Tendências temporais da duração e suficiência do sono em adolescentes Sobre o artigo A insuficiência de sono constitui um problema persistente entre adolescentes. Além da redução fisiológica e comportamental do tempo disponível para dormir durante essa fase da vida, os jovens enfrentam pressões escolares, familiares e sociais, horários escolares precoces e desalinhamento entre os horários impostos socialmente e a biologia circadiana da adolescência. O problema tem relevância clínica porque o sono insuficiente durante a adolescência está associado a consequências para a saúde, desempenho escolar e funcionamento psicossocial. O artigo destaca ainda associações descritas entre sono inadequado e marcadores de saúde cardiometabólica, além da possibilidade de padrões inadequados de sono persistirem na vida adulta. Dados anteriores do estudo Monitoring the Future (MTF) já haviam demonstrado redução da duração do sono entre adolescentes norte-americanos entre 1991 e 2012. Desde então, ocorreram importantes transformações no contexto dos adolescentes, incluindo ampla disseminação de smartphones, mídias sociais, novas tecnologias digitais e a pandemia de COVID-19. O objetivo deste estudo foi atualizar as tendências de duração e suficiência subjetiva do sono segundo idade, período e coorte, incorporando dados até 2023 e examinando especialmente as desigualdades sociodemográficas. Métodos utilizados Os autores utilizaram dados do Monitoring the Future, estudo contínuo e nacionalmente representativo de adolescentes dos Estados Unidos. São realizadas pesquisas transversais anuais em estudantes do 8º, 10º e 12º anos escolares. A análise incluiu dados coletados entre 1991 e 2023, representando aproximadamente coortes de nascimento de 1972 a 2011. Foram incluídos 401.160 adolescentes que responderam a pelo menos uma das duas questões relacionadas aos desfechos de sono. Foram avaliados dois desfechos principais: Duração do sono: frequência com que o adolescente dormia pelo menos 7 horas. Foram considerados como dormindo regularmente ≥7 horas aqueles que responderam “todos os dias” ou “quase todos os dias”. Suficiência subjetiva do sono: frequência com que o participante dormia menos do que considerava necessário. Foram classificados como tendo percepção de sono suficiente aqueles que responderam “nunca” ou “raramente”. As características demográficas analisadas incluíram sexo, raça/etnia, escolaridade dos pais e residência urbana ou não urbana. As estimativas foram ponderadas considerando o desenho amostral complexo do MTF. Os pesquisadores utilizaram modelos de idade-período-coorte (age-period-cohort, APC) para avaliar separadamente os efeitos associados à idade do adolescente, ao período histórico da avaliação e à coorte de nascimento. Também foram realizadas regressões logísticas ponderadas em intervalos de cinco anos, exceto para o período final de 2021–2023, avaliando as associações entre características demográficas e os dois desfechos de sono. Esses modelos tiveram finalidade descritiva e não foram interpretados como relações causais. Resultados O achado central foi uma deterioração progressiva do sono dos adolescentes ao longo das últimas décadas, particularmente evidente nos anos mais recentes. A prevalência de dormir regularmente pelo menos 7 horas diminuiu progressivamente com a idade. Além disso, adolescentes de uma mesma idade avaliados nos anos mais recentes apresentaram menor duração de sono do que adolescentes daquela idade avaliados em décadas anteriores. No período de 2021–2023, foi observada a menor prevalência de sono ≥7 horas em todas as idades estudadas: 12–13 anos: 37,2%; 18–19 anos: 22,3%. Para a percepção subjetiva de “dormir o suficiente”, 2021–2023 apresentou as menores prevalências entre adolescentes de 12 a 16 anos, variando de 29,1% aos 12–13 anos a 21,3% aos 16 anos. Nos participantes de 17 anos ou mais, as menores prevalências ocorreram entre 2016 e 2020. Os modelos idade-período-coorte mostraram redução da duração do sono associada ao avanço da idade e quedas recentes relacionadas tanto ao período quanto às coortes. Para o desfecho de dormir ≥7 horas, observou-se forte tendência descendente nos anos mais recentes. Desigualdades sociodemográficas Um dos resultados mais relevantes foi o aumento das diferenças entre determinados grupos populacionais. Entre 1991–1995, adolescentes negros não hispânicos apresentavam probabilidade praticamente equivalente à dos adolescentes brancos não hispânicos de dormir ≥7 horas: OR 0,99; IC95% 0,92–1,07. Em 2021–2023, adolescentes negros apresentavam menor chance de alcançar esse tempo de sono: OR 0,79; IC95% 0,67–0,93. Também foi observada redução relativa entre adolescentes hispânicos/latinos em comparação aos brancos não hispânicos: OR 0,82; IC95% 0,72–0,92 em 2021–2023. A escolaridade dos pais mostrou diferença crescente. Adolescentes com pelo menos um dos pais com graduação universitária apresentavam maior chance de dormir ≥7 horas em todos os períodos, mas essa diferença aumentou: 1991–1995: OR 1,18; IC95% 1,13–1,23. 2021–2023: OR 1,57; IC95% 1,40–1,76. As adolescentes do sexo feminino apresentaram consistentemente menor prevalência dos dois desfechos favoráveis de sono. Participantes residentes em áreas não urbanas apresentaram maiores chances de ambos os desfechos quando comparados aos residentes em áreas urbanas. Apesar das diferenças entre os subgrupos, todos os grupos demográficos apresentaram deterioração dos indicadores de sono entre 1991 e 2023. Discussão Os resultados ampliam uma tendência previamente identificada no MTF até 2012: a duração do sono dos adolescentes continuou piorando durante a década seguinte. Além da associação esperada entre maior idade e menor duração do sono, o estudo demonstra um importante efeito temporal: adolescentes de todas as idades avaliados nos últimos dez anos apresentaram pior duração de sono em comparação com adolescentes das mesmas idades em décadas anteriores. Outro aspecto de destaque foi a ampliação das desigualdades. A diferença na duração do sono entre adolescentes negros e hispânicos/latinos e adolescentes brancos aumentou ao longo do tempo. Da mesma forma, aumentou a diferença relacionada à escolaridade parental. Os autores observam que o estudo não permite determinar quais fatores provocaram a deterioração do sono. Embora as tendências coincidam temporalmente com o aumento do uso de smartphones e mídias sociais, o estudo não avaliou diretamente uma relação causal entre essas tecnologias e a redução do sono. Entre possíveis intervenções populacionais, os autores destacam a mudança do horário de início das aulas. Horários escolares mais tardios podem alinhar melhor a rotina escolar à biologia circadiana dos adolescentes e são apontados no artigo como uma intervenção estrutural respaldada pela literatura para aumentar a duração do sono e reduzir desalinhamento circadiano e social jet lag. Limitações As principais limitações reconhecidas pelos autores foram: medidas de sono autorreferidas e relativamente pouco detalhadas; ausência de diferenciação entre noites escolares
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