Cólica e choro excessivo na infância estão associados a alergia alimentar futura?

Fonte: Journal of Pediatrics

Cólica e choro excessivo na infância estão associados a alergia alimentar futura? Sobre o artigo  A cólica infantil é atualmente compreendida como um distúrbio da interação intestino-cérebro, potencialmente relacionado a inflamação gastrointestinal, disbiose da microbiota, aumento da permeabilidade intestinal e ativação imunológica. Esses mecanismos também têm sido implicados na fisiopatologia das doenças alérgicas. Os autores destacam a importância de diferenciar cólica infantil de choro excessivo sem cólica. No estudo, a cólica foi caracterizada por choro inconsolável associado a manifestações aparentes de desconforto abdominal, enquanto o choro excessivo sem esses sinais constituiu uma categoria distinta. Estudos prévios da mesma coorte já haviam identificado associações entre cólica infantil e eczema, rinite alérgica e asma ao longo da infância e adolescência. A hipótese do presente trabalho foi que a cólica, mas não o choro excessivo isolado, também estaria associada a maior risco posterior de alergia alimentar e sensibilização mediada por IgE. Métodos utilizados Foi realizada análise prospectiva do Project Viva, coorte de mães e filhos recrutada em Massachusetts, Estados Unidos, entre 1999 e 2002 e acompanhada desde a gestação até a adolescência. A análise principal incluiu 1.263 crianças com informações sobre comportamento de choro/cólica na infância e dados posteriores sobre alergia alimentar. Os participantes foram classificados em três grupos mutuamente exclusivos: sem cólica e sem choro excessivo: 824 crianças (65%); choro excessivo sem cólica: 119 (10%); cólica, com ou sem choro excessivo: 320 (25%). Alergias alimentares foram avaliadas por relato parental na primeira infância, adolescência inicial e adolescência intermediária. Foram investigadas alergias a leite de vaca, ovo, amendoim, castanhas e outros alimentos. Em uma subamostra de 242 participantes, foram analisadas concentrações plasmáticas de IgE específica (sIgE) para clara de ovo, leite de vaca, amendoim, trigo, soja e gergelim. Sensibilização foi definida como sIgE ≥0,35 kUA/L. As associações entre cólica/choro excessivo e alergia alimentar foram avaliadas por regressão logística, com ajuste para sexo e raça/etnia da criança. Para concentrações contínuas de sIgE, foram empregados modelos de regressão Tobit.  Resultados A amostra foi composta por 50% de participantes do sexo feminino e 70% de crianças brancas não hispânicas. Primeira infância A prevalência geral de alergia alimentar relatada pelos pais foi de aproximadamente 10%. As alergias a amendoim/castanhas foram as mais frequentes (6%), seguidas por leite de vaca (4%) e ovo (2,5%). Crianças que apresentaram cólica na infância tiveram maior risco de qualquer alergia alimentar: 13% versus 8%; OR 1,7; IC95% 1,1–2,7. Também foi observada associação entre cólica e o desfecho combinado de alergia a soja, peixe/frutos do mar, trigo ou gergelim: OR 3,1; IC95% 1,3–7,6. Para alergia ao leite e ao ovo, as estimativas foram maiores no grupo com cólica, porém os intervalos de confiança incluíram a hipótese nula. Adolescência inicial Na adolescência inicial, a associação tornou-se particularmente evidente para amendoim e castanhas. Crianças com antecedente de cólica apresentaram: Alergia ao amendoim: 8% versus 4%; OR 2,1; IC95% 1,1–4,1. Alergia a castanhas: 8% versus 3%; OR 2,6; IC95% 1,3–5,2. Adolescência intermediária A associação com alergia ao amendoim persistiu e apresentou maior magnitude: 8% versus 3%; OR 3,3; IC95% 1,5–7,5. Para alergia a castanhas, o OR foi 2,0 (IC95% 0,8–4,9), com intervalo de confiança incluindo a hipótese nula. Sensibilização por IgE Entre os 242 participantes avaliados laboratorialmente, crianças com antecedente de cólica apresentaram 2,5 vezes maior chance de sensibilização ao amendoim: 22% versus 11%; OR 2,5; IC95% 1,1–5,6. Além disso, apresentaram maiores concentrações de IgE específica para amendoim no modelo Tobit: β = 29,6 kUA/L; IC95% 3,5–55,7. Não foram encontradas associações equivalentes para IgE específica contra clara de ovo, leite de vaca, trigo, soja ou gergelim. Um achado particularmente importante foi a ausência de associação consistente entre choro excessivo sem cólica e os diferentes desfechos de alergia alimentar.  Discussão Os resultados sugerem que a cólica infantil pode funcionar como marcador precoce de risco alérgico, particularmente para alergia persistente a amendoim e castanhas. Os autores ressaltam que os resultados não demonstram que a cólica cause alergia alimentar. A interpretação proposta é que a cólica pode representar manifestação precoce de mecanismos biológicos compartilhados, envolvendo inflamação intestinal, alterações da microbiota e ativação imunológica. Essa interpretação é reforçada pela associação entre cólica e sensibilização ao amendoim demonstrada por sIgE, além dos dados clínicos provenientes dos relatos parentais. A ausência de associação semelhante com o choro excessivo isolado reforça a proposta de que cólica e choro excessivo não devem ser considerados fenômenos equivalentes em estudos sobre desfechos imunológicos posteriores. Os autores discutem ainda uma possível aplicação clínica: como a cólica costuma surgir nas primeiras semanas de vida e atingir seu pico por volta de 6–8 semanas, poderia representar um marcador disponível antes da janela de introdução precoce de alimentos potencialmente alergênicos. Entretanto, essa hipótese ainda necessita de estudos prospectivos adicionais e ensaios clínicos antes que a cólica possa ser incorporada formalmente à estratificação de risco para alergia alimentar. Entre as limitações estão a pequena subamostra com dosagem de IgE, uso de alergia alimentar relatada pelos pais, possibilidade de erros de classificação, diferenças entre a definição de cólica empregada e critérios utilizados em outros estudos e limitada generalização, uma vez que a coorte era predominantemente branca não hispânica e de nível socioeconômico elevado. Os autores também ressaltam que sensibilização por IgE não equivale necessariamente a alergia alimentar clínica.  Conclusão A presença de cólica na infância esteve associada a maior risco posterior de alergia alimentar, com destaque para alergias persistentes a amendoim e castanhas durante a adolescência. A associação foi apoiada por achados laboratoriais: crianças com história de cólica apresentaram maior sensibilização e maiores concentrações de IgE específica para amendoim na primeira infância. Em contraste, choro excessivo sem cólica não apresentou associação consistente com alergia alimentar. Os autores propõem que a cólica seja considerada um possível marcador clínico precoce de maior risco atópico, e não uma causa direta de alergia alimentar. A identificação desse grupo poderia futuramente contribuir para estratégias preventivas, incluindo introdução precoce e consistente de alimentos potencialmente alergênicos, especialmente amendoim, embora essa aplicação específica ainda necessite de validação prospectiva.  Insights clínicos A cólica infantil esteve associada a maior risco futuro

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