Hemodinâmica na encefalopatia hipóxico-isquêmica neonatal

Fonte: Journal of Perinatology

Hemodinâmica na encefalopatia hipóxico-isquêmica neonatal Sobre o artigo  A encefalopatia hipóxico-isquêmica (EHI) é uma manifestação neurológica da hipóxia-isquemia perinatal, mas suas repercussões não se restringem ao sistema nervoso central. O insulto pode provocar disfunção multiorgânica e importante comprometimento cardiovascular, presente em aproximadamente 80% dos pacientes com EHI. A hipotermia terapêutica (HT) permanece uma das principais intervenções para reduzir morte e incapacidade neurológica. Entretanto, mesmo com seu uso, persiste morbimortalidade significativa e cerca de 30% dos sobreviventes apresentam deficiências relevantes do neurodesenvolvimento. O artigo chama atenção para um componente potencialmente modificável da lesão: a instabilidade hemodinâmica e a perfusão cerebral. Após a asfixia, alterações do débito cardíaco, resistência vascular pulmonar e sistêmica, função ventricular e autorregulação cerebral podem contribuir tanto para hipoperfusão quanto para hiperperfusão/reperfusão cerebral. Os autores defendem que pressão arterial, frequência cardíaca, lactato e outros parâmetros clínicos isolados são insuficientes para caracterizar adequadamente o estado circulatório. A avaliação deveria integrar fisiologia cardiovascular, ecocardiografia neonatal direcionada e monitorização cerebral multimodal.  Métodos utilizados Trata-se de uma revisão narrativa sobre a fisiopatologia cardiovascular associada à EHI, suas relações com lesão cerebral e desfechos, efeitos hemodinâmicos da hipotermia terapêutica e estratégias de suporte cardiovascular. O artigo reúne dados de estudos observacionais, coortes prospectivas e retrospectivas, ensaios clínicos, revisões sistemáticas e estudos experimentais. São analisadas evidências relacionadas a: circulação fetal e resposta cardiovascular à asfixia; autorregulação e perfusão cerebral; função ventricular direita e esquerda; hipertensão pulmonar; ecocardiografia neonatal direcionada; Doppler cerebral e índice de resistência; fluxo da veia cava superior; NIRS; monitorização não invasiva do débito cardíaco; troponina T; hipotermia e reaquecimento; uso de inotrópicos, vasopressores, vasodilatadores pulmonares e hidrocortisona. Por se tratar de revisão narrativa, os autores não descrevem uma estratégia sistemática de busca, critérios formais de inclusão/exclusão ou metanálise própria.  Resultados Alterações cardiovasculares após a asfixia Durante a hipóxia-isquemia fetal ocorre redistribuição do fluxo sanguíneo para cérebro, coração e adrenais, fenômeno conhecido como “diving reflex”. Embora inicialmente protetor, esse mecanismo associa-se a vasoconstrição sistêmica e pulmonar e pode dificultar a transição cardiopulmonar após o nascimento. No período neonatal pode persistir resistência vascular pulmonar elevada, favorecendo shunt direita-esquerda pelo canal arterial e comunicação atrial. Como consequência, sangue menos oxigenado pode alcançar a circulação pré-ductal, incluindo cérebro e coronárias. O miocárdio neonatal também é vulnerável à hipóxia. A lesão pode ser identificada por alterações eletrocardiográficas e elevação de troponina T. Em uma coorte de 63 recém-nascidos com EHI, a troponina T apresentou AUC de 0,803 para mortalidade hospitalar, com sensibilidade de 82% e especificidade de 80%. A hipotensão sistêmica é frequente e possui etiologia multifatorial, incluindo disfunção miocárdica isquêmica, hipovolemia, aumento da pressão intratorácica, insuficiência adrenal e efeitos da sedação. Autorregulação cerebral e lesão por reperfusão Após o insulto hipóxico-isquêmico, a autorregulação cerebral pode estar comprometida. Nessa condição, a circulação cerebral torna-se mais dependente da pressão arterial sistêmica, aumentando a vulnerabilidade tanto à hipoperfusão quanto à hiperperfusão. Um