento foi realizado a cada 3 horas durante 48 horas consecutivas. Os desfechos primários foram ECN e sepse neonatal precoce (EOS). A ECN foi classificada pelos critérios de Bell modificados por Walsh e Kliegman. A sepse foi dividida em precoce (<72 horas) e tardia (>72 horas), contemplando sepse clínica e comprovada. Os desfechos secundários incluíram tempo até dieta enteral plena, ganho de peso, duração da internação, mortalidade e destino hospitalar. A análise estatística utilizou IBM SPSS Statistics 20. Foi realizada regressão logística multivariável para ajuste de potenciais confundidores, incluindo cesariana, síndrome do desconforto respiratório (SDR) e idade gestacional. Resultados Os 302 recém-nascidos apresentaram idade gestacional média de 32,1 semanas e peso médio ao nascer de 1.324,2 g. Os grupos apresentavam idade gestacional e peso semelhantes, embora existissem diferenças basais relevantes: SDR foi mais frequente no grupo controle (71,5% versus 50,3%), enquanto cesariana foi mais frequente no grupo OMC (47,0% versus 22,5%). Enterocolite necrosante A ECN ocorreu em: OMC: 7/151 (4,6%) Controle: 18/151 (11,9%) P = 0,007 Após ajuste para cesariana, SDR e idade gestacional, a administração do colostro permaneceu independentemente associada à menor ocorrência de ECN: OR 0,35; IC95% 0,14–0,89; P = 0,028. A redução absoluta de risco foi de 7,3%, correspondendo a NNT estimado de 14 (IC95% 7–50). Os autores ressaltam que esse NNT deriva de comparação observacional e não deve ser interpretado como estimativa definitiva de eficácia. Sepse neonatal A sepse neonatal precoce ocorreu em: OMC: 15/151 (9,9%) Controle: 28/151 (18,5%) A sepse clínica precoce foi menos frequente no grupo que recebeu colostro. Em contraste, não houve redução significativa da sepse neonatal tardia. A redução absoluta de risco calculada para EOS foi de 8,6%, com NNT estimado de 12 (IC95% 7–33). Alimentação enteral Os recém-nascidos que receberam colostro atingiram dieta enteral plena mais rapidamente: OMC: 6,8 ± 4,2 dias Controle: 9,2 ± 6,1 dias P < 0,001 Ganho ponderal O ganho médio de peso foi: OMC: 4,45 ± 8,12 g/kg/dia Controle: 2,66 ± 8,23 g/kg/dia P < 0,05 A diferença apresentou IC95% de 0,15–3,63 g/kg/dia. Mortalidade A mortalidade hospitalar foi numericamente inferior no grupo OMC: OMC: 2/151 (1,3%) Controle: 12/151 (7,9%) P < 0,05 A diferença foi mais pronunciada entre recém-nascidos de 29–32 semanas. Entretanto, a mortalidade era desfecho secundário, e o estudo não foi dimensionado especificamente para demonstrar diferença nesse resultado. Os próprios autores classificam esse achado como gerador de hipótese. Tempo de internação Não houve diferença significativa: OMC: 20,9 ± 10,1 dias Controle: 20,0 ± 12,1 dias P = 0,536 Viabilidade e segurança Todas as mães incluídas aceitaram realizar a expressão do colostro, e 98% das administrações programadas foram concluídas. Não foram observados eventos adversos atribuíveis à administração orofaríngea. O procedimento demandou aproximadamente 5–10 minutos por administração e pôde ser incorporado ao fluxo assistencial da UTI neonatal. Discussão Os resultados demonstraram associação entre administração orofaríngea precoce do colostro da própria mãe e menor ocorrência de ECN e sepse neonatal precoce em prematuros de muito baixo peso. A plausibilidade biológica proposta envolve a exposição precoce do tecido linfoide orofaríngeo aos componentes imunológicos do colostro, incluindo IgA secretora, lactoferrina, citocinas e fatores de crescimento. Essa interação poderia favorecer ativação da imunidade de mucosa, maturação da barreira intestinal e proteção contra processos inflamatórios relacionados à ECN. Um achado particularmente relevante foi a redução da sepse precoce, mas não da sepse tardia. Os autores consideram esse padrão compatível com a hipótese de que o colostro administrado nas primeiras 48 horas exerça efeito de imunomodulação justamente durante o período relacionado à transmissão vertical. A sepse tardia, por outro lado, depende fortemente de exposições ambientais, procedimentos invasivos e microbiota da UTI neonatal. A associação com menor ECN persistiu após ajuste para diferenças basais importantes, particularmente SDR, cesariana e idade gestacional. Apesar disso, o desenho observacional não permite estabelecer causalidade. Entre as principais limitações estão a comparação entre uma coorte prospectiva de 2021–2022 e uma coorte retrospectiva de 2019, potencial viés temporal, confundimento residual, possível viés de sobrevivência nos resultados nutricionais, possibilidade de cointervenções

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