Fatores Demográficos e Atresia Biliar: Um Estudo da Rede de Pesquisa em Doenças Hepáticas da Infância

Fonte: American Academy of Pediatrics

Fatores Demográficos e Atresia Biliar: Um Estudo da Rede de Pesquisa em Doenças Hepáticas da Infância Sobre o artigo  A atresia biliar é a causa mais comum de insuficiência hepática na infância. O diagnóstico precoce seguido da portoenterostomia de Kasai (hepatoportoenterostomia, HPE) representa a principal oportunidade de estabelecer drenagem biliar e evitar ou postergar insuficiência hepática e transplante. Aproximadamente 40% dos lactentes submetidos à HPE alcançam drenagem biliar bem-sucedida, definida no estudo como bilirrubina total <2,0 mg/dL, e sobrevida com fígado nativo aos 2 anos. Entre os fatores prognósticos conhecidos relacionados ao paciente, a idade no momento da intervenção permanece como o único fator modificável. O estudo parte da preocupação de que disparidades no acesso à saúde possam atrasar o diagnóstico e tratamento da atresia biliar. Os autores avaliaram se privação socioeconômica da comunidade, raça e etnia estavam associadas à menor probabilidade de realização da HPE, maior idade na cirurgia, menor sucesso da drenagem biliar e menor sobrevida com fígado nativo. Métodos utilizados Foi analisada uma coorte prospectiva do estudo Prospective Database of Infants with Cholestasis (PROBE), pertencente à rede multicêntrica ChiLDReN. Foram incluídos pacientes com atresia biliar atendidos em centros norte-americanos da ChiLDReN entre junho de 2004 e maio de 2020. Os participantes tinham menos de 181 dias na apresentação e critérios laboratoriais de colestase. A análise incluiu informações clínicas, anatômicas e sociodemográficas, como sexo, raça e etnia relatadas pelos pais, presença de atresia biliar associada a malformações esplênicas (BASM), escolaridade dos pais, estado civil materno, tipo de seguro de saúde, localização geográfica, distância até o hospital, classificação anatômica de Ohi e fibrose hepática pelo escore de Ishak. A privação socioeconômica foi mensurada pelo Community Deprivation Index (CDI), em escala de 0 a 1, na qual valores maiores representam maior privação. O índice incorpora fatores como pobreza, renda familiar, escolaridade, ausência de seguro de saúde, recebimento de assistência pública e proporção de imóveis desocupados. Os principais desfechos foram: realização ou não de procedimento cirúrgico; idade no momento da HPE/exploração; drenagem biliar bem-sucedida até 3 meses após a cirurgia, definida como bilirrubina total <2 mg/dL; sobrevida com fígado nativo aos 2 anos. Foram empregados modelos de regressão logística e linear uni e multivariáveis, considerando P < 0,05 como estatisticamente significativo. Resultados Foram incluídos 719 lactentes com atresia biliar, dos quais 672 (93,5%) foram submetidos a uma operação no diagnóstico. Entre os operados, 96,3% receberam procedimento de drenagem, sendo 97% destes HPE. A idade mediana na operação foi de 62 dias. A privação comunitária foi maior entre os pacientes que não receberam cirurgia: CDI mediano de 0,419, comparado a 0,331 entre aqueles submetidos à operação. Após ajuste multivariável, três achados se destacaram em relação à probabilidade de realização da cirurgia: lactentes asiáticos apresentaram menor chance de operação em comparação aos brancos: OR 0,21; IC95% 0,06–0,77; lactentes hispânicos apresentaram menor chance que os não hispânicos: OR 0,33; IC95% 0,14–0,76; cada aumento de 0,1 no índice de privação comunitária esteve associado à redução da chance de operação: OR 0,71; IC95% 0,52–0,97. Entre os pacientes operados, lactentes negros/afro-americanos realizaram a cirurgia aproximadamente 9,2 dias mais tarde que lactentes brancos (estimativa 9,19; P=0,01). Além disso, cada aumento de 0,1 no CDI esteve associado a aproximadamente 2,3 dias adicionais até a cirurgia (estimativa 2,31; P=0,048). Drenagem biliar Após ajuste, o sucesso da drenagem esteve relacionado principalmente à anatomia da doença. Em comparação ao subtipo Ohi a: Ohi b: aOR 0,47; IC95% 0,27–0,79; P=0,005. Ohi c: aOR 0,43; IC95% 0,24–0,79; P=0,006. Raça e privação comunitária não permaneceram associadas de forma independente à drenagem biliar após a cirurgia. Sobrevida com fígado nativo A idade na cirurgia apresentou associação independente com o prognóstico. Para cada 7 dias adicionais de idade na HPE, houve redução de aproximadamente 10% nas chances de sobrevida com fígado nativo aos 2 anos: aOR 0,90; IC95% 0,83–0,97; P=0,006. O fator de maior magnitude associado à sobrevida com fígado nativo foi a drenagem biliar bem-sucedida: aOR 26,15; IC95% 15,23–44,88; P<0,001. Entre os pacientes que não receberam cirurgia no diagnóstico, 89,4% foram submetidos a transplante hepático primário durante o período do estudo. Discussão Os resultados indicam que fatores demográficos e socioeconômicos influenciam principalmente o acesso ao diagnóstico e ao tratamento cirúrgico oportuno da atresia biliar. Raça asiática, etnia hispânica e maior privação comunitária estiveram associadas à menor probabilidade de realização da HPE. Raça negra/afro-americana e maior privação comunitária, por sua vez, estiveram associadas a maior idade na cirurgia. Esse atraso tem relevância clínica porque a idade na HPE constitui um fator prognóstico modificável. Os autores estimam que um aumento de 30% na privação comunitária corresponderia a aproximadamente uma semana de atraso na HPE. Paralelamente, cada atraso de 7 dias esteve associado a redução de aproximadamente 10% nas chances de sobrevida com fígado nativo aos 2 anos. Uma vez realizada a cirurgia, entretanto, os resultados passaram a depender predominantemente de fatores relacionados à própria doença, particularmente anatomia da atresia biliar, idade na intervenção, presença de ascite e obtenção de drenagem biliar efetiva. Assim, os achados sugerem dois momentos distintos: fatores sociais e demográficos parecem influenciar a entrada no sistema de saúde e o acesso oportuno ao atendimento especializado; posteriormente, características anatômicas e clínicas assumem maior importância prognóstica. Os autores defendem estratégias capazes de reduzir barreiras ao diagnóstico precoce, destacando a possibilidade de rastreamento universal da atresia biliar. Um objetivo proposto seria identificar os pacientes, independentemente de suas características demográficas, antes dos 30 dias de vida. Entre as limitações, destacam-se o uso do CEP para determinação do CDI, ausência de consideração de mudanças de residência, inclusão exclusiva de pacientes atendidos em 15 grandes hospitais pediátricos da ChiLDReN e ausência de informações detalhadas sobre os motivos clínicos para não realização da cirurgia. Conclusão Lactentes com atresia biliar provenientes de comunidades com maior privação socioeconômica apresentam maior probabilidade de não realizar a HPE ou de realizá-la mais tardiamente. Raça e etnia também estiveram associadas a diferenças no acesso ou momento do tratamento cirúrgico. Entretanto, após a realização da HPE, a drenagem biliar e a sobrevida com fígado nativo foram determinadas

Faça login para acessar o conteúdo
ou cadastre-se.ESQUECI MINHA SENHA

Aulas relacionadas

Generic selectors
Exact matches only
Search in title
Search in content
Post Type Selectors
Este site é feito exclusivamente para profissionais de saúde.