Impacto da idade no momento da cirurgia sobre as taxas de complicações após correção primária de hipospádia Sobre o artigo A hipospádia é uma malformação congênita caracterizada pela localização anormal do meato uretral na face ventral do pênis, podendo estar associada a prepúcio em capuz dorsal, curvatura ventral e, nos casos mais graves, alterações como escroto bífido e ambiguidade genital. A correção cirúrgica busca restabelecer uma uretra funcional, posicionar o meato em localização ortotópica e proporcionar um pênis reto e com aspecto estético adequado. O momento ideal para a cirurgia permanece motivo de discussão. Recomendações internacionais tradicionalmente situam a correção entre 6 e 18 meses de idade, podendo se estender até 24 meses. Entretanto, essas recomendações foram fundamentadas predominantemente em evidências de baixo nível e opinião de especialistas. Na prática, a idade da cirurgia varia consideravelmente devido a fatores como acesso aos serviços de saúde, encaminhamento, condições clínicas, aspectos culturais e preferências familiares. Enquanto a cirurgia precoce levanta preocupações relacionadas à anestesia e ao manejo perioperatório, o adiamento do procedimento tem sido associado em alguns estudos a maior risco de complicações e consequências psicossociais. Diante da inconsistência dos estudos observacionais disponíveis, os autores realizaram uma revisão sistemática e metanálise para avaliar especificamente o impacto da idade sobre as complicações após a correção primária da hipospádia. Métodos utilizados Foi realizada revisão sistemática de acordo com as recomendações PRISMA e do Cochrane Handbook for Systematic Reviews of Interventions. O protocolo foi registrado no PROSPERO sob o número CRD420251106459. A busca foi realizada em maio de 2025 nas bases PubMed, ScienceDirect, Embase e Cochrane Library, sem restrição quanto ao ano de publicação e limitada a artigos em inglês. Foram elegíveis ensaios clínicos randomizados e estudos comparativos não randomizados que analisassem a idade dos pacientes em relação às complicações após correção da hipospádia. Foram incluídos exclusivamente dados referentes a cirurgias primárias; estudos com reoperações ou revisões foram excluídos quando não era possível separar os resultados referentes à primeira cirurgia. Todas as técnicas cirúrgicas de correção da hipospádia foram aceitas. Os principais desfechos avaliados foram: complicações cirúrgicas globais; deiscência da glande; fístula uretrocutânea; estenose meatal; estenose uretral. Para a análise das complicações, os pacientes foram divididos em dois grupos: cirurgia realizada antes dos 2 anos versus após os 2 anos de idade. A seleção dos estudos e a extração dos dados foram realizadas de maneira independente e duplicada. O risco de viés dos estudos não randomizados foi avaliado pela Newcastle–Ottawa Scale (NOS). Os resultados foram agrupados como odds ratio (OR) com intervalo de confiança de 95% (IC95%), utilizando o RevMan 5.4. A heterogeneidade foi avaliada pelo I², e a certeza global das evidências foi analisada pelo sistema GRADE. Não foi realizada análise de sensibilidade devido ao pequeno número de estudos e à heterogeneidade dos desenhos e desfechos. Resultados A busca identificou inicialmente 946 artigos. Após remoção das duplicatas e avaliação de títulos e resumos, 22 estudos passaram por análise do texto completo. Quatorze foram excluídos, resultando em 8 estudos incluídos na metanálise, totalizando 2.899 pacientes. Os estudos foram publicados entre 2006 e 2023 e incluíram populações da Europa, Ásia, Oriente Médio e Estados Unidos. Houve considerável diversidade quanto à idade dos pacientes, gravidade da hipospádia e técnicas cirúrgicas utilizadas. Complicações globais A cirurgia realizada antes dos 2 anos apresentou tendência a menor ocorrência global de complicações: OR 0,60; IC95% 0,34–1,07; I² = 69%. Apesar da direção do efeito favorecer a cirurgia precoce, a diferença não atingiu significância estatística, além de apresentar heterogeneidade substancial. Deiscência da glande Este foi o principal resultado estatisticamente significativo da metanálise. A correção antes dos 2 anos foi associada a uma redução significativa da ocorrência de deiscência da glande: OR 0,24; IC95% 0,07–0,84; I² = 39%. Portanto, entre os desfechos avaliados, a deiscência da glande apresentou a evidência mais clara de associação com a idade da cirurgia. Fístula uretrocutânea O resultado agrupado favoreceu a cirurgia antes dos 2 anos: OR 0,30; IC95% 0,08–1,11; I² = 80%. Entretanto, a diferença não alcançou significância estatística e houve elevada heterogeneidade entre os estudos. Estenose meatal Também foi observada tendência de menor ocorrência após cirurgia precoce: OR 0,41; IC95% 0,13–1,37; I² = 0%. O resultado não foi estatisticamente significativo. Estenose uretral A análise mostrou: OR 0,52; IC95% 0,27–1,01; I² = 0%. Embora o efeito estimado tenha favorecido a cirurgia antes dos 2 anos e tenha se aproximado do limiar de significância estatística, o resultado permaneceu não significativo. De modo geral, portanto, os resultados agrupados apontaram na direção de menor ocorrência de complicações entre crianças operadas precocemente, mas apenas a redução da deiscência da glande apresentou significância estatística. A certeza das evidências pelo GRADE variou predominantemente de baixa a moderada. Discussão Os resultados sugerem que a idade no momento da correção primária da hipospádia pode estar relacionada ao risco de determinadas complicações cirúrgicas, especialmente à deiscência da glande. Os autores discutem diferentes mecanismos potencialmente relacionados a melhores resultados em pacientes mais jovens. Entre eles estão maior elasticidade dos tecidos, maior conteúdo de colágeno e elastina, maior presença de sinusoides vasculares na placa uretral e alterações relacionadas à cicatrização ao longo do crescimento. Alterações estruturais relacionadas à idade na placa uretral, incluindo aumento da deposição de colágeno, redução das fibras elásticas, diminuição da densidade celular e menor quantidade de sinusoides vasculares, poderiam produzir condições menos favoráveis à regeneração tecidual. Alterações na expressão de citocinas inflamatórias também são apresentadas como possíveis mecanismos envolvidos. Um achado relevante é que os dados agrupados não sustentaram o adiamento da cirurgia exclusivamente para permitir maior crescimento peniano. Embora operar tecidos menores possa teoricamente aumentar a dificuldade técnica, esse possível efeito não foi observado nos resultados combinados. Outro ponto importante foi a exclusão de reoperações da análise. Pacientes mais velhos de algumas séries anteriores apresentavam maior proporção de procedimentos revisionais, dificultando determinar se o aumento das complicações decorria propriamente da idade ou da complexidade das reoperações. A presente metanálise restringiu a avaliação às correções primárias. Apesar disso, existem importantes fatores de confusão. Técnica de uretroplastia, gravidade da hipospádia, calibre da sutura, tipo
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