estudo utilizando NIRS observou que pressão arterial média de pelo menos 50 mmHg esteve associada à melhor preservação da autorregulação cerebral. Maior tempo fora da faixa considerada ótima foi associado a lesão cerebral mais grave na ressonância magnética. Um dos pontos centrais da revisão é que mais fluxo não significa necessariamente melhor perfusão cerebral. Diferentes coortes associaram maior débito cardíaco, maior fluxo de veia cava superior e maior proporção do débito direcionado à circulação pré-ductal a alterações na neuroimagem e desfechos desfavoráveis. A elevação da saturação regional cerebral pela NIRS também foi associada a piores desfechos neurológicos em diferentes estudos, podendo refletir hiperperfusão, menor extração de oxigênio ou redução da demanda metabólica cerebral. Função ventricular e prognóstico O ventrículo direito (VD) recebe destaque especial. Por características anatômicas e funcionais, ele é particularmente vulnerável ao aumento da pós-carga pulmonar e à redução da perfusão coronariana após asfixia. Em estudo prospectivo, a função do VD atingiu seu pior desempenho aproximadamente 24 horas após o nascimento, com recuperação até 96 horas. Dois parâmetros ecocardiográficos apresentaram associação importante com desfechos adversos: TAPSE < 6 mm: sensibilidade de 78%, especificidade de 81% e AUC de 0,83. RVFAC < 29%: sensibilidade de 83%, especificidade de 84% e AUC de 0,88. Além disso, TAPSE < 6 mm apresentou associação independente com piores escores de Bayley aos 18 meses (OR 3,6; IC95% 1,2–10,1). Disfunção ventricular esquerda e hipertensão pulmonar também foram relacionadas a maior risco de morte ou lesão cerebral. Doppler cerebral O índice de resistência (RI) das artérias cerebral média ou cerebral anterior pode fornecer informação indireta sobre a circulação cerebral. Um RI baixo após asfixia em recém-nascidos a termo pode representar “luxury perfusion”, compatível com hiperperfusão e falha da autorregulação. Valores elevados, por outro lado, podem ocorrer em diversas condições, incluindo edema cerebral, persistência do canal arterial, isquemia cardíaca, convulsões e pneumotórax. Efeitos cardiovasculares da hipotermia terapêutica A HT modifica significativamente a hemodinâmica. Entre os efeitos descritos estão aumento do tônus vascular pulmonar, bradicardia e redução do débito cardíaco. Em ensaios randomizados houve tendência não significativa de maior ocorrência de hipertensão pulmonar aguda durante HT (RR 1,36; IC95% 0,94–1,97), além de aumento de aproximadamente 12 vezes na ocorrência de bradicardia. Após o reaquecimento ocorre recuperação progressiva do débito ventricular esquerdo e redução da resistência vascular sistêmica, acompanhadas por aumento da frequência cardíaca e vasodilatação. Ao mesmo tempo, há evidências de que a hipotermia possa reduzir a lesão miocárdica por reperfusão, demonstrando que seus efeitos cardiovasculares são complexos e não exclusivamente deletérios. Limitações da avaliação hemodinâmica convencional Pressão arterial, frequência cardíaca, tempo de enchimento capilar, diurese e lactato apresentam limitações importantes. Um recém-nascido com EHI pode apresentar pressão arterial aparentemente adequada e, simultaneamente, perfusão sistêmica comprometida devido à vasoconstrição periférica. Da mesma forma, a concentração de lactato não apresenta correlação suficientemente confiável com o débito cardíaco em tempo real. Por isso, os autores questionam estratégias terapêuticas baseadas exclusivamente em valores numéricos de pressão arterial. Inotrópicos A dopamina continua sendo amplamente utilizada como primeira linha para hipotensão neonatal e efetivamente aumenta a pressão arterial. Entretanto, o artigo destaca preocupações quanto ao seu uso indiscriminado na EHI. Dados observacionais associaram tratamento com dopamina a

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