Barreiras e facilitadores da vacinação hospitalar pediátrica: estudo qualitativo em hospitais infantis dos EUA A vacinação hospitalar pediátrica é reconhecida como uma oportunidade estratégica para reduzir o atraso vacinal de rotina, mas a administração ainda é rara durante a internação e frequentemente postergada para o momento da alta. Em estudo qualitativo com 36 profissionais em 11 hospitais infantis dos EUA, a falta de padronização nos fluxos de trabalho e a concentração da aplicação no momento da alta hospitalar associaram-se a atrasos e perda de doses. A identificação das crianças com esquema incompleto depende de processos manuais no prontuário eletrônico e raramente conta com ferramentas automatizadas para imunobiológicos de rotina. A triagem do estado vacinal ocorre com frequência na admissão, mas a aplicação concentra-se na alta hospitalar, gerando perda de oportunidade quando ocorrem atrasos no envio do imunobiológico ou recusa familiar por pressa de ir embora. Embora 100% dos hospitais participantes tenham estoques das vacinas infantis de rotina na farmácia central, ferramentas automatizadas e alertas em prontuário eletrônico existem predominantemente apenas para influenza e COVID-19. Médicos hospitalistas, enfermeiros e farmacêuticos reconhecem responsabilidade compartilhada no processo, porém atribuem aos médicos a tarefa de prescrever e conduzir conversas sobre hesitação vacinal. Populações de maior risco, como recém-nascidos em unidades de terapia intensiva neonatal (UTIN) e crianças com diagnósticos crônicos (ex.: diabetes recebendo PCV20), apresentam maior priorização institucional para atualização vacinal do que crianças em enfermarias gerais. Sobre o artigo Título original: Barriers and Facilitators of Inpatient Vaccine Delivery at US Children’s Hospitals: A Qualitative Study Autores: Mersine A. Bryan, Alexandra J. Mihalek, Richard Torres et al. Periódico: Pediatrics Ano: 2026 Tipo de estudo: Estudo qualitativo multicêntrico DOI: 10.1542/peds.2025-075278 Objetivo Explorar os principais determinantes e fatores contextuais relacionados à administração de vacinas durante a internação em uma amostra de 11 hospitais pediátricos dos Estados Unidos, utilizando um referencial de implementação estruturado. Métodos Trata-se de um estudo qualitativo multicêntrico que utilizou a base de dados Pediatric Health Information System (PHIS) para selecionar 11 hospitais pediátricos integrantes da rede Pediatric Research in Inpatient Setting (PRIS), nos Estados Unidos. A amostragem proposital estratificou as instituições em dois grupos: alta taxa de administração de vacinas não influenza (tercil superior, n = 6) e baixa taxa de administração (tercil inferior, n = 5), com base nos registros de 2017 a 2019. Foram realizadas entrevistas semiestruturadas com 36 profissionais clínicos atuantes no cuidado de crianças internadas: 14 enfermeiros, 12 farmacêuticos e 10 médicos hospitalistas pediátricos. As entrevistas ocorreram entre dezembro de 2023 e dezembro de 2024, remotamente (telefone ou videoconferência). O roteiro baseou-se nos cinco domínios do Consolidated Framework for Implementation Research (CFIR): características da intervenção, ambiente interno, ambiente externo, características dos indivíduos e processo. A análise dos dados foi conduzida por meio de análise temática prática com codificação independente dupla até atingir suficiência teórica. Principais resultados: barreiras e facilitadores da vacinação hospitalar pediátrica A amostra final contou com 36 participantes com idade mediana de 40 anos (intervalo interquartil [IIQ]: 35 a 45 anos), sendo 89% (n = 32) do sexo feminino, 72% (n = 26) autodeclarados brancos, 14% (n = 5) asiáticos, 11% (n = 4) de mais de uma raça e 3% (n = 1) de etnia hispânica. Os principais determinantes identificados pelo modelo CFIR incluíram: Momento da administração (Timing): Todos os centros relataram descompasso temporal. A triagem vacinal é feita pela enfermagem na admissão, mas a prescrição e a administração são postergadas para o dia da alta. Como as vacinas não são medicamentos com horário fixo de aprazamento, os enfermeiros precisam solicitá-las à farmácia como demanda pontual; demoras de 30 a 45 minutos no envio resultaram em doses suspensas por saída do paciente ou cansaço dos familiares. Ambiente de prontuário eletrônico e TI (Outer Setting): Todos os 11 hospitais tinham acesso a sistemas estaduais de registro de imunização (IIS - Immunization Information System). Contudo, em vários centros, a importação desses dados para o prontuário eletrônico (EHR) exigia comando manual. Ordens estruturadas e alertas automáticos existiam amplamente para influenza e COVID-19, mas estavam ausentes para o calendário infantil de rotina. Percepção de papéis e hesitação vacinal (Inner Setting / Individuals): Embora enfermeiros conduzam o questionário na admissão e farmacêuticos analisem o histórico vacinal no registro estadual, a função de abordar os pais e contornar a hesitação foi apontada como exclusivamente médica por todas as categorias. Enfermeiros e farmacêuticos relataram falta de treinamento formal e de roteiros de comunicação estruturada para lidar com dúvidas dos cuidadores. Custos e programas públicos (Outer Setting): Profissionais manifestaram incerteza quanto ao impacto financeiro das vacinas administradas na internação para o hospital e para a família. Hospitais cadastrados no programa federal Vaccines for Children (VFC) relataram barreiras burocráticas operacionais, incluindo necessidade de triagem duplicada e controle manual de estoque comercial separado em folhas de papel. Populações específicas: A vacinação mostrou-se mais incorporada à rotina de unidades especializadas com estadias longas, como a UTIN, e em situações clínicas que demandam vacinas adicionais (por exemplo, vacina pneumocócica conjugada 20-valente [PCV20] em diagnósticos recentes de diabetes mellitus, nefropatias ou lesões esplênicas). Conclusão dos autores Apesar da grande variabilidade nas taxas de administração de vacinas entre os hospitais infantis avaliados, existem determinantes e barreiras comuns compartilhados pelas equipes multiprofissionais. Soluções que mitiguem essas barreiras operacionais e atendam às demandas de médicos hospitalistas, enfermeiros e farmacêuticos são essenciais para viabilizar e aprimorar a entrega de imunobiológicos durante a hospitalização. O que muda na prática A internação hospitalar pediátrica representa uma janela de oportunidade para identificar atrasos vacinais, mas a prática atual de concentrar a vacinação exclusivamente na alta hospitalar compromete a efetividade do processo. A instituição de alertas eletrônicos padronizados no prontuário para vacinas de rotina e a disponibilização dos frascos em refrigeradores das próprias unidades de internação podem reduzir o tempo de espera. Além disso, capacitar enfermeiros e farmacêuticos em comunicação sobre vacinas reduz a sobrecarga sobre a equipe médica e fortalece a adesão dos cuidadores. Limitações Representatividade amostral: Todos os 11 centros eram hospitais infantis terciários vinculados às redes PHIS e PRIS, o que pode não
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