Avaliação do valor preditivo dos gases sanguíneos do cordão umbilical e do recém-nascido na encefalopatia hipóxico-isquêmica.

Fonte: The Journal of Pediatrics

Avaliação do valor preditivo dos gases sanguíneos do cordão umbilical e do recém-nascido na encefalopatia hipóxico-isquêmica Sobre o artigo  A encefalopatia hipóxico-isquêmica (EHI) permanece uma importante causa de morbidade neurológica neonatal, associada a maior risco de convulsões, paralisia cerebral e outros desfechos adversos do neurodesenvolvimento. A hipotermia terapêutica é a intervenção estabelecida para recém-nascidos elegíveis, mas a identificação precoce daqueles com maior risco de lesão cerebral continua sendo um desafio clínico. Tradicionalmente, a gasometria arterial do cordão umbilical é utilizada para documentar acidemia fetal e auxiliar na avaliação da elegibilidade para hipotermia terapêutica. Entretanto, estudos prévios apresentaram resultados inconsistentes quanto à capacidade desses parâmetros de predizer a gravidade da encefalopatia e da lesão cerebral. O estudo de Rieger et al. investigou se as gasometrias pós-natais obtidas precocemente poderiam apresentar associação mais consistente com a gravidade da EHI e com a extensão da lesão cerebral identificada pela ressonância magnética (RM). O objetivo foi avaliar a relação entre parâmetros gasométricos do cordão umbilical e do recém-nascido, gravidade clínica da encefalopatia e intensidade da lesão cerebral na RM. Métodos utilizados Foi realizado estudo retrospectivo, unicêntrico, incluindo recém-nascidos avaliados entre janeiro de 2023 e dezembro de 2024 em uma unidade de terapia intensiva neonatal de nível 4. Foram incluídos 168 recém-nascidos submetidos à hipotermia terapêutica por encefalopatia neonatal. A avaliação para hipotermia contemplava idade gestacional ≥35 semanas, encefalopatia clínica e evidências de risco para lesão cerebral hipóxico-isquêmica. Foram analisados dados demográficos, pré-natais e clínicos, além de: gasometria arterial e venosa do cordão umbilical; gasometria pós-natal arterial, venosa ou capilar obtida dentro da primeira hora de vida; pH, déficit de base (BD) e bicarbonato (HCO3); gravidade da encefalopatia pelo Score of the Iberoamerican Society of Neonatology (SIBEN); gravidade da lesão cerebral pela RM utilizando o escore de Weeke. As ressonâncias foram realizadas após a conclusão da hipotermia terapêutica, geralmente no 4º ou 5º dia de vida, e avaliadas de forma independente por médicos que desconheciam o curso clínico e os resultados laboratoriais. Um escore de Weeke ≥11 foi definido como lesão cerebral moderada a grave. Foram utilizados modelos de regressão logística para estudar a associação entre os parâmetros gasométricos e os desfechos. Curvas ROC e índice de Youden foram empregados para identificar pontos de corte das gasometrias pós-natais relacionados à lesão cerebral moderada a grave e à encefalopatia clínica moderada a grave. As análises principais foram não ajustadas, pois havia apenas 20 pacientes com lesão moderada a grave pela RM, limitando a possibilidade de ajuste adequado para potenciais confundidores. Resultados A coorte final incluiu 168 recém-nascidos, com idade gestacional mediana de 39 semanas e peso ao nascer mediano de 3.270 g. Encefalopatia moderada a grave estava presente em 77,4%, enquanto 11,9% apresentaram lesão cerebral moderada a grave pela RM. Os parâmetros das gasometrias pós-natais apresentaram associação significativa com a gravidade da lesão cerebral. Para cada redução de 0,1 unidade no pH pós-natal, houve aumento das chances de lesão cerebral moderada a grave: OR 1,49; IC95% 1,02–2,16; P=0,038. Cada redução de 1 mmol/L no BD pós-natal esteve associada ao aumento das chances de lesão cerebral moderada a grave: OR 1,19; IC95% 1,07–1,32; P=0,002. Para cada redução de 1 mmol/L no bicarbonato pós-natal, observou-se: OR 1,22; IC95% 1,07–1,39; P=0,003. Também foram encontradas associações entre maior acidose pós-natal e encefalopatia clínica moderada a grave. Para o pH pós-natal, o OR foi 1,49 (IC95% 1,03–2,17; P=0,035), enquanto para o BD foi 1,10 (IC95% 1,03–1,17; P=0,005). Em contraste, os parâmetros das gasometrias arterial e venosa do cordão umbilical, de forma geral, não apresentaram associação significativa com lesão cerebral moderada a grave ou com encefalopatia clínica moderada a grave. Foi identificada uma associação não linear para o pH arterial do cordão: entre recém-nascidos que já apresentavam valores relativamente baixos de pH, reduções adicionais estiveram associadas a maior chance de lesão cerebral. Pontos de corte das gasometrias pós-natais Para predizer lesão cerebral moderada a grave na RM, os pontos de corte identificados foram: pH ≤6,98: AUC 0,64; BD ≤−11,6 mmol/L: AUC 0,78, sensibilidade 92,3% e especificidade 51,9%; HCO3 ≤13,2 mEq/L: AUC 0,76, sensibilidade 61,5% e especificidade 81,6%. Para encefalopatia clínica moderada a grave, os pontos de corte foram pH ≤7,18, BD ≤−9,9 mmol/L e HCO3 ≤12,8 mmol/L. Entre esses parâmetros, apenas o BD demonstrou desempenho discriminativo considerado razoável, com AUC de 0,71, sensibilidade de 72,2% e especificidade de 62,5%. Uma subanálise com 92 recém-nascidos que apresentavam dados das gasometrias arterial e venosa do cordão e pós-natal manteve os principais achados. Nessa população, pH, BD e bicarbonato pós-natais permaneceram significativamente associados à lesão cerebral moderada a grave, enquanto as gasometrias do cordão não apresentaram associações significativas. Discussão O principal achado é que a avaliação do equilíbrio ácido-base após o nascimento apresentou associação mais consistente com a gravidade da encefalopatia e da lesão cerebral na RM do que as gasometrias do cordão umbilical. Os autores destacam que a acidemia encontrada na gasometria do cordão pode sofrer influência de fatores além da hipóxia fetal, incluindo clampeamento tardio do cordão, intensidade das contrações uterinas e indução do trabalho de parto. As medidas pós-natais podem estar menos sujeitas a algumas dessas influências. Os resultados sugerem que parâmetros como BD e bicarbonato pós-natais podem acrescentar informações à avaliação precoce de recém-nascidos com suspeita de EHI. O BD pós-natal apresentou particularmente boa sensibilidade para identificar lesão cerebral moderada a grave no ponto de corte de −11,6 mmol/L, embora com especificidade limitada. Entre os pontos fortes do trabalho estão a avaliação simultânea da gravidade clínica e da lesão na RM, a utilização de sistemas padronizados de classificação e a subanálise dos pacientes que apresentavam conjuntos completos de gasometrias. As principais limitações foram o desenho retrospectivo, dados gasométricos ausentes, possível viés de seleção e tamanho amostral relativamente limitado. Apenas 71% dos pacientes possuíam gasometria pós-natal obtida dentro da primeira hora. Além disso, recém-nascidos que morreram antes da realização da RM foram excluídos, o que pode ter provocado sub-representação dos casos mais graves. O estudo não incluiu dados de espectroscopia por ressonância magnética nem resultados do neurodesenvolvimento em curto ou longo

